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Tour de esqui nos Hautes Alpes

Quem escreveu

Ola Persson

Data

27 de May, 2015

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Já estamos no terceiro dia esperando o tempo estabilizar para seguir o nosso plano de um passeio de esqui no Parque Nacional de Écrins. Uma volta do Grande Pic de La Meije, com seus 3.983 metros, é o último dos grandes picos nos Alpes a ser conquistado por nós. O que estamos praticando, ou no caso, esperando para poder praticar, é chamado de esqui de travessia ou de montanha. Talvez seja até mais conhecido pelo nome em francês, randonnée. Uma forma de praticar esqui onde não existem pistas preparadas, que proporciona um jeito de sair da muvuca de turistas e chegar mais perto da natureza. O equipamento é um misto de esqui de pista e esqui nórdico e por isso é possível se locomover sem usar teleféricos. Embaixo do esqui a gente cola uma “pele de foca”, assim o esqui desliza com facilidade pra frente mas trava pra trás. Isso possibilita que o esquiador suba montanhas andando.

Grand Pic de la Meije. Foto: Ola Persson.
Grand Pic de la Meije. Foto: Ola Persson.

É a primeira vez que estamos fazendo uma saída maior que um dia. Mas o tempo não estava colaborando, e enquanto isso recorremos aos teleféricos. Na base do teleférico de La Meije o perigo de avalanches está marcando 4 (numa escala de 5) devido à combinação de neve nova e um vento forte. Eis a razão porque ainda não estamos longe da civilização: temos que esperar condições mais seguras. Estamos sentados eu, meu pai, meu irmão e Per, nosso guia, na gôndola colorida que balança bastante enquanto os esquis que estão pendurados no lado de fora batem nas rajadas do vento. Foi por pouco que o teleférico de La Grave, construído em 1977, não abriu hoje. O visual bonito com o sol batendo engana um pouco, está ventando a 100 km/h no cume. Cada vez que os grupos de gôndolas passam pelos postos, para não bater, o teleférico quase pára. Então é demorado chegar ao topo.

Entrando a area esquiável em La Grave. Foto: Ola Persson
Entrando a area esquiável em La Grave. Foto: Ola Persson

Quando chegamos no topo do teleférico, é necessário mais de uma camada de roupa, pois o vento está gelado. Verificamos que os transceivers funcionam e passamos a placa avisando que estamos entregues ao nosso próprio risco no alto da montanha. Per mostra o caminho, aqui não tem pistas e o padrão para quem não é da área é esquiar com um guia. Tem bastante terreno pra ser explorado e na descida encontramos um pouco de tudo: puro gelo, neve encrostada e o sonho de qualquer esquiador, neve fofa. Entre partes fácil e pura diversão, e outras bem desafiantes, na reta final para chegar à parada baixa da parte superior do teleférico a neve já está semi-derretida e pesada, deixando o ácido láctico arder nas pernas.

Simon em La Grave, foto: Ola Persson.

Chega o quarto dia e finalmente seguimos com a saída de esqui. Só não exatamente o percurso que inicialmente tínhamos em mente, o tempo não permitiu. Nas altitudes um pouco mais baixas a neve já não está mais tão perigosa, então adaptamos um pouco o plano inicial e ficamos abaixo de 3000 metros. Preparamos as mochilas com o mínimo possível, levando várias camadas de roupa extra, luvas quentes, equipamento de resgate, água etc. O luxo na minha mochila é uma cueca extra para não precisar repetir a mesma dois dias seguidos. Não é legal carregar peso à toa. Em retrospectiva, um luxo ainda maior que a cueca teria sido uma meia extra pra usar nos refuges durante a noite – teria valido cada grama extra. Fica a dica. Jogamos todo o resto nas malas, fazemos check-in e deixamos as malas guardadas no hotel. Per chega às 9 e partimos no Volkswagen Transporter dele para Pont de l’Alp um pouco mais pra leste.

No estacionamento prendemos os esquis nas mochilas, e andamos 20 minutos até chegar na fronteira da neve. Está frio esse dia e na altura da neve já encontramos um vento que quer nos congelar até o osso. Logo no começo chegamos numa vilinha que funciona durante o verão e paramos atrás de uma casa pra colocarmos todas as peças extra de roupa que temos. No meu caso significa que a partir dai estou vestido de 4 camadas, incluindo uma de pena de ganso, mais uma toca, um buff de lã e luvas grossas. Se tiver que colocar tudo isso na subida da montanha, significa que está perto do máximo de frio que você vai encontrar na vida.

