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Berlim: Como foi ser vacinada

Quem escreveu

Lalai Persson

Data

11 de May, 2021

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Uma das coisas mais impressionantes na Alemanha é a velocidade em que um caixa de supermercado trabalha, especialmente os grandes de preços populares, como o Lidl. Quando todo mundo achou que ia faltar comida e papel higiênico no início da pandemia, o congestionamento de carrinhos nos corredores, as prateleiras vazias e as filas quilométricas dentro e fora do supermercado viraram parte da rotina.

Na primeira vez que eu vi a fila, suei frio, não só pela espera, mas por ainda estar me acostumando à novidade de ter uma máscara cobrindo a metade do meu rosto. Entrei em pânico porque achei que poderia me sentir sem ar, já que não tinha a menor ideia de quantas horas passaria ali, ou ter um acesso de tosse, algo que tenho com tanta frequência quanto minhas crises de ansiedade.

Um dos centros de vacinação de Berlim – Foto: Berlin.de

Mas a caixa, que tinha seis braços trabalhando a seu favor, fez com que em 15 minutos nós já estivéssemos pagando a nossa conta, envergonhados por não ter conseguido empacotar a compra, enquanto ela nos encarava com um “vai logo, seus molengas” embrulhado num sorriso maroto.

A vacinação na Alemanha tem sido um processo lento e cheio de críticas. Não demorou para surgir a piada de que deveriam transformar os caixas do Lidl em posto de vacinação, pois assim toda a população da Alemanha estaria vacinada em um mês.

Aqui em casa já pensávamos que teríamos muita sorte se conseguíssemos ser vacinados em setembro, mas eis que rolou xabu com a AstraZeneca e parte da população se negou a tomá-la. Por fim, ela foi vetada para maiores de 60 anos, mesmo que os problemas detectados tenham acontecido com menores de 45 anos. O governo acabou liberando-a para geral, a categoria em que eu e meu marido nos encontramos.

“Lalai, tá rolando vacina pra geral!”. “Opa, como assim?” “Dia 5 de maio, às 10h40, já marquei pra gente!” Corri pra janela e gritei como só faço em gol do Brasil na Copa do Mundo. Dei-me conta de que há tempos eu não gritava.

Não demorou para a notícia se espalhar e congestionar as linhas telefônicas dos consultórios médicos da cidade. Um médico contou numa entrevista que cerca de 80% das ligações ininterruptas que recebeu no consultório num dia era pra saber se tinha a AstraZeneca. O Ola (marido) ligou pra marcar uma consulta de retorno e foi atendido com a frase: “Não temos AstraZeneca.” No dia seguinte ninguém conseguia mais falar com os consultórios. Todo mundo tratou de providenciar uma secretária eletrônica que repetia: “Não temos AstraZeneca. Se vira aí”.

Uma parte da geral conseguiu marcar e celebrou, já a geral que não conseguiu marcar ficou me mandando artigos sobre o risco de trombose para que eu pensasse melhor. “Não quero alarmar, mas acho de bom tom compartilhar com você.”

Logo começaram a surgir apps e outras várias formas para facilitar a descoberta de lugares com a AstraZeneca disponível pra geral, além de postos de vacinação improvisados atendendo por ordem de chegada, onde “enfermeiros” se vestem todo de preto, têm cara de bouncer de balada e as pessoas que não tinham data para se vacinar foram para matar as saudades da fila da Berghain.

Na véspera do meu grande dia de vacinação eu fui dormir pesando 50 quilos a mais só de ansiedade acumulada. Na quarta-feira, eu pulei da cama super disposta como nunca estou pela manhã, tomei um café caprichado e segui para o consultório do outro lado da cidade sorrindo mais do que o Ronaldinho Gaúcho. Debaixo do braço, umas 30 páginas impressas devidamente preenchidas à mão e assinadas depois de ter penado com o tradutor do Google pra saber o que eu estava assinando (a trombose estava lá). Entre ser atendida, ter a papelada conferida, tomar a vacina e pegar o comprovante que veio no meu cartão do Hospital das Clínicas de São Paulo, eu senti saudades dos caixas do Lidl.

