Ilha Grande – o paraíso do Sudeste brasileiro

Data

18 de January, 2016

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Seu isolamento participou ativamente da história do país, com guerras dos portugueses contra corsários franceses e ingleses, com as fazendas de cana-de-açúcar cheias de escravos, ponto de triagem e quarentena de passageiros doentes, e como presídio de segurança máxima até meados dos anos 90. Mas esse isolamento também serviu positivamente para resguardar esse paraíso natural da invasão de turistas e a destruição que vem com eles. São ao todo 113 praias, 11 comunidades locais, 4 áreas de proteção ambiental, e muita Mata Atlântica nativa intocada.

O nome Ilha Grande vem dos índios tamoios, antigos habitantes da ilha, apesar que muita gente diz que ela deveria trocar de nome com a Ilha Bela, em São Paulo. Afinal, ela tem só 193km² contra 348km² da prima paulista e, sem querer desmerecer esta última, paisagens de beleza indizível. Visitar a Ilha Grande é uma experiência única porque, apesar de estar bem no meio do caminho entre as maiores e mais modernas cidades do país, ali é um lugar para voltar no tempo, esquecer a tecnologia, os luxos, e relaxar mesmo. Então prepara o chinelo e o protetor, e começa a se programar.

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Chegada à Vila do Abraão (foto: Renato Salles)

Informações Gerais

A primeira grande decisão a se tomar quando for para a Ilha Grande é onde ficar. A ilha tem duas metades bem distintas que podem determinar o tipo de viagem que você vai fazer. A metade do continente está toda voltada para a Baía de Angra, é o lado da maioria das vilas, e onde você tem luz elétrica. Aqui você encontra pousadas, hospedarias, restaurantes e bares, apesar de ser tudo bem rústico. O ponto principal e mais conhecido dos turistas é a Vila do Abraão, que mesmo assim é bem tranquila e e agradável.

Do outro lado, o lado do oceano, você encontra praias quase desertas, algumas minúsculas vilas, e um clima bem mais roots. Aqui não tem luz elétrica, e algumas poucas casas tem gerador que fica ligado até 9, 10h da noite. Depois, só você, as estrelas e o barulho do mar. A hospedagem mais comum aqui é o camping, mas em algumas praias você consegue um quarto na casa de algum local. O lugar mais procurado é o Aventureiro, que parece uma vila hippie nos anos 70.

Tem praia para todo mundo em Lopes Mendes (foto: Renato Salles)
Tem praia para todo mundo em Lopes Mendes (foto: Renato Salles)

Com essa atmosfera retrô, algumas modernidades são escassas por lá. Cartão de crédito, por exemplo, é bem aceito em bares e restaurantes no lado do continente. Mas é melhor ter uma reserva de dinheiro vivo no bolso para pagar hospedagens, passeios e, principalmente, a entrada e a saída da ilha. Carro por lá não existe, e as ruas são ou de pedra ou de terra, então malas de rodinha podem não ser a melhor escolha. E um item essencial, além do protetor solar, é um bom repelente de insetos.

Para chegar lá

A Baía de Angra começa em Paraty e vai terminar só lá no Rio de Janeiro, na Restinga de Marambaia. A Ilha Grande fica bem no meio, fechando a baía para o Oceano Atlântico. O acesso a ela é exclusivamente feito por barcos, que saem de três cidades: Angra dos Reis, Mangaratiba e Conceição de Jacareí. As opções de barcos que levam até a Vila do Abraão são as barcas da CCR (R$14), as escunas (R$25) e os speed-boats (R$40). As grandes diferenças entre eles, além dos preços, é a quantidade de gente em cada embarcação, e o tempo de viagem, que pode variar de 40 minutos até 1h30. Outras praias tem barcos com linhas regulares saindo de Conceição de Jacareí, mas algumas, como o Aventureiro, só tem serviços privados contratados sob demanda. Todas as informações você encontra no site oficial da ilha.

E para chegar até os barcos? Bom, você precisa chegar até Angra ou Mangaratiba. Aí não tem jeito, ou você pega um carro, ou um ônibus, ou pode pegar um helicóptero (prometemos que não vamos te julgar).  Se for de carro, programe-se para chegar até o porto ainda durante o dia, porque à noite os barcos são bem mais limitados e você pode ficar literalmente a ver navios, do continente. Chegando lá, as três cidades tem estacionamentos cadastrados, que são confiáveis e com preços decentes. Em feriados muito concorridos, é melhor dar uma ligada antes para reservar seu lugar. A lista completa você encontra aqui.