O vento deixava o dia bem frio. Foto: Ola Persson.
O vento deixava o dia bem frio. Foto: Ola Persson.

Daqui pra frente vamos devagar pra controlar a temperatura do corpo, não é muito legal suar demais. Entramos então no ritmo pondo um pé em frente do outro subindo cada vez mais um pouco. Mais pra cima, o vento diminui aos pouco e chegando no final do passo estamos com a roupa toda aberta.

Achamos um lugar pra almoçar, não completamente protegido do vento, mas estamos com fome e um pouco de frio é o de menos. Almoçamos rápido e seguimos a crista do passo para ganhar mais um pouco de altura para acrescentar a descida do outro lado.

Só nos quatro e as montanhas. Foto: Ola Persson.
Só nos quatro e as montanhas. Foto: Ola Persson.

Descemos um vale grande, em toda paisagem tem apenas um traço de outros esquiadores que devem ter passado na direção oposta mais cedo. Além disso, nenhum sinal de civilização em volta e estamos só nós e a natureza vestida de branca. A qualidade da neve é surpreende e chegamos no Refuge Chardonnet querendo mais. Se a subida para repetir não fosse tão longa…

Não tem como reclamar um dia assim. Foto: Ola Persson.
Não tem como reclamar um dia assim. Foto: Ola Persson.

Na França, essas casas nas montanhas se chamam refuge: tem comida, bebida e camas. O jantar é servido às 19.30, a entrada é obrigatoriamente sopa (ajuda a repor água no corpo) e em seguida um prato principal e uma sobremesa. Na Chardonnet, o chope é Leffe e a comida caiu como um abraço. Para dormir é preciso levar uma roupa de cama (uma sacola de seda, a minha pesa 130 gramas) e é bom ter uma pequena lanterna para poder ir ao banheiro sem acordar os outros. Os espaços são simples e o Chardonnet está cheio, então divido cama com meu irmão Simon. Eu me mexo durante a noite e então ele dorme esmagado entre o teto e o colchão. Não tem porque passar a manhã no refuge então nos vestimos logo cedo, tomamos café, pagamos a conta e partimos mais uma vez para o alto da montanha.

Refuge Chardonnet. Foto: Ola Persson.
Refuge Chardonnet. Foto: Ola Persson.

No dia seguinte o tempo está bom no caminho para cima – passamos embaixo de um couloir onde tem cabras pulando para cima da montanha. O que tem para elas sobreviverem ali não sei, mas parecem felizes. Um helicóptero passa por cima indo para sul, como um lembrete de raça humana. Paramos uns segundos e olhamos enquanto ele passa antes de continuarmos a marcha para cima. Hoje a meta é Crête de la Casse Blanche, 2800 metros acima do mar.

Helicóptero passando. Foto: Ola Persson
Helicóptero passando. Foto: Ola Persson

O passo é íngreme e o Dan, meu pai, que não pôde treinar muito antes por causa de uma cirurgia, chega esgotado no cume do passo. Aqui o vento volta com toda força, me abasteço com uma banana e tiramos as peles dos esquis para descer mais uma vez. Aqui a natureza oferece o mais difícil que existe: em inglês, o breaking crust, ou uma neve que quase suporta seu peso e com qualquer errinho a camada superficial quebra e o esqui trava. Mas depois da primeira parte, o nosso karma melhora e com neve de primavera, as condições ficam maravilhosas.

Ai sim, neve boa. Foto: Ola Persson.
Ai sim, neve boa. Foto: Ola Persson.

Terminando a descida por uma floresta com espaço amplo entre as árvores. No fundo do vale temos um almoço ao sol. Finalmente uma parada sem vento e com o calor batendo na cara. Comemos sem pressa o kit de almoço que levamos do Refuge Chardonnet, já que essas cabanas costumam vender almoço pronto (geralmente um sanduíche grande, frutas, uns pães doces e talvez um copinho de iogurte). O último trecho para chegar na cabana para o dia seguinte é tranquilo, praticamente plano e o cruzamento de um rio rende umas boas fotos.

Almoço no sol. Foto: Ola Persson
Almoço no sol. Foto: Ola Persson
Chegando no Refuge Laval. Foto: Dan Persson.
Chegando no Refuge Laval. Foto: Dan Persson.
Chegando no Refuge Laval.
Chegando no Refuge Laval. Foto: Dan Persson.

