Viagem

A beleza intocada da Namíbia

Data

16 de May, 2017

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A Namíbia é daqueles lugares bem especiais na Terra. Antes dela, a Islândia era um dos lugares remotos do planeta que quase me causava uma parada respiratória pela sua beleza inóspita. Agora é a vez da Namíbia. Meu coração é dela também. O país só passou a habitar meus sonhos quando li o texto escrito pelo meu jornalista muso Daniel Nunes, no Estadão. Textos daqueles que a gente lê repetidas vezes para mergulhar um pouco em seu infinito, nos fazendo quase sentir a areia do deserto.

Namibia Sossusvlei
As dunas em volta do Dead Vlei, em Sossusvlei. Foto: Ola Persson

Clica no play e segue aqui com a gente:

Quando um amigo sugeriu que fôssemos para a Namíbia antes do Afrikaburn, eu não tive dúvidas e emiti as passagens. Foram meses e meses de planejamento que o país requer e ainda assim não foi fácil. Fomos para lá justamente no meio da Páscoa e foi um sufoco encontrar hospedagens e carro para alugar por um preço decente. E mesmo indo na “alta temporada”, dirigimos por horas sem cruzar um carro sequer.

A Namíbia não é barata no quesito hospedagem, aluguel de carro e passeios específicos, mas tem sido cada vez mais procurada mesmo não sofrendo com o turismo massivo. As ofertas não são muitas, por isso ter meses para planejar a viagem é necessário. Acampar é também uma ótima opção para quem quiser explorar o país de forma mais aventureira. Estrutura para isso não falta.

Sobrevoamos o país à noite vindo de Joanesburgo. Chegamos em Windhoek (fala-se Vinduqui), a capital, num dos últimos voos do dia. A escuridão tomava conta do país aos meus pés, afinal são apenas 2,6 milhões de habitantes espalhados numa área de 825 mil quilômetros quadrados (equivalente ao tamanho da França, Holanda e Inglaterra juntas), muitos deles com extensões interminavelmente desabitadas.

Moon Landscape Namibia_Ola Persson
Eu no nosso super carro-ambulância, no Vale da Lua. Foto: Ola Persson
O Ola e a abertura da nossa geladeira na nossa ambulância. Foto: Lalai Persson

Saímos cedo no dia seguinte para buscarmos o carro alugado, que nos acompanharia por 1.600 quilômetros previstos para serem rodados em oito dias num país em que apenas 6% de suas estradas são pavimentadas. Alugar o nosso carro foi uma verdadeira odisseia. Na tentativa de economizar, acabamos numa locadora independente. O resultado foi um Nissan velho, de cabine simples, que parecia uma ambulância. Não à toa, fomos mais cumprimentados na estrada e dentro dos parques do que um carro que passeia com o Papa.

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As estradas da Namíbia são na maioria de terra. Essa é no Etosha Park. Foto: Ola Persson
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Os pontos pra picnic estão presentes nas principais estradas do país. Foto: Ola Persson
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Placas sinalizando atração. Nas cidades maiores compra-se a permissão para entrar nessas áreas. Foto: Ola Persson

Viajar pela Namíbia é dirigir bastante por estradas de terra, boas na maioria, e permitir se perder um pouco (ou bastante, depende do tempo disponível). Um bom mapa de papel à moda antiga faz toda a diferença, já que nele é possível encontrar estradas minúsculas que não aparecem no Google Maps. Há muito para ver e percorrer. A cada estradinha com uma placa indicando algo, que você não tem ideia do que se trata, pode te levar a pequenas maravilhas.

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O carro adequado dos nossos amigos. Foto: Ola Persson

Lição número um aprendida a duras penas: caso vá alugar um 4×4, certifique-se que é realmente um 4×4 e não um 4×2. Esse atende bem a viagem, mas há lugares em que ele não rola. E invista mais dinheiro alugando um carro bem confortável. 