A igrejinha de Santa Cruz, no Aventureiro (foto: Renato Salles)
A igrejinha de Santa Cruz, no Aventureiro (foto: Renato Salles)

Saindo do Rio de carro, a viagem é tranquila e leva menos de duas horas, seguindo pela Av. Brasil, ou pelo Recreio, até a Rodovia Rio Santos. De ônibus, a empresa Costa Verde tem várias saídas diárias da Rodoviária Novo Rio. A viagem dura 3 horas e custa R$34 para Mangaratiba.

Se você vai de São Paulo, pode se preparar que chegar a Angra demora mais de 5 horas mesmo sem trânsito. Você pode descer qualquer serra e depois seguir para o norte pela Rodovia Rio-Santos, mas vai ter que passar por dentro de todas as cidades e encarar todo o trânsito do Litoral Norte. Nossa sugestão: siga pela Dutra até Barra Mansa e desça a serra passando por Getulândia e Rio Claro. É uma estradinha pequena mas simpática, que não vai revirar o estômago dos mais sensíveis e que pode de deixar direto em Angra ou Mangaratiba. Se for de ônibus, a Reunidas faz o trajeto até Angra em 7h30 e custa R$70.

Para quem vem de Belo Horizonte, o melhor caminho é seguir até Petrópolis, lá pegar a Rodovia Washington Luís, e seguir pelo Arco Metropolitano do Rio até chegar à Rio-Santos em Itaguaí. É uma viagem de 7h. Se preferir o ônibus, a empresa Util faz o trajeto em 9 ou 11h (depende das paradas) e custa R$133,50.

Onde ficar

Escolher onde ficar na Ilha Grande é quase praticamente definir que tipo de viagem você vai fazer. Se quer curtir as praias durante o dia, mas a noite não abre mão de ter algum agito, com restaurantes e bares, fique no Abraão mesmo. Se vai de barco, e quer passar os dias navegando, procure as pousadas do Saco do Céu ou da Enseada do Bananal, onde é possível atracar. Mas se está em busca de aventura, nenhum lugar pode ser mais propício que o Aventureiro.

O macaquinho se deu bem (foto: Renato Salles)
O macaquinho se deu bem (foto: Renato Salles)

A Vila do Abraão é um dos lugares mais fáceis de achar onde ficar. Como é uma vila relativamente urbanizada, tem muitas opções para escolher, e ainda barganhar no preço. A maioria fica na rua em frente ao mar, ou nas travessas que saem dela. Dificilmente você vai ter que andar mais que 100m para chegar. Só não espere luxo. Muitas delas são bem rústicas, nem todas tem ar condicionado, e você vai topar com muitos quartos para 3 ou 4 pessoas (cama de casal + cama de solteiro ou beliche) de decoração simples. Numa pesquisa rápida, dá para encontrar muitas similares, e com bons preços: Pousada Ouro VerdePedacinho do CéuPortal dos BorbasÁgua VivaD’PillelPorto AbraãoOlhos d’Água.

Quem quer um pouco mais de conforto, ou tem um barco à disposição (convida a gente!), o Saco do Céu é uma das melhores pedidas. Essa baía quase não tem praias, mas tem um formato tão sinuoso que é quase uma garagem perfeita para os navegantes de tão protegida. Outros lugares onde dá para atracar e se hospedar são as enseadas do Bananal, de Araçatiba e do Sítio Forte. Em todas elas tem pousadas mais bacanudas (e caras), e alguns restaurantes elegantes. Opções de hospedagem: Pousada Nautilus, Coqueiro Verde e Mar de Araçatiba.

Se for para as praias voltadas para o Oceano, como o Aventureiro, a acomodação é por tua conta. Vá garantido porque por lá não tem nada, nem vendinha, nem farmácia, nada. A luz elétrica é de gerador, e só alguns locais tem. Sorte que muitos deles transformam suas casas em botequinhos à noite, para tomar uma cerveja gelada ou uma cachaça. Nem precisa dizer que tudo é pago com dinheiro. Ah, e o camping também não é gratuito. Você escolhe um canto para montar a barraca, e paga para o dono daquela área pela diária. Em troca, você pode usar o banheiro improvisado que eles mesmos fazem, de bloco, e com água de cachoeira (friiiiiiiiio!).

