Música & Diversão

Festival Bananada celebra a música brasileira numa grande festa

Quem escreveu

Lalai Persson

Data

15 de May, 2017

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O Festival Bananada ruma ao seu vigésimo aniversário com um belo currículo nas costas, além de ser um dos responsáveis pelo crescimento da cena musical indie em Goiânia. Nasceu pequeno, focado no rock’n roll, mas hoje abraça também outras vertentes, como a música eletrônica, o hip-hop, o rap, a MPB. Há quatro anos ocupa o majestoso Centro Cultural Oscar Niemeyer, aproveitando todo o espaço que ele oferece. Alguns são saudosos com os velhos tempos do festival, mas, desculpem-me a nostalgia: é de tirar o chapéu um festival independente ter uma história como ele pra contar.

O Centro Cultural Oscar Niemeyer, onde rolou o Bananada. Foto: Mídia Ninja
Centro Cultural Oscar Niemeyer. Foto: Mídia Ninja

A música é o principal, mas o Bananada não é só isso. Ele é gastronomia, esportes, moda, artes visuais. Ele começa com um warm-up já na segunda-feira que antecede o festival, ocupando bares e clubes da capital goiana com uma programação caprichada focada nos artistas locais.

Larissa Conforto, a baterista da banda Ventre. Foto: Ariel Martini

O motorista de táxi fica curioso quando conto que viajei de São Paulo a Goiânia para conhecer o evento. “Mas eu nunca ouvi falar.”, diz ele. “Como não, meu senhor? O Bananada é um dos maiores festivais de música que tem na região.” Ele chacoalha a cabeça e afirma “Goiânia tem festivais demais, não consigo acompanhar. Mas esse aí parece ser bom.” “Vamos ver, mas as minhas expectativas são boas.” – retruco. E eu tinha razão, assim como todo mundo antecipou “o Bananada é foda”. Não há melhor adjetivo do que esse para resumi-lo numa palavra só.

Orquestra Filarmônica de Goiás na abertura. foto: Matheus Alves Levante

Na quinta-feira, quando cheguei, o festival tinha preparado um grande “ensaio aberto” e gratuito para quem quisesse chegar. Hora de checar luzes, som, estrutura. Para essa festa de abertura, o Boogarins se apresentou em casa para um público animado. Antes deles, porém, o grande palco foi tomado para uma apresentação clássica da Orquestra Filarmônica de Goiás. Eu, que carregava internamente resquícios de uma virose trazida da África do Sul, me contorci de dores a noite toda e não vi o espetáculo começar. Mas no dia seguinte, encontrei o Lucio Ribeiro e o Miranda, por acaso num restaurante, acompanhado dos cabeças do festival, o Fabrício Nobre e a Dayane. A animação era contagiante e eu mal podia esperar o fim do dia para, finalmente, eu ver qual é desse festival, com praticamente só artistas brasileiros no line-up, trazendo uma multidão de pessoas de fora para Goiânia só para curti-lo.

Fui recebida com esmero e, confundida com alguma artista (meus paetês, por acaso?), fui convidada a escolher peças de roupas e acessórios (lindíssimos) de designer e estilistas locais, numa ação super bacana feita feita pela carioca Lucid Bag (quero isso em todos os festivais), para usar durante o festival.

A área dos camarins e os camarins em si são bem arrumadinhos, como não vi ser em festival maior em São Paulo. Banheiros? Todos de tirar o chapéu: é químico, mas tem descarga, luz, privada, água e espelho, além de estarem limpos o tempo todo, pois as meninas da limpeza não dão mole. Entram e saem deles garantindo que ninguém vai passar perrengue. Fila? Praticamente não tem.

Uma pequena área vip ao lado do palco principal, mas sem vista para ele. Ali se reúnem bandas, produtores, assessores e amigos dessa gente toda. Vip como uma área vip num festival tem que ser: sem atrapalhar o público que não está nela.