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As cor da lua no Moon Landscape, um dos lugares mais belos em que já fui. Foto: Lalai Persson
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Os belos cânions, o segundo maior do mundo, na Namíbia. foto: Ola Persson

A Namíbia é também um país de cores. É laranja, é verde, é cinza, é marrom, é tanta cor. Um tom único se alastra por uma paisagem por horas até dar lugar a outro. E assim segue até o fim da viagem.

Namibia
Correndo para pegar o por-do-sol. Foto: Lalai Persson
Vendo o por-do-sol no Moon Landscape. Foto: Ola Persson

O país é bem seguro. É um destino para quem ama natureza, céu estrelado, ver o sol nascer e se por, não ter problemas em acordar cedo e dormir logo que a lua dê as caras ou mesmo antes dela aparecer. É perfeito para quem quer desligar e se conectar com forças da natureza, tão abundantes por lá. Até porque a Internet deixa a desejar na maior parte do país. Mas tudo bem, ela não faz falta.

Sossusvlei, Namibia-Ola Persson
Sossusvlei, uma das locações de Mad Max. Foto: Ola Persson

“Mad Max: Estrada da Fúria” teve boas partes de suas cenas gravadas em Sossusvlei, um dos desertos mais bonitos do mundo, assim como “2001: Uma Odisseia no Espaço” teve uma sequência gravada nas belas montanhas Spitzkoppe. A lista de filmes rodados por lá é extensa. Afinal o país abriga desertos infinitos, cânions, vales que parecem a lua, montanhas em formatos curiosos, salar com árvores petrificadas em meio às dunas vermelhas, mar de água azul e areia branca, florestas de árvore petrificada, além de contar com uma cidade fantasma soterrada na areia. A viagem pode ser diferente para cada pessoa que se arriscar nela. A certeza é que ela sempre será magnífica.

Eu e nosso super guia incrível do AndBeyond Sossusvlei Desert Lodge. Foto: Ola Persson

É pobre como a maioria dos países africanos, mas seu povo é generoso, sorridente e curioso. Ainda assim tem uma economia estável, inflação moderada e a moeda, o Dólar da Namíbia, é indexado ao Rand Sul-Africano que, inclusive, é aceito por lá. Apesar do inglês ser o idioma oficial, pouco mais de 1% da população fala a língua. São mais de onze dialetos indígenas falados ao redor do país, sendo o Oshiwambo o mais falado – por 49% da população. Alemão, português, espanhol e francês também são línguas oficiais de pequenos grupos. A Namíbia foi dominada pela África do Sul por 69 anos até 1990, quando finalmente conquistou sua independência. Ou seja, sua história como país é recente e perceptível no crescimento econômico. A conservação do meio ambiente é garantido em sua constituição.

Preparando nosso jantar de Páscoa. Foto: Ola Persson

É fácil cruzar com animais selvagens em qualquer parte em que esteja dirigindo. Na estrada nos deparamos com ônix, macacos, opalas e até mesmo girafas. E não, não é apenas dentro do Parque Etosha, o maior santuário da vida selvagem da Namíbia, que ocupa uma área de 22 mil quilômetros quadrados. É na estrada também.

Foi no Etosha que começamos a degustar um pouco do país. Nos hospedamos em seus arredores numa charmosa pousada com um belo jardim aos fundos, cercado de chalés construídos em pedra. A nossa primeira noite caiu e com ela surgiu um céu estrelado como eu não via há tempos. A sorte era tamanha que a lua estava cheia e crescia alaranjada no infinito. Mas era dia de dormir cedo. Muito vinho depois, estrelas cadentes e cansaço, dormimos antes mesmo das 22h para no dia seguinte chegar junto com o sol despontando no horizonte no portão de entrada do parque. Os bichos gostam mesmo da manhã e do fim do dia. Durante o dia, muitos deles fogem do sol e achar uma sombra não é bem uma tarefa fácil por lá. Água? Ela estava mais abundante do que queríamos, pois a chuva criou pequenos lagos, suficientes para os animais não precisarem procurar muito por um dos famosos “buracos de água” ou waterholes para saciarem sua sede.

