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Machu Picchu: a impressionante cidade dos incas

Quem escreveu

Lalai Persson

Data

11 de May, 2018

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Desde adolescente eu sonhava em conhecer Machu Picchu, no Peru, mas ao longo dos anos eu fui trocando a cidade perdida dos incas pelos festivais de música. Foram mais de quarenta anos para eu, finalmente, alcançar seu topo, me encantar com suas antigas construções, histórias, mistérios e muita, mas muita cultura. Machu Picchu é todo o monte de adjetivos que ouvimos quando alguém fala de lá: é impressionante, é mágico, é belo, é de cair o queixo.

Todos meus planos anteriores previam fazer a trilha inca, que tem duração de quatro dias, mas preguiçosa que me tornei, a minha ida foi do jeito que eu gosto de viajar atualmente: com conforto. Mas aventureira que um dia fui, ainda me resta uma vontade (escondida) de voltar para fazer a trilha Inca com todos os seus percalços. Quem sabe um dia.

Eu confesso que até a minha chegada a Machu Picchu eu não sabia exatamente o que me esperava. Não falo da cidade dos incas, mas como era chegar lá. A confusão era latente na minha cabeça, então se você, viajante, nunca esteve neste lugar magnífico, eu vou pegar na sua mão e contar algumas coisas básicas junto com a pincelada na maravilha que foi a minha experiência.

Eu já estava no Peru há quase uma semana com a Mountain Lodges. Machu Picchu seria a cereja do bolo e eu mal podia esperar por ela. Após a nossa visita ao sítio arqueológico de Ollantaytambo, seguimos para a estação de onde saem os trens para Águas Calientes, a cidade aos pés de Machu Picchu.

A estação Ollantaytambo fica aos pés dos Andes, a plataforma na altura dos trilhos e ela costuma estar sempre lotada. Os trens, na maioria, são antigos (alguns datados de 1920), reformados e super charmosos. São duas empresas, a Peru Rail, com a qual que eu viajei, e a Inca Rail. Os preços variam bastante de acordo com o tipo de trem e serviço contratado. Barato eu já aviso que não é. As tarifas começam em 50 dólares cada perna e algumas chegam a 400 dólares.

Machu Picchu
Olha a cara de contemplação do Daniel Nunes. Foto: Lalai Persson

A viagem inteira é de tirar o fôlego. Ela dura quase duas horas e meia partindo de Ollantaytambo e cerca de quatro horas a partir de Cusco. A maioria dos trens tem janelas até o teto, algumas 360º graus, justamente para apreciar a paisagem que vai desfilando na nossa frente e sob nossas cabeças, e serviço de bordo. Eu fui com a cara colada na janelinha do início ao fim do percurso. A viagem de trem é, na real, uma atração a parte. Não só pela beleza do passeio, mas também por ter opções com serviços mais luxuosos que conta com música ao vivo, menu degustação e champagne de boas-vindas, incluindo até varandinha externa para ir apreciando o caminho.

Peru Rail, Inca Rail
A caminho de Águas Calientes com a Peru Rail. Foto: Lalai Persson

A única coisa que eu ouvia falar sobre Águas Calientes: que a cidade é feia e totalmente desprovida de charme. Uma pena, mas a real é essa mesmo. Mas é nela que ficam os hotéis, hostels, feiras e restaurantes. Talvez esse contraponto aumente ainda mais o anseio pela cidade dos incas.

Hotel Inkaterra Aguas Calientes
Gaia Passarelli e eu flagradas andando de roupão na área comum do Inkaterra. Foto: Adriano Fagundes