Quem já tomou a vacina sabe que junto com a picada pode vir uma falsa sensação de liberdade. Aquela que ficou lá atrás de poder ir e vir a qualquer hora para qualquer lugar, de fazer grandes reuniões, de se aglomerar, de ir pra festa, de assistir um show ao vivo, de dividir a mesma cerveja com a roda, de cochichar no ouvido do outro sem ele pular metros de distância de medo de você, de ir a shows e festivais, de ir a coquetéis de lançamento de sabor novo de biscoito, de viajar, de visitar a família e abraçar todo mundo, de frequentar bares lotados e ficar pendurada um tempão no balcão para ser atendida, de abraçar os amigos, de beijar estranhos.

Saí do consultório e segui pra estação de trem com o sol batendo forte na minha cara, o que me manteve otimista, mas no dia seguinte acordei doente achando que ia morrer depois de gritar na cama achando que meu braço tinha sido amputado. “Olaaaaa, socorro, será a trombose?”, mas era apenas a verdade dando as caras pra avisar que não tem liberdade nenhuma chegando aí. Passei dois dias de cama. O otimismo foi embora junto com meu humor.

Aqui em Berlim está praticamente tudo fechado desde novembro. Restaurantes, bares e cafés só são possíveis frequentar a fila, que virou lugar pra ver e ser visto, enquanto aguardamos nosso take away. Comércio e galerias de arte só com horário marcado e teste negativo de Covid em mãos feito nas últimas 24 horas. O toque de recolher é às 22h, mas uma brecha permite que entre 22h e 0h qualquer pessoa possa estar sozinha na rua fazendo caminhada, exercícios físicos ou passeando com o cachorro.

Muitos não sabem, mas desde o início da pandemia não usamos máscara em lugares abertos. Elas são obrigatórias em estabelecimentos fechados, no transporte público e nas filas que viraram parte da rotina, sendo só permitidas a PFF2, que o sindicato dos clubbers fez uma petição e hoje ela está disponível na cor preta. Tá com saudades de ver gente? Pega uma fila. Quem vem pra Berlim de outro país, se assusta com essa “liberdade” de andar pra cima e pra baixo sem máscara na cara. Eu estranhei quando estive no Brasil (antes que me joguem uma pedra, eu sou a favor da máscara, pelamor!).

Assim a vida segue por aqui com teste semanal gratuito, que acabou sendo inserido na rotina de muita gente. Vamos nos encontrar em grupo (máximo 5 pessoas) em lugar fechado (aka na casa de alguém)? Bora se testar antes. Estamos sempre com um comprovante na mão mostrando que estamos “negativados” e mesmo assim rolam uns sustos de vez em quando.

Depois de meses com números altos de infecções diárias com a Alemanha dominando a lista vermelha no combate ao coronavírus na Europa, finalmente tivemos sete dias consecutivos de taxa de infecção inferior a 100 (por 100 mil habitantes). Mas aí o sol abriu, todo mundo tirou a roupa, lotou os lagos e a semana começou com a taxa 100,8, o que nos fez voltar algumas casinhas. Hoje, dia 11 de maio, estamos com 93,7/100 mil.

O afrouxamento das regras que poderia acontecer a partir dessa semana já tem riscos de não acontecer, mas com os 30 graus batendo no termômetro nesta semana a rua já demonstrou que o verão pode não rolar como queremos, mas ele está chegando.

Quem escreveu

Lalai Persson

Data

11 de May, 2021

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Lalai Persson

Lalai prometeu aos 15 anos que aos 40 faria sua sonhada viagem à Europa. Aos 24 conseguiu adiantar tal sonho em 16 anos. Desde então pisou 33 vezes em Paris e não pára de contar. Não é uma exímia planejadora de viagens. Gosta mesmo é de anotar o que é imperdível, a partir daí, prefere se perder nas ruas por onde passa e tirar dicas de locais. Hoje coleciona boas histórias, perrengues e cotonetes.

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    Vivemos em um mundo de opções pasteurizadas, de dualidades. O preto e o branco, o bom e o mau. Não importa se é no avião, ou na Times Square, ou o bar que você vai todo sábado. Queremos ir além. Procuramos tudo o que está no meio. Todos os cinzas. O que você conhece e eu não, e vice-versa. Entre o seu mundo e o meu.