O Etosha é mais selvagem e menos muvucado que a maioria dos safaris africanos (ainda assim não é o mais selvagem), então os animais não estarão à espreita te esperando (e esqueça os Big Five, pois o búfalo africano não existe na Namíbia). É necessário sorte. No primeiro dia, percorremos uma área do parque a bordo de Klaus, nome que demos à nossa ambulância namibiana, debaixo de um sol escaldante. A manhã começou com a beleza de um mar de opalas formando um espetáculo inesquecível. O dia seguiu com muitas opalas, ônix, cabra-de-leque (springbok), gnu, zebras e girafas (distantes) e a alegria já nos dominava. Vê-los ali em seu habitat natural causa uma emoção inexplicável. Quando nos demos por felizes, o famoso Etosha Pan, um extenso salar de quase cinco mil quilômetros quadrados, que durante a época de chuva atrai hordas de flamingos, preencheu nossos olhos impressionados. É de uma beleza sem fim sua vastidão. A Namíbia é assim, mal lhe cabem tantos adjetivos.

Nosso primeiro rinoceronte preto. Foto: Ola Persson
Para tudo que a girafa quer passar. Foto: Ola Persson

No fim do dia, indo em direção à saída do parque, paramos bruscamente, pois um rinoceronte preto fechava a rua para beber tranquilamente a sua água numa pequena poça. Ficamos lá por longos minutos apreciando-o. Ele, obviamente, nem aí pra gente. Saímos animadíssimos. Não demorou para cruzarmos um grupo de girafas não tão distante da estrada. E por lá ficamos também longos minutos deslumbrados, dando o dia como produtivo. Mas mal esperávamos que ao sair do parque encontraríamos outro grupo grande de girafas dançantes, que nos pararam para poderem atravessar a estrada, passando em frente ao nosso carro rumo ao por-do-sol, assim como nós. A Namíbia é assim, cheia de surpresas.

Nossa primeira mamba negra. Foto: Ola Persson
Os ninhos gigantes que se encontram por toda a Namíbia. Foto: Ola Persson
O leopardo, nosso vizinho na pousada no Etosha Park. Foto: Ola Persson

Já no segundo dia preferimos pegar um guia, pois queríamos juntar o grupo de seis amigos e garantir cerveja gelada para aplacar um pouco o calor ao longo do passeio. Desbravamos outra área do parque, onde grupos de zebras se divertiam. Foi ali também que vimos tête à tête a nossa primeira mamba negra, uma das cobras mais venenosas do continente africano, que mata sua vítima em exatos sete minutos. Que frisson! O dia foi cercado de animais, mas só mesmo o grande rei não apareceu. Os elefantes surgiram aos montes, inclusive tivemos a sorte (rara) de pegar uma manada com uns vinte, incluindo filhotes, que atravessavam a estrada na nossa frente. E novamente girafas dançantes, ônix, gnus, um grupo de rinocerontes pretos e outros tantos animais.

Contemplando o pan do Etosha Park. Foto: Ola Persson

O bacana de ter um guia a tiracolo é aprender tantas curiosidades sobre os animais, o parque, a alimentação deles e, principalmente, trabalhar um pouco a paciência, pois muitas vezes ele vai fazer você ficar parado num lugar só olhando para o nada esperando algo acontecer. Foram dois dias entrando no parque às 6h15 e saindo de lá às 18h. E foi lindo! Estar tão pertinho deles causa uma emoção que mal cabe no peito.

Nossa pousada delícia ao lado do Etosha Park. Foto: Ola Persson

Para fechar essa parte da viagem com chave de ouro, fomos brindados com um jantar a céu aberto com estrelas chovendo nas nossas cabeças. Mesa arrumada, vinhos sul-africanos, comida farta e carne de caça preparada por nós ali mesmo no quintal. Foi daqueles dias de graça em que você não sabe como agradecer por viver dias tão felizes e belos.

Dica de ouro: tente conseguir hospedagem dentro do parque. As opções são simples, mas confortáveis, porém concorridas tanto pela localização quanto pelo preço. Infelizmente não foi dessa vez que tiramos a sorte grande.

Data

16 de May, 2017

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