A cabana Laval é grande e recém construída. Sem muita coisa pra fazer até o jantar ser servido, batemos papo e tomamos umas cervejas – além da Leffe, tem uma cerveja artesanal da região. A frase “vou deitar pra ler um pouco” já virou a piada de viagem, ninguém dura mais que 10 minutos antes de apagar. Menos eu, que resisti à ideia de deitar pois o resultado eu já sei.

Iniciando os trabalhos do terceiro dia.

O último dia da saída amanhece bonito, com um pouco de vento mas não tanto quanto nos anteriores. Subimos seguindo as ondulações da montanha até um lago, pausa pra ajustar roupa, comer nozes e fazer xixi. Continuando por cima, cruzamos com uma dupla vestida de lycra, um sinal claro que estão treinando para alguma competição de montanhismo, fazendo o máximo desnível vertical possível. A parte do passo que o Per escolhe é íngreme e a plataforma onde repomos os esquis proporciona um pouco de vertigem.

Passo XXX. Foto: Ola Persson.
Passando Col des Beraudes. Foto: Ola Persson.
Uma parte íngreme. Foto: Ola Persson.
Uma parte íngreme. Foto: Ola Persson.
As paisagens não são pouca coisa. Foto: Ola Persson.
As paisagens não são pouca coisa. Foto: Ola Persson.

Daqui pra frente falta só uma longa descida que deixa aquela impressão que estamos longe da civilização. Seguimos as curvas da montanha, de vez em quando fazendo meios círculos pra não acabar em um vale e ter que subir pra continuar. Dessa vez o sol bate, e o vento está quieto depois de termos passado o passo em cima. Terminamos onde começamos, é só por os esquis nas costas de novo e descer até o carro.

Voltando pro carro. Foto: Ola Persson.
Voltando pro carro. Foto: Ola Persson.

No final o percurso foi menor que o pretendido, mas não se pode contar com a colaboração do tempo. Ou como disse o Per, “50% dos seus planos funcionam, vida na montanha significa ter planos fluidos”. Voltaremos então outra vez para fazer o tour de La Meije, ou para beber cerveja em La Grave enquanto esperamos uma tempestade passar, quem sabe.

Acabou, quando vai ser a próxima mesmo? Foto: Ola Persson.
Acabou, quando vai ser a próxima mesmo? Foto: Ola Persson.

Quando voltamos para o hotel, os donos estão felizes de nos ver. Não sabiam se foi a gente que uma avalanche na região pegou, matando 2 pessoas. A avalanche era em terreno mais alto, acima de 3000 metros. Algo que evitamos justo por causa de segurança e é provável que o helicóptero que vimos estava indo para resgatar gente lá. Depois dos donos se acalmarem nos despedimos do Per, retomamos os quartos no hotel (ótimo hotel, para quem passar por la indico o meu prato preferido deles, o porco) e pedimos uma cerveja mais que merecida. Ficamos a noite inteira re-contando partes da experiência, o que foi legal, o que deu vertigem, qual parte foi o melhor e o que foi o mais difícil. Temos todos opiniões um pouco divergentes mas concordamos que devemos fazer mais vezes, explorar as montanhas é muito legal.

E finalmente um agradecimento ao Valle Nevado que convidou o Chicken or Pasta pra conhecer a estação e me deixar acostumar com o meu novo equipamento.

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Ola Persson

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27 de May, 2015

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Ola Persson

Viaja sempre com uma mochila com camera, laptop e kindle e uma mala pequena de roupas. Nela leva mais uma mala vazia que vai enchendo ao longo da viagem. Não é fã de pontos turísticos, não gosta de muvuca e foge de filas, mesmo que seja para ver algo considerado imperdível. Por isso nunca subiu na Torre Eiffel, mesmo tendo ido várias vezes à Paris. Acredita que uma boa viagem é sentir a cidade como morador. Tanto que foi pra São Paulo em 2008 e ainda está por lá.

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    Vivemos em um mundo de opções pasteurizadas, de dualidades. O preto e o branco, o bom e o mau. Não importa se é no avião, ou na Times Square, ou o bar que você vai todo sábado. Queremos ir além. Procuramos tudo o que está no meio. Todos os cinzas. O que você conhece e eu não, e vice-versa. Entre o seu mundo e o meu.