Chegamos na hora do almoço em Águas Calientes. Estávamos famintos, suados e cansados. Almoçamos e finalmente ganhamos um merecido descanso no hotel Inkaterra, um dos melhores da cidade. O hotel merece todo um textão a parte, então vou resumir aqui. Ele fica imerso na floresta, é todo construído em estilo colonial, super charmoso, tem termas e piscinas naturais, incluindo opção aquecida da qual a gente entrou para não sair mais. O hotel conta com passeios guiados, incluindo um focado em botânica explorando as plantas e chás locais, biblioteca e até uma ótima lojinha de presentes. Os quartos são espaçosos e super confortáveis, muitos deles com vista para jardins que cercam toda a propriedade, e tem decoração de tapeçaria andina de muito bom gosto. É possível também se entregar as sessões de massagem e de sauna andina (que eu fiz e amei!). O restaurante é uma ótima pedida e ainda tem vista para o Rio Vilcanota. O cardápio é todo baseado na culinária andina, os pratos fartos, bonitos e de comer de joelhos. O Inkaterra é uma ótima pedida para casais, pois o clima por lá é bem romântico. É um ótimo refúgio para se preparar para Machu Picchu e para relaxar na volta.

Hotel Inkaterra - Águas Calientes
Eu numa das piscinas naturais do Inkaterra.

Ah, vamos a Machu Picchu

Águas Calientes fica a 2 mil metros de altitude enquanto Machu Picchu 2.400. Não é tão alto comparado às montanhas andinas que o cercam. A subida é super democrática da cidade para o sítio arqueológico. Só é possível chegar lá de micro ônibus, então para quem quer ver o sol nascer no horizonte vai ter que madrugar. Saímos do hotel às 5h30 da manhã para encarar a fila do ônibus, da qual não tem como fugir. Mas tudo é bem organizado, os ônibus lotam rapidão e saem na sequência.

O dia nascendo em Machu Picchu
O dia nascendo em Machu Picchu. Foto: Lalai Persson

Aqui valem ASPAS…. uma das coisas mais legais de viajar com a Mountain Lodges é o fato de que eles têm uma precisão de horário inacreditável. Não há como evitar filas em Machu Picchu e em tudo que envolve sua visita, mas ainda assim madrugamos o suficiente para esperar o menor tempo possível pelo nosso lugar no ônibus, chegamos no topo por volta das 6h30, achamos o lugar menos muvucado para uma aula sobre Machu Picchu com nossa super guia Silvia e ainda assistimos o sol despontando no horizonte. Foi de querer sentar no cantinho e chorar de tão lindo.

A foto mais clássica de Machu Picchu. Foto: Adriano Fagundes
A foto mais clássica de Machu Picchu. Foto: Adriano Fagundes

Atravessar a catraca para adentrar Machu Picchu, andar por seus corredores até finalmente ver descortinar diante dos seus olhos aquele cartão postal tantas vezes visto e sonhado causa uma emoção indescritível. Para a nossa sorte, o dia estava completamente aberto. O céu límpido e azul, os raios do sol surgindo por trás da alta cadeia de montanhas que circundam a cidadela. É aquele momento que você quer um pouco de silêncio, em que seu coração explode de alegria pela vida ser tão bonita. Gosto de lugares assim. E, por mais que a gente tenha a sensação de já conhecer aquele lugar de tanta foto que viu, ele vai muito, mas muito, além de tudo que imaginamos. É a melhor cereja do bolo que você pode ter numa viagem. Impossível ficar incólume a tal grandeza. Impossível não trazer à tona tantas perguntas de como aquilo tudo foi construído em pleno século XV. Machu Picchu foi descoberta apenas em 1911. Por quatro séculos ficou escondida (ainda bem!) no meio da selva, o que a protegeu destruição massiva que os espanhóis fizeram durante a época em que dominaram o Peru.

Machu Picchu. Foto: Lalai Persson
Machu Picchu. Foto: Lalai Persson

Ainda assim hoje apenas 30% das construções são originais. É fácil reconhecer a parte reconstruída, já que nela as pedras são menores e há mais espaçamento nos seus encaixes. Ou seja, em pleno século XX, quando foi reconstruída, não foi possível fazê-la com a mesma maestria que os incas. Gênios! Ali, de acordo com a história, foi tudo planejado para a passagem do deus do sol. E quando seus primeiros raios penetram a área, sabemos que eles conseguiram o que queriam.

