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Perdendo o medo de esquiar no Cerro Castor, em Ushuaia

Quem escreveu

Lalai Persson

Data

31 de August, 2018

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Definitivamente eu não nasci com talento para o esqui. Foi muita insistência, tombos, choros (de verdade) até, finalmente, eu afirmar que esquiar é legal demais.

Eu tive quatro temporadas esquiando na Noruega numa estação chamada Trysil. Foi lá que tive alguns dos momentos mais vergonhosos e frustrantes da minha vida. Ver meus amigos rapidamente deslizarem na neve como se voassem sobre ela me trouxe desconforto, pois eu mal conseguia ficar em pé. Na minha última ida para lá, eu melhorei um pouco e voltei feliz. Mas ter ficado dois anos sem pisar na neve trouxe de volta toda a minha insegurança.

Eu fantasiada de esquiadora / Cerro Castor. Foto: Ola Persson

O Ola (o maridão), que esquia desde os três anos de idade, sempre me incentivou a tentar esquiar em alguma montanha na América do Sul. Enrolei enquanto pude, mas aí veio aquele convite incrível pra gente tocar no Cerro Castor e eu não tive como dizer “não”. Juntei todas as minhas roupas, coloquei tudo numa mala, incluindo a ansiedade, a dor de barriga e o medo de ter voltado várias casinhas no esporte.

Soube há bem pouco tempo que Ushuaia tem uma estação de esqui para chamar de sua, a Cerro Castor. Ela não é nova. Ao contrário, já são quase vinte anos de existência. Não é uma estação grande, mas perfeita para quem quer aprender a esquiar ou mesmo treinar. Ela é um importante centro de treinamento para esportistas profissionais, que voam da Europa e de outros continentes quando a neve está concentrada do lado de cá do planeta. O Cerro Castor mistura tudo. Profissionais e aprendizes como eu.

Cerro Castor Ushuaia - Snowpark. Foto: divulgação
Cerro Castor Ushuaia – Snowpark. Foto: divulgação

São 33 pistas no total, sendo nove delas verdes, ou seja, para iniciantes. Por lá passam anualmente cerca de 25 equipes internacionais para treinar para competições e Olimpíadas de inverno. Se a neve não for suficiente, não se preocupe. Eles possuem vários canhões de neve artificial para não decepcionar. O Cerro Castor tem também o maior snowpark da América do Sul, tem pista de patinação, atividades noturnas, oito restaurantes espalhados pela estação e um lodge com 15 chalés para quem quiser se hospedar por lá. Ou você pode se hospedar no magnífico Arakur Ushuaia como eu fiz.

Cerro Castor - Ushuaia - lodge. Foto: divulgação
Cerro Castor – Ushuaia – lodge. Foto: divulgação

Tudo é bem prático, inclusive a forma de aluguel de equipamento, que você deixa lá para pegar no dia seguinte (em Trysil eu tinha que levá-lo todos os dias pra casa). O staff beira a perfeição no atendimento, incluindo uma extrema paciência para garantir uma ótima temporada de esqui aos visitantes. Fui esquiar no início de agosto. A neve ainda não tinha chegado do jeito que a gente gostaria. As pistas estavam com a neve dura, e na minha primeira tentativa eu levei um tombo que me deixou uma lembrança roxa que durou quase duas semanas.

Eu tentando perder o medo na pistinha das crianças. Foto: Ola Persson

Resolvi agendar uma aula particular de duas horas pra tentar afugentar meu medo. Quando você tem ao lado um parceiro que tem esportes como a paixão da vida, você se esforça um pouco para poder acompanha-lo em viagens e vê-lo feliz pela sua tentativa de gostar de seu esporte favorito. Foi por isso que insisti tanto. E valeu muito a pena.

A minha professora, a Anna, uma senhora com uma bagagem gigante de esqui e aulas nas costas, foi uma benção. Nos encontramos para a minha primeira aula, contei a ela o que eu tinha feito durante o dia e as experiências (ruins) com esqui que tenho. Ela me levou para uma pista (verde, claro). Parou no meio e pediu para eu descer esquiando para ela ver qual era meu nível. Eu fique bem feliz, pois era a primeira vez que eu fazia aula numa pista que não era a das crianças. Toda a segurança de que eu tinha melhorado finalmente foi por água abaixo, quando no finalzinho da pista ela me chamou de canto e disse “acho melhor a gente ir pra outro lugar”. E foi assim que me vi novamente voltando todas as casinhas alcançadas para passar 2 horas na pista infantil.

Confesso que foi uma frustração e tanto e, lá no fundo, eu prometi que essa era minha última tentativa. Vocês já esquiaram? Tem gente que nasce pra isso. Tem gente que não. Eu sou do segundo time. Fiquei duas horas descendo com os braços abertos, com os braços girando, com os braços atrapalhados tentando ter um mínimo de coordenação motora pra não cair. Fiquei exausta após as duas horas. Eu não tinha muita certeza se eu tinha evoluído algo ou se eu continuava de fato no mesmo ponto. Almocei e voltei com um amigo para treinar. Na pista de crianças, claro! Quando me dei conta, eu estava dando aulas (básicas, óbvio!) pro meu amigo, que estava se sentindo exatamente como eu me sinto todas as vezes que vou esquiar. Acabei acreditando que, sim, eu tinha melhorado.

