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The Clock, o filme-arte que dura 24 horas

Quem escreveu

Renato Salles

Data

17 de October, 2017

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Eu já tinha comentado rapidamente sobre essa obra quando contei sobre o novo prédio do Instituto Moreira Salles, que abriu mês passado na Av. Paulista. Mas explicar direito o que é video-instalação ‘The Clock‘ é tão complicado que eu tive que separar um post inteiro só para tentar. Eu confesso que video-arte nunca foi muito o meu métier, mas a obra do americano Christian Marclay não tem nada a ver com qualquer coisa que eu – ou você – já tenha visto.
Vamos lá. Para começar, ‘The Clock‘ é um filme que dura exatas 24 horas. Mas calma, você não precisa dedicar um dia inteiro da sua preciosa vida para curtir ou entender a obra. Você pode ver só algumas horas, ou mesmo alguns minutos para vivenciá-la. A obra é uma grande colagem de pequenos trechos de filmes, que vão se interligando através dos sons. Estão ali pedaços de filmes que vão de Bergman e Kurosawa a Tarantino e Woody Allen. De Indiana Jones a Noite dos Mortos-Vivos. De Orson Welles a Adam Sandler. O que esses pedaços de filmes tem em comum é o tempo. Mais especificamente o relógio. Em todas as cenas aparece um relógio, ou alguém dizendo a hora. E esses relógios estão sincronizados com a hora real do dia. Assim, conforme o filme avança, o espectador consegue acompanhar a passagem do tempo.

the clock
Cena do filme ‘Safety Last’, de 1923

A narrativa, então, se constrói em cima da relação que temos com o tempo. De um lado, os atores do filme estão sempre em uma situação em que o tempo é um agente determinante. Um está correndo por estar atrasado para chegar a algum lugar, a outra está entediada por esperar um momento que não chega, um terceiro se despede por é hora de ir embora. Do outro, o nosso, somos confrontados com o desconforto de estar o tempo todo de olho no próprio tempo. Se o cinema é hoje um dos poucos lugares onde nos desligamos de nossos celulares e da hora, na sessão do ‘The Clock’ isso é impossível. A cada minuto um relógio nos lembra quanto tempo estamos perdendo gastando ali.
Outro aspecto interessantíssimo da obra do Christian Marclay é que, por ela acompanhar todos os minutos do dia, os acontecimentos do filme coincidem com as nossas vidas. Se você chega lá na hora do almoço, provavelmente vai encontrar trechos de gente comendo ou reclamando de fome. Se pegar uma sessão no meio da madrugada, vai ver gente cansada, dormindo, ou vagando pelas ruas vazias e escuras da cidade.

‘The Clock’ foi apresentado pela primeira vez em Londres, em 2010, e já passou por 20 países. Esteve já no MoMA de Nova York, no Centro Pompidou em Paris, no Museu de Arte Moderna de São Francisco e no Guggenheim de Bilbao. O filme é sempre exibido numa sala escura, como um cinema mesmo, mas equipada com sofás. É só chegar e procurar um lugar, e se quiser pode até se sentir em casa. O grande problema é que o IMS só fica aberto das 10h às 22h. Então, para que seja possível assistir ao ‘The Clock’ inteiro, o instituto resolveu manter as portas abertas 24h apenas de sábado para domingo. Então, nos fins de semana, só essa sala fica aberta à visitação durante toda a madrugada. Mas quem quiser conhecer a parte noturna da obra tem que ficar esperto. Só tem mais 5 fins de semana para aproveitar essa oportunidade.
The Clock – Christian Marclay
Instituto Moreira Salles – Av. Paulista, 2424 – Jardins
De terça a sexta, das 10h às 22h
Feriados (exceto segunda), das 10h às 20h
De sábado às 10h até domingo às 20h – até dia 19 de novembro

Quem escreveu

Renato Salles

Data

17 de October, 2017

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Renato Salles

Para o Renato, em qualquer boa viagem você tem que escolher bem as companhias e os mapas. Excelente arrumador de malas, ele vira um halterofilista na volta de todas as suas viagens, pois acha sempre cabe mais algum souvenir. Gosta de guardar como lembrança de cada lugar vídeos, coisas para pendurar nas paredes e histórias de perrengues. Em situações de estresse, sua recomendação é sempre tomar uma cerveja antes de tomar uma decisão importante. Afinal, nada melhor que um bom bar para conhecer a cultura de um lugar.

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Comentários

  • Adorei isso, Rê. =D
    - Tamba

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Vivemos em um mundo de opções pasteurizadas, de dualidades. O preto e o branco, o bom e o mau. Não importa se é no avião, ou na Times Square, ou o bar que você vai todo sábado. Queremos ir além. Procuramos tudo o que está no meio. Todos os cinzas. O que você conhece e eu não, e vice-versa. Entre o seu mundo e o meu.