Tendências dos principais festivais de inovação e criatividade do mundo.
Antes de conhecer o Heartland Festival, não achava possível sair de um festival com gostinho de quero mais. Mas peraí, não me entenda mal. É claro que os festivais de música são incríveis, mas geralmente você sai exausto, pronto para tomar um banho de duas horas e dormir por uma semana.
O Heartland é tão aconchegante que faz você se sentir no quintal dos amigos, a única diferença é que invés do amigo desafinado tocando violão, você pode escutar Solange, Jada, Hot Chip, Kamasi Washington, Smashing Pumpkins, Interpol, Die Antwoord… Em vez de conversas sem pé-nem-cabeça, você pode ouvir ícones inspirarem uma platéia inteira. E claro, arte e comidas incríveis por onde você olhar.
O line-up do Heartland 2019 teve 28% de representação feminina, mas as mulheres marcaram o território de maneira impressionante.
Sem dúvida a palestra da estilista inglesa Vivienne Westwood foi um dos momentos mais marcantes do festival. Com uma camiseta escrito “buy less“, a britânica fez uma apresentação única usando cartas de baralho customizadas. Ela chamou a Margaret Thatcher de hipócrita, contou das suas peripécias com o Sex Pistols. No final, detalhou sua teoria de como salvar o mundo e disse que os intelectuais devem se unir. A platéia (toda de pé) aplaudiu e agradeceu a inspiração.
Outra conversa que deu o que falar foi a da filósofa americana Judith Butler. Também conhecida como a “rainha dos queers“, Judith argumentou sobre o futuro das políticas de gênero e afirmou que esta será uma “longa luta social, mas claro que nós vamos ganhá-la porque temos prazer, esperança, paixão, amor e imaginação do nosso lado”. Algumas das mulheres da platéia (em sua vasta maioria dinamarquesas) se emocionaram com o bate-papo e choraram durante a apresentação – às vezes a gente até esquece que mesmo que os países mais avançados em igualdade de gênero, como é a Dinamarca, existe muito trabalho a ser feito.
Na música, a sueca Seinabo Sey agitou a galera com a sua voz doce e fez seu show de pop-soul um dos melhores do palco Greenfield. Com ritmos de R&B e uma batida positiva, esta foi a segunda vez da cantora no festival – e com certeza não será a última.
Já no palco principal, a headliner Solange está longe de ser lembrada apenas por seu parentesco com Beyoncé – aliás ela trabalhou (e muito) em criar uma identidade única e independente a sua irmã mais velha. Seu show foi conceitual, divertido e cheio de talento. Os hits Almeda, Don’t Touch my Hair e Stay Flo não são exatamente para dançar, mas foram executados perfeitamente.
Die Antwoord era um dos shows que eu, pessoalmente, estava ansiosa para ver. É claro que eles são over-the-top, clichê e praticamente uma versão do Aqua on crack. Mas quem liga? Eles tem uma baita presença de palco, um show divertidíssimo e oferecem a chance de dançar sem parar por 1,5 hora. Bônus: ver os gritinhos agudos da Yolandi ao vivo é um presente (risos).
A gastronomia do festival é de lamber os beiços. Este ano, o banquete estava por conta do Kadeau, um restaurante que começou na ilha dinamarquesa Bornholm e hoje tem dois espaços e duas estrelas Michelin. O menu degustação era servido algumas vezes por dia, incluía bebidas e custava cerca de R$370 (adicionais ao ingresso do festival). Além do banquete, o festival oferecia outras experiências deliciosas, algumas pagas e outras gratuitas, como conversas e workshops no palco Tasteland. Nas barraquinhas dava pra comer de tudo. Algumas opções eram, cachorro-quente gourmet (R$25), prato de frutos do mar com lagosta e ostras (R$400), caviar com waffles (R$87), pães fresquinhos assados na mini-padoca (a partir de R$10) e iguarias locais da ilha de Funen. Nada muito barato, mas tudo muito gostoso.
Entre uma aula de yoga, uma instalação de arte e uma taça de vinho, aproveitamos para deitar e tirar uma soneca. Para finalizar o clima de quintal, não poderia faltar uma fogueira.
Já anota, porque 2020 o festival já tem data marcada. Vai ser no dia 29 a 31 de maio. Vem, deite na grama, curta a vista do castelo e deixe o Heartland Festival inspirar você.
*Foto de destaque por Maja Kongegaard Bramm
De longas viagens de carro no México a aulas de cozinha no Vietnã, para mim o que importa conhecer são as pessoas. Não há nada melhor para conhecer um país do que aprender com experiências autênticas (e às vezes malucas).
Ver todos os postsVivemos em um mundo de opções pasteurizadas, de dualidades. O preto e o branco, o bom e o mau. Não importa se é no avião, ou na Times Square, ou o bar que você vai todo sábado. Queremos ir além. Procuramos tudo o que está no meio. Todos os cinzas. O que você conhece e eu não, e vice-versa. Entre o seu mundo e o meu.