Cerro Castor Ushuaia. Foto: divulgação
Cerro Castor Ushuaia. Foto: divulgação

No dia seguinte eu estava tão quebrada fisicamente que decidi não esquiar. Iria ao Cerro Castor apenas para tocar e voltaria pra São Paulo sem essa segunda tentativa. Mas quem casa com alguém insistente sabe que os planos que temos podem nunca dar certo. Quando vi, lá estava eu descendo da van, pegando meus equipamentos e sentando no ski lift pra tentar de novo. Para a nossa sorte, tinha nevado bastante à noite e as pistas estavam bem melhores. Antes de tentar a sorte, eu decidi voltar pra pista de crianças pra ter certeza de que tinha melhorado. Uma hora subindo e descendo me deu a certeza que aquelas duas horas entediantes no dia anterior tinham valido a pena.

Foi a primeira vez na vida em que eu não levei um tombo sequer. Subi mais a montanha, esquiei mais, fiquei feliz e desci de volta querendo retornar no dia seguinte, marcar uma nova viagem de esqui, comprar equipamento. Finalmente tinha rolando meu turning point nesta temporada. Eu aprendi a esquiar. E senti um pouco o que é voar.

O Cerro Castor é uma ótima experiência para pessoas como eu. Não à toa, a estação estava cheia de brasileiros mais sentados no chão do que deslizando pela neve. E tá tudo bem. Todos estavam ali tentando, insistindo, se divertindo. Fazer aula é imprescindível pra quem não domina esse equilíbrio e movimentos que o esporte exige. O Cerro Castor é uma estação com toda estrutura desenhada pra quem sequer consegue fixar a bota direito no esqui. A cada ponto de ski lift (que te levam de uma pista pra outra) tem um café, o que não é tão comum em outras estações mundo afora. Se tudo der errado, tem onde parar e pedir um resgate pra te levar dali. Monitores por todos os lados pra ajudar se alguém precisar e professores pacientes que entendem a dificuldade que a gente tem com a neve.

Foi um fim de viagem feliz pra mim. Quando a gente consegue alcançar uma meta e quer dobrá-la é porque fizemos a coisa certa. Esquiar é um dos maiores desafios que já tive na vida. E agora eu só consigo pensar em uma coisa: a minha próxima temporada. E ter terminado essa experiência animando uma pista de gelo foi uma das coisas mais legais que já fiz.

Lalai tocando (com o Ola) no after-ski do Cerro Castor. Foto: Ola Persson
Eu tocando (com o Ola) no after-ski do Cerro Castor. Foto: Ola Persson

Para quem se animar a conhecer Ushuaia e esquiar, a temporada deste ano vai até 30 de setembro. Ou seja, ainda dá tempo de aproveitá-la. O valor para usar a estação por três é cerca de R$ 400 ou R$ 150 por dia. O aluguel de equipamento básico (bota + esqui e/ou snowboard + bastão) custa cerca de R$ 65 por dia.

O hotel Arakur tem também pacote especial para quem quer se aventurar no esqui por três ou cinco dias. O pacote inclui transfer, acesso ao Ski Lounge do Arakur, aluguel de equipamentos e hospedagem. Os valores custam a partir de US$ 731 por pessoa (4 noites com 3 dias de esqui em quarto quádruplo) a US$ 1,493 por pessoa (7 noites com 5 dias de esqui em quarto duplo). Para mais informações é só enviar email para [email protected].

Obrigada Cerro Castor pelo convite, que me ajudou a virar essa página de introdução que tento virar há oito anos. Obrigada Turismo da Tierra del Fuego, Press Pod e Arakur Ushuaia por ter ajudado a ser possível realizar esse sonho que eu nem sabia direito que tinha.

Agora eu estou mesmo é sonhando com uma nova temporada de esqui e, claro, conseguindo descer pelo menos uma vez uma pista vermelha.

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Quem escreveu

Lalai Persson

Data

31 de August, 2018

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Lalai Persson

Lalai prometeu aos 15 anos que aos 40 faria sua sonhada viagem à Europa. Aos 24 conseguiu adiantar tal sonho em 16 anos. Desde então pisou 33 vezes em Paris e não pára de contar. Não é uma exímia planejadora de viagens. Gosta mesmo é de anotar o que é imperdível, a partir daí, prefere se perder nas ruas por onde passa e tirar dicas de locais. Hoje coleciona boas histórias, perrengues e cotonetes.

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    Vivemos em um mundo de opções pasteurizadas, de dualidades. O preto e o branco, o bom e o mau. Não importa se é no avião, ou na Times Square, ou o bar que você vai todo sábado. Queremos ir além. Procuramos tudo o que está no meio. Todos os cinzas. O que você conhece e eu não, e vice-versa. Entre o seu mundo e o meu.