Luiza Liam, no palco Spotify, que teve curadoria do Mancha. Foto: Ariel Martini

Quatro palcos se espalham pela área externa do CCON (Centro Cultural Oscar Niemeyer). O principal, um pequenininho do Spotify, que simula o palco da Casa do Mancha, em São Paulo (que inclusive tem a curadoria dele), outro em frente a ele encaixado debaixo de um vão de um dos prédios do complexo. Esse terceiro palco são dois: durante metade do festival é dedicado ao rock e tem um nome, depois a chave vira e ele abraça a música eletrônica, trocando de nome. O último, um palco de tamanho médio, se alterna na programação com o principal.

A loja Casulo só de produtores locais.

Há um lounge aberto com sofás e pufes, cadeiras e mesas para descanso espalhadas por diversas áreas do festival, sacolas gigantescas de lixos deixando-as mais atraentes (e visíveis) do que o lixo normal, uma grande área de alimentação com 27 restaurantes diferentes, batalha de chefs, área para skatistas, uma loja só com produtos de designers locais, chapelaria, cabeleireiro, maquiador e tatuador. Tudo custa múltiplos de R$ 5. Cerveja e chopp custam R$ 10, drinks custam R$ 15, comida a partir de R$ 10 e a água em copo é distribuída gratuitamente em todos os bares. Palmas, muitas palmas para o Bananada. E, seguindo à tendência global, o Bananada, apesar de ser um festival que acontece à noite, não deixa de pensar na família e garante um espaço para largar a criançada, o Meninada. Enquanto os pais curtem shows, a criançada tem uma programação especial só para ela, capitaneada pela banda Rock is Dad. Até mesmo carrinhos de bebês passeiam por lá com pais descolados na direção.

A parede acima do palco Slap/El Club e o prédio redondo central do CCON, que divide as áreas dos palcos menores com os dois principais, ganharam projeção mapeada por duplas de artistas em todos os dias do festival. A lua cheia esteve lá brilhando num céu límpido como se fosse parte do cenário.

O público é bonito, estiloso, simpático e variado. Tem espaço pra todo mundo. Muito make-up, muito brilho, muito cabelo maravilhoso. Saí de lá encantada. Adoram quando sabem que você é de São Paulo e puxam conversa facilmente. Sozinha só se sente se estiver afim.

O Bananada é rock’n roll. Todos os shows estão sempre cheios, das bandas desconhecidas aos grandes nomes, mas ainda não há aquele abraço à música eletrônica como na maioria dos festivais. O público gosta mesmo é de guitarra, vocais, bateria, baixo. Praticamente todos os shows que assisti, tinham pessoas à minha volta que cantavam todas as músicas. Show do Liniker e os Caramelows? Todas as canções foram cantadas em coro do começo ao fim do show. Nos shows do Carne Doce (de Goiânia também), Terno Rei, Céu, Maria Gadú também. E até no show do Mutantes um público jovem entoava junto todos os seus hits. Foi bonito de se ver.

Foi a minha primeira empreitada num festival em que praticamente toda a programação era nacional e a maioria das músicas cantadas em português. Senti que carrego comigo um preconceito, mas a chavinha foi virando ao longo dos shows que fui assistindo. Descobri ali várias novas paixões. LuziLuzia, BaianaSystem, Luiza Lian, Aeromoças e Tenistas Russas, Hierofante Púrpura, JP Cardoso, Plutão já foi Planeta, E a terra nunca pareceu tão distante e Chicotripp conquistaram meu coração mole. Voltei meu olhar para a produção nacional como não fazia há tempos. Encerrei a festa no sábado de madrugada no El Club com a dupla Selvagem tocando para um público bem animado. Eram três da manhã e na porta uma fila de pessoas tentando entrar.

Com todos com quem conversei e que não conheciam o festival, estavam impressionados com tudo, deixando claro que a gente tem bastante a aprender com o Bananada, que realmente faz jus à fama: um dos melhores festivais de música do Brasil.

A edição comemorativa de vinte anos do festival já tem data para 2018: 7 a 13 de maio. Fabrício Nobre já garantiu que a edição contará com tudo o que rolou de melhor nesses vinte anos de história. Já coloca na agenda, porque a diversão será garantida, a viagem valerá a pena e é provável que seja memorável.

*Fotos: Ariel Martini

Quem escreveu

Lalai Persson

Data

15 de May, 2017

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