Confesso que foi difícil prestar atenção às sábias palavras da Silvia, uma verdadeira enciclopédia sobre o assunto. Ela fala com paixão e orgulho sobre a história de seus antepassados. Seguimos para o mirante à esquerda da cidadela, que ainda estava tranquilo e oferece uma vista bem bonita. Ali ouvimos um pouco sobre a relação entre a arquitetura e a astronomia nas construções incas, tão presente em tudo que visitamos no Peru. Ela narra algumas das várias teorias de como aquelas pedras chegaram ali em cima, de como o lugar foi ocupado e, por fim, abandonado.

Machu Picchu conta com duas grandes áreas, a agrícola formada por terraços e áreas de armazenamento de alimentos; e a urbana, com uma zona sagrada com templos, praças e mausoléus. A distribuição dos templos, casas e cemitérios é de uma perfeição impressionante. Antes, porém, de descer para percorrer suas ruas, conhecer de perto seu relógio solar, suas praças e templos, eu encarei duas horas de subida para o topo da velha montanha. Não foi fácil, porque a subida (estreita) é uma das mais íngremes que já encarei na vida contando com diversos degraus irregulares de pedras que dificultam ainda mais o percurso. São apenas liberadas 400 pessoas por dia divididas em dois horários pela manhã (não há subida a tarde). A velha montanha fica a 3.082 metros de altitude acima do nível do mar, ou seja, 652 metros acima da cidade inca.

Machu Picchu - Old Mountain
Gaia Passareli retomando o fôlego pra continuar a subida pra montanha velha
Machu Picchu - Old Mountain
Eu feliz de ter conseguido alcançar o topo do topo.

Não há nenhum resquício de construções incas na velha montanha. A estrela por lá é realmente a vista que se tem da cidadela, dos penhascos, das montanhas em volta, que faz valer a pena cada suor deixado no caminho. A subida é nível moderado pra difícil e requer um pouco de condicionamento físico. Pode-se levar entre 1 e 3 horas de caminhada dependendo de cada um. Eu levei 2 horas. Alguns amigos quase não alcançaram o topo, mas o que é a perseverança, não é mesmo? Inclusive vi uma senhorinha subindo de bengala que chegou com a gente lá em cima com a gente. Eu quase chorei de emoção por mim e por ela.

Machu Picchu / Old Mountains
Machu Picchu visto da velha montanha. Olha ela bem pequena lá embaixo. Foto: Lalai Persson
Machu Picchu
A felicidade de alcançar o topo da velha motanha
Machu Picchu
Machu Picchu lotou ou não lotou? Foto: Lalai Persson

Quando retornei à base, a cidadela estava lotada e o sol já a pino queimando a minha cabeça. Um ponto muito importante: não há venda de nada dentro do parque, nem mesmo água e banheiro. Por isso é importante levar uma fruta ou algo para beliscar e, claro, água, muita água. A área para percorrer é grande e com muitos degraus gigantescos para serem subidos e descidos. O fôlego pode faltar facilmente. A minha visita foi rápida, pois acabei administrando mal o tempo na velha montanha e tinha um trem à nossa espera, além da grande fila para pegar o ônibus para descer para a cidade. Foi um deus nos acuda, mas chegamos a tempo de embarcar.

Machu Picchu
Machu Picchu: os atuais moradores da cidadela. Foto: Lalai Persson

Já dentro do trem veio aquela certeza de “preciso voltar”. Machu  Picchu merece tempo, merece momentos de silêncio, merece muita contemplação. Estávamos todos esbaforidos e com os olhos brilhando de alegria, mesmo os que já tinham visitado o sítio antes, mesmo a Silvia que costuma estar lá toda semana. Como disse o Ricardo Freire após a viagem que fez pra lá “…a beleza hipnótica de Machu Picchu eleva a civilização inca a outro patamar. Existe uma motivação estética para a cidadela ter sido construída ali. E é isso que eu quero, de novo, absorver. Como foi construído, para que foi feito e como funcionava são detalhes que não me importarão naquele momento. Vou querer contemplar até cansar. E só então vou percorrer de novo a cidadela.”

A volta para Cusco foi silenciosa. Todos nós queríamos absorver tudo que tínhamos vivido nesses últimos dias, em especial a energia que emana de Machu Picchu.