Comes e Bebes

Não precisa nem dizer que o forte da gastronomia da Ilha Grande são os frutos do mar. Basicamente, qualquer biboquinha que você vá tem pelo menos um bom filé de peixe para comer. E de fome ninguém morre lá. Mas alguns lugares são bem interessantes, uns pela comida, e outros por oferecerem experiências bem incomuns que valem a pena tentar pelo menos uma vez. Só fique ligado porque os cantos mais afastados, que não tem sinal de celular, também não aceitam cartão você precisa ter as verdinhas à mão.

Cerveja gelada no Bardjeco (foto: Renato Salles)
Cerveja gelada no Bardjeco (foto: Renato Salles)

No Abraão

No canto da praia à direita (olhando para o mar), fica o charmoso Lua e Mar, que tem uma moqueca bem servida e deliciosa. Como tem mesas e cadeiras na areia, embaixo das árvores, dá para chegar molhado, de biquíni e sunga, então é ótimo para almoçar. Em uma das esquinas mais movimentadas da vila, o Bardjeco tem clima de botecão mesmo, para tomar uma cerveja de garrafa na calçada, e ainda tem um cardápio grande, que vai de bobó de camarão até espaguete com frutos do mar.

Mais para dentro, o Dom Mario é um clássico que atrai gente do mundo todo para comer seus peixes com molho de maracujá, e as bananas caramelizadas de sobremesa. Mas chegue cedo se não quiser pegar fila. Se quiser comer bem sem gastar muito, o Banana da Terra oferece o clássico PF com peixes frescos do dia, sem muita frescura. E quando cansar da comida local e quiser uma tradicional comfort food, a Pizza na Praça serve mais de 50 sabores das redondas bem recheadas ao lado da Igreja de São Sebastião, na pracinha.

No resto da Ilha

No Saco do Céu, um dos mais conhecidos é o restaurante da pousada Coqueiro Verde, que fica aberto o ano inteiro, não precisa de reserva, e tem uma bela piscina em frente à água. No menu, moquecas e risotos. Ainda lá, o Reis e Magos só é acessível por barco, que pode ser pedido na hora da reserva. Com a decoração bem cuidada e iluminação com velas, é um dos mais românticos da ilha.

Outra pousada com restaurante conhecido é o Nautilus, na Enseada do Bananal. O proprietário, Kazuo Tonaki, tem uma fazenda de vieiras e peixes no mar em frente, que abastece não só o seu, mas também estabelecimentos no Rio. Mas melhor ligar para garantir lugar.

A tranquila Enseada das Palmas (foto: Renato Salles)
A tranquila Enseada das Palmas (foto: Renato Salles)

O Convés fica em Araçatiba, e funciona só com reserva. A maioria das mesas fica em um deck projetado sobre o mar, com uma vista incrível, onde se prova entre outras iguarias, o carro chefe: camarão com queijo.

Na isolada Lagoa Verde, o único lugar que existe para se comer ou beber alguma coisa é o Flutuante do Gaúcho. E é isso mesmo que você imaginou. Lá você come, no meio do mar, carnes assadas de primeira. Na Lagoa Azul também dá para beliscar, mas nesse caso não tem nem uma plataforma. O Petisco da Ilha é um barco que fica ancorado lá, e serve de pastel a talharim, e até lagosta.

No Aventureiro, alguns locais montaram uma infraestrutura simples para atender os visitantes, numa pegada meio quiosque. Mas se a fome bater, tente encontrar o Pastel da Vera, que fica no canto direito, atrás do pier. Nem precisa dizer quanto são bons os pasteis de camarão fritos na hora.

As praias

Abrahão – A vila não tem uma praia tão bacana, e o movimento de barcos é muito grande, então o mergulho nem é recomendado. Mas passando por trilhas curtas e fáceis é possível chegar ao Abraãozinho à direita, e à Praia Preta à esquerda. Essa praia tem areia grossa e escura, mas é bem vazia e agradável. Seguindo pela trilha para dentro, é possível ver as ruínas do antigo presídio, que funcionou de 1886 a 1913.

