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Como o JOMO, a alegria em não seguir tendências, e o turismo de consciência podem alavancar o setor de viagens

Quem escreveu

Natália Baffatto

Data

22 de June, 2021

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Do inglês, a expressão JOMO ganha popularidade, assim como o turismo de consciência, que nos levam a equilibrar o fluxo de turistas na pandemia para evitar que réplicas dos monumentos que amamos se tornem uma realidade, ideia para lidar com a gravidade do turismo em massa e as aglomerações.

“O maior inimigo do turista é o próprio turista”, disse Duccio Canestrini, especialista em turismo italiano, que ensina Antropologia do Turismo na Universidade de Pisa. Cidadão de um dos países mais visitados do mundo, ele comentou numa entrevista antes da pandemia o absurdo de que, em Florença, há considerações sobre a construção de réplicas perto do aeroporto (isso mesmo que você leu, ter uma nova e falsa Torre de Pisa) para que os cem milhões de chineses que visitam a Itália por ano possam simplesmente olhar para a Basílica de Santa Croce lá e nem sequer chegar ao centro da cidade. 

Segundo ele, os asiáticos não são tão obcecados pela autenticidade quanto os europeus e as imitações são amplamente aceitas. O pior é que isso já funciona. Hallstatt, a belíssima vila alpina na Áustria, está na província chinesa de Guangdong pela segunda vez e os chineses adoram visitar um pedaço da Europa sem ter que voar por meio dia. Isso tem muito a ver com marketing urbano. Se você sempre faz publicidade com as Ramblas de Barcelona ou a Praça de São Marcos, não pode culpar ninguém por querer ver exatamente isso durante a visita.

Firenze e a Duomo, na região da Toscana, na Itália
Firenze e o cartão-postal que todos amamos: há reais considerações de replicar monumentos italianos para lidar com o turismo em massa que toma conta de grandes capitais europeias
Foto: Ali Nuredini/Unsplash

Se você também acha a ideia uma loucura, saiba que o cenário é tão grave no turismo europeu que essa possibilidade é mais do que real, e intensificada na pós-pandemia. Caso contrário, o problema da aglomeração não fecha o ciclo e certos bairros se tornarão parques temáticos sem vida, onde a interação entre residentes e visitantes é inexistente, sendo esse intercâmbio uma das ideias básicas de viajar. 

O turismo exige uma teatralização, que muitas vezes tem pouco a ver com a vida de todos os dias e os problemas de uma era. Portanto, caro leitor e leitora, para que não sejamos vítimas desse teatro e ainda termos a chance de ver a Duomo no centro de Florença nos próximos anos, cabe a nós, agora, evitar por um tempo as esquinas em que todos querem ir e, de quebra, ajudar o turismo a sair do seu atual estado aos trancos e barrancos. Não vejo apenas a vacina como solução a longo prazo para fronteiras liberadas. Mas bom senso do comportamento humano, sim.

Se a viagem só leva a praias lotadas e multidões novamente, então talvez esta estação da incerteza seja uma oportunidade completamente nova e inesperada de se perguntar: que tipo de férias queremos exatamente? A mudança começa com a interrupção. Abster-se de algo, permitindo que uma lacuna se abra.

Deixar o status de ‘fui para Capri porque meu vizinho foi’ não só fará bem para o fim da pandemia (menos aglomerações, menos capacidade de um vírus sobreviver) como retomará o turismo de vez e fará viajantes sair de uma sociedade paralela que não entra mais em contato com moradores locais.

Hallstatt, na Áustria
Hallstatt, na Áustria, já foi replicada na cidade chinesa de Guangdong
Foto: Sorasak/Unsplash

Roger Willemsen resumiu a mentalidade que corresponde a esse tipo de viagem em seu livro “Os Fins do Mundo”: “O turista procura o lugar em sua instantaneidade, ele procura a visão, o instantâneo; o viajante, por outro lado, busca a duração, o eterno.” Lembra que convidei todos a serem mais viajantes do que turistas aqui? É um convite urgente.

Se já ouviu a expressão FOMO (fear of missing out), ou o medo de perder a experiência do que todo mundo está vivendo, saiba que agora existe o JOMO (joy of missing out), exatamente o contrário, ou seja, a alegria de se concentrar na atividade presente sem sequer ligar para aquilo que os outros estão fazendo ou de parecer cool. E como isso também ajuda na recuperação do turismo?

Primeiro que existe um fluxo equilibrado de pessoas indo a diferentes partes do globo sem a ânsia de visitar o hotspot do momento. Depois, a deliciosa alegria de não se sentir pressionado em seguir uma onda faz com que cesse a necessidade de provar o sucesso da viagem com ótimas fotos e bronzeado uniforme. 

Permite-se que animais, como camelos e orangotangos, sejam muito mais do que panos de fundo no feed do Instagram. Já começa que hoje, com a palavra onda, pensamos menos em se jogar e surfar no mar, e mais na terceira onda, que nos atormenta, e todos os nossos planos de verão. 

Senhora observa mercado em Firenze
Que tal se engajar com o comércio local na sua próxima viagem?
Foto: Charles Büchler/Unsplash

E então voltamos ao título do texto: o turismo de consciência. Turismo de consciência é lembrar que ainda vivemos numa pandemia durante uma viagem. É talvez alugar uma casa nos grandes centros, e resolver fazer uma experiência online ao invés daquelas mesmas físicas, batidas e pouco exclusivas. Afinal, você ainda abrirá a janela e verá grandes girassóis amarelos nos campos da Toscana. 

Ou durante seu anywhere office, resolva ajudar o turismo local encomendando seu almoço e jantar naquele restaurante da vizinha empreendedora. E nos fins de semana, leve seus filhos a ter contato com a terra, a plantar árvores, e deixar um pouco o álcool gel de lado, lembrando que a natureza do homem tem, por natureza, o contato com fogo, água, terra e ar. 

Se o turismo é capitalismo sobre malas de rodas, o de consciência é uma experiência coletiva de menos é mais. Não estivemos nessa juntos, ainda estamos. Só tomemos cuidado para não nos tornarmos parte do novo grupo-alvo turístico: aquele com aversão a tudo que é popular. Podemos ser viajantes saturados, mas jamais saturados de ver a verdadeira estátua de David. Michelangelo agradece. O turismo, também.

*Foto capa: Björn Snelders / Unsplash

Quem escreveu

Natália Baffatto

Data

22 de June, 2021

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Natália Baffatto

Colocou os pés em Londres pela primeira vez aos 17 e sabia que não pararia por ali. Depois de inúmeras visitas, entregou-se de vez a esse casamento britânico, que já dura sete anos. Agora tem mais motivos para ser feliz porque ouve o Mind the Gap todos os dias e pode se lambuzar com as delícias de um cacio e pepe em Trastevere em apenas 2 horas, pois acredita que viajar é papo sério e comer bem, mais ainda, além de ter certeza que um cappuccino bem tirado pode transformar o dia.

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    Vivemos em um mundo de opções pasteurizadas, de dualidades. O preto e o branco, o bom e o mau. Não importa se é no avião, ou na Times Square, ou o bar que você vai todo sábado. Queremos ir além. Procuramos tudo o que está no meio. Todos os cinzas. O que você conhece e eu não, e vice-versa. Entre o seu mundo e o meu.