A minha viagem ao Peru foi uma das mais especiais que já fiz. É muita energia boa, muita cultura, muita história, muita natureza, muita beleza. O Peru não é exatamente um destino barato, a não ser que você seja um mochileiro profissional, e requer planejamento. Foi a minha primeira vez, então não sei exatamente como é ir para lá e ter que programar cada um dos passeios. Essa foi a vantagem de viajar com a Mountain Lodges, que cuida de tudo do começo ao fim, além de oferecer áreas possíveis de serem exploradas apenas com eles a tiracolo.

Gostei da experiência de estar em um hotel a cada noite numa cidade diferente. Isso trouxe um bom recorte da região de Lares e do Vale Sagrado e a certeza de que há vários lugares para voltar e outros para conhecer. O Peru me surpreendeu como eu desconfiava que surpreenderia.

Eu já quero voltar. :)

Infos práticas

Machu Picchu é a atração turística número um do Peru e está listada como uma das Sete Novas Maravilhas do Mundo. O título não é à toa. Foram criadas várias regras para vetar o turismo massivo em nome da preservação do sítio. Hoje os ingressos são limitados a 2.500 pessoas por dia, sendo divididas em dois grupos: o da manhã (das 6 às 12h) e o da tarde (das 12 às 17h30). Nós fomos no da manhã. O melhor é chegar o mais cedo possível.

O valor dos ingressos variam entre 41 dólares (meia) a 86 dólares (inteira incluindo uma atração extra a escolher, a velha montanha ou Huayna Picchu). Recomenda-se comprar com bastante antecedência, especialmente se você quiser visitar uma das atrações extras. Quem quiser passar o dia todo em Machu Picchu terá que comprar ingressos para os dois períodos. Não esquecer de levar comida!

Para a visita é necessário contratar um guia caso não tenha um. A gente descobre que ele é realmente imprescindível, porque há muito para saber sobre sua história e construções. Caso não tenha contratado, é possível conseguir um logo na entrada do sítio. Cada guia poderá ter 16 pessoas no máximo no grupo e escolher um dos três circuitos oferecidos.

Quem estiver hospedado em Cusco e quiser fazer um bate-volta, o ideal é pegar um trem que saia até às 8 horas da manhã, pois assim dá tempo de comer algo antes de subir para Machu Picchu. Há trens saindo até 21h30, o que é uma boa opção, pois dá tempo de jantar antes de retornar para Cusco. Eu super recomendo o Incontri del pueblo Viejo, que tem uma cozinha variada entre a italiana e a peruana. A comida é excelente e o serviço também. A vantagem é que ele fica praticamente dentro da estação.

No caso da viajar com a Mountain Lodges of Peru todos os passeios estão inclusos no preço, incluindo trem e a entrada de Machu Picchu. Ou seja, não precisa se preocupar com nada. É só seguir. Eu virei fã e super recomendo.

Para ler os demais roteiros do Peru

Guia Cusco
Explorando o Peru: Cusco – parte 1
Explorando o Peru: Vale Sagrado – parte 2 
Explorando o Peru: Rota dos Lares & Ollantaytambo – parte 3

*Foto destaque: Scott Umstattd – Unsplash

Quem escreveu

Lalai Persson

Data

11 de May, 2018

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Lalai Persson

Lalai prometeu aos 15 anos que aos 40 faria sua sonhada viagem à Europa. Aos 24 conseguiu adiantar tal sonho em 16 anos. Desde então pisou 33 vezes em Paris e não pára de contar. Não é uma exímia planejadora de viagens. Gosta mesmo é de anotar o que é imperdível, a partir daí, prefere se perder nas ruas por onde passa e tirar dicas de locais. Hoje coleciona boas histórias, perrengues e cotonetes.

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    Vivemos em um mundo de opções pasteurizadas, de dualidades. O preto e o branco, o bom e o mau. Não importa se é no avião, ou na Times Square, ou o bar que você vai todo sábado. Queremos ir além. Procuramos tudo o que está no meio. Todos os cinzas. O que você conhece e eu não, e vice-versa. Entre o seu mundo e o meu.