Pôr-do-sol no Abraão (foto: Renato Salles)
Pôr-do-sol no Abraão (foto: Renato Salles)

Lopes Mendes – Tida como uma das praias mais bonitas do Brasil, é uma praia grande, com areia bem fina e branca, e desabitada por ser uma reserva. Como não é permitido ancorar lá, o acesso é feito apenas por uma trilha que vem das Praias das Palmas e do Pouso (prepare as pernas para a subida). Todo dia saem barcos pela manhã do pier do Abraão, que voltam à tarde, por cerca de R$25. Ou se quiser encarar, tem uma trilha direto, mas vai te consumir umas boas duas horas do dia em cada perna.

Caxadaço – Essa praia minúscula virada para o oceano é bem pouco visitada, e uma ótima parada para quem está de barco. No canto esquerdo, uma grande pedra avança sobre o mar e serve como solário.

A grande pedra do Caxadaço (foto: Renato Salles)
A grande pedra do Caxadaço (foto: Renato Salles)

Dois Rios – Inacessível por muito tempo por conta do presídio, foi aberta à visitação só depois que implodiram a construção. O nome vem, obviamente, dos dois rios que deságuam ali, um de cada lado da praia. Subindo o curso de ambos, você chega a cachoeiras bem gostosas.

Parnaioca – A Parnaioca é uma das poucas praias do lado do Oceano que não tem restrições ambientais, e por isso mesmo tem algumas poucas casas de pescadores. Também é uma das poucas com o mar tão calmo que parece uma piscina.

Praia dos Meros – Bem pequena e linda, a Praia dos Meros abriga também vestígios de antigas civilizações que habitaram a ilha há cerca de 3 mil anos. É também um dos melhores lugares para brincar com o snorkel e ver a fauna marinha.

Aventureiro – Há uns 50 anos, um avião comercial precisou fazer um pouso forçado da vizinha Praia do Leste. Diz a lenda que carregava barras de ouro, e que pescadores do Aventureiro teriam se apossado da carga. Ninguém sabe dizer o que foi feito com ela. O que se pode dizer é que o Aventureiro ainda é um dos lugares mais remotos e mais bonitos da ilha. A entrada lá é controlada, já que faz parte da Reserva Biológica Estadual da Praia do Sul.

O coqueiro torto do Aventureiro é um ícone (foto: Renato Salles)
O coqueiro torto do Aventureiro é um ícone (foto: Renato Salles)

Praias do Sul e do Leste – No Brasil, por lei todas as praias são públicas. As únicas excessões são essas duas longas e maravilhosas faixas de areia ao lado do Aventureiro. Lá é proibido entrar, seja de barco ou a pé, por serem um dos últimos santuários de Mata Atlântica original do país. São mais de 6km de total isolamento que só podemos ver de longe.

Freguesia de Santana – Uma das mais bonitas do lado voltado para o continente, Freguesia de Santana também abriga uma das primeiras igrejas da ilha, de 1802. Fica bem próxima à Lagoa Azul, e tem águas bem calmas, alinhadas por coqueiros.

Outros passeios

Lagoa Azul – Apesar do nome, é na verdade bem verdinha. E também não é uma lagoa, mas um canal entre duas ilhotas, onde a areia branca e rasa forma um ponto ideal para um mergulho. E é uma das primeiras paradas da maioria dos barcos que vem de Angra. Não à toa, vive movimentada.

Lagoa Verde – Mais isolada – e mais fiel ao nome – a Lagoa Verde é uma pequena baía com um tom esmeralda incrível. A água parece parada, o que faz ela parecer uma grande e funda piscina.

Adivinha que lagoa é essa! (foto: Renato Salles)
Adivinha que lagoa é essa! (foto: Renato Salles)

Pico do Papagaio – Esse é o segundo pico mais alto da ilha (982m), perdendo só para o Pico da Pedra d’Água, com 1035m. Mas é o mais visitado por conta da trilha que leva até lá. São de 4 a 5 horas de caminhada – e subida – para ir e voltar, mas a vista panorâmica de 300º do cume vale o esforço. Com o tempo bem aberto, dá para ver até a Pedra da Gávea no Rio. Recomenda-se ir com um guia, porque já houve muitos casos de gente perdida na mata. E não esqueça de levar água potável, protetor solar e óculos, porque o topo não tem vegetação.

Foto do destaque: Shutterstock – Christian Kohler

Data

18 de January, 2016

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