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Sobre nomes de ruas e a falta do que fazer dos políticos

Quem escreveu

Renato Salles

Data

29 de August, 2017

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Já aviso. Esse é um post de revolta.
Você deve ter ouvido – e se não ouviu, já te dou aqui o abaixo-assinado para se revoltar junto – mas um desocupado que se diz deputado resolveu que seria uma ótima ideia mudar o nome da estação de metrô Vila Mariana para Enéas Tognini, em homenagem a um pastor batista que morreu ano passado. Nada contra o senhor, Sr. Enéas. O senhor deve ter sido uma pessoa bacana. Mas isso não quer dizer que o senhor merece ser lembrado pelas milhares de pessoas que passam pela estação todos os dias, que mal sabem pronunciar teu nome. Isso sem falar no descaso com a história da cidade, no gasto desnecessário com a mudança de sinalização de toda a rede do metrô, e – desculpem o português – na falta de sarna para se coçar desse boçal desse deputado.
Outro dia, estava eu andando pela Marginal Pinheiros, e vi algumas placas indicando a Ponte Edson de Godoy Bueno. Olha, eu nasci em São Paulo, passo pela Marginal com muita frequência, e tenho certeza que não conheço nem a ponte, nem esse tal aí. Sorte que eu não dependia dela no meu caminho, senão era capaz que eu a teria perdido. Depois que fui descobrir – fazendo uma bela pesquisa na internet, porque não é que a Prefeitura se preocupou em avisar – que se tratava da antiga (e ainda nova) Ponte Itapaiuna. O tal do Edson, achei aqui, é o fundador da Amil. De novo, respeito aqui a família do Edson, mas convenhamos que ele não foi nenhuma Madre Teresa para a cidade a ponto de ter seu nome estampado no mapa da cidade. Pode perguntar para seus amigos que tem convênio da Amil. Aposto que a maioria deles seria bem menos lisonjeiro se pudesse escolher a homenagem.

Leave Vila Mariana alone!
Leave Vila Mariana alone!

Tem uma coisa que sempre me deixa encantado em Buenos Aires, mais do que o tal charme europeu. Eu realmente adoro ver o nome das ruas da cidade. Muitos curtos, em uma mistura deliciosa de castelhano e línguas indígenas, com sons lúdicos de divertidos. Rivadavia, Pueyrredón, Riobamba, Ayacucho. Mesmo as ruas com nomes em espanhol são bem curtinhas e fáceis, e poucas tem nomes longos de personalidades célebres da história do país (e não qualquer Zé que foi amigo de algum ex-prefeito). Eu fico triste porque nós temos não só a já rica língua portuguesa para trabalhar, mas também as infinitas opções que o tupi-guarani oferece. Vai falar que nomes como Ibirapuera, Tabatingüera, Guarapiranga ou Guaianases não são muito mais interessantes e sonoros que um nome de um fulano qualquer?
Fora que, para piorar, a cidade é tão multicultural, que aparecem uns nomezinhos doídos de entender e escrever. Eu tinha uma amiga de escola que morava na Rua Dr. Chibata Myiakoshi. Pensa o quanto a molecada não achava motivo para zoar com isso. E imagina só como é para os coitados que moram na Av. Yervant Kissajikian quando eles tem que dar o endereço para um atendente de telemarketing. Sinceramente, eu acho muito mais bacana o nome das ruas do Jardim Natal, onde elas são chamadas de uma fruta seguidos de Natal. Fácil assim: Morango Natal, Manga Natal, Banana Natal, e assim por diante. Não tem erro!
congonhas_infraero
‘Meu voo sai lá do Deputado Freitas Nobre.’ Cê Jura???

Em São Paulo mesmo temos um monte de bairros que tem ruas com nomes curtos, práticos, e que homenageiam coisas e não pessoas. Moema recebeu nomes de pássaros e índios. Os Jardins são quase um mapa com nomes de países da América e Europa. Higienópolis usou os estados brasileiros, enquanto o Brooklin usou os estados americanos. Todos esses nomes são acessíveis, de fácil reconhecimento pelos cidadãos. Sabe por que não tem um Jardim Alemanha em São Paulo com o nome dos estados germânicos? Porque existiria a Rua Mecklemburgo-Pomerânia e a Alameda Renânia do Norte-Vestfália. Não rola. Se os políticos precisam de mais criatividade para achar temas para nomear as ruas, eu posso ajudar com alguns palpites: cores (Rua Cinza – o prefeito ia adorar), super-heróis (Av. Batman, Viaduto Mulher Maravilha), bebidas (Travessa Vodka, Largo do Gim, Ponte Catuaba Selvagem), e até usar os quatro Telletubies. Tema não falta.
Mas não dá para chorar sobre o leite derramado, e o que está feito está. O que podemos fazer é ficar de olho nesse bando de malandro do nosso Legislativo para não continuar com essa bandalheira. Hoje corre não só a lei para mudar o nome da Estação Vila Mariana, como também um outro que já foi aprovado para mudar o nome do Aeroporto de Congonhas. E adivinha o nome de quem eles querem dar? De um deputado, claro. Alguém aí por acaso já ouviu falar no Sr. Deputado Freitas Nobre e suas grandes realizações? É ou não é de doer?
*Foto do destaque: Prefeitura de São Paulo


Update: conforme nos alertou o leitor Antonio Luis, essa proposta de mudar o nome da Estação Vila Mariana, do deputado estadual – e filho do pastor neopentecostal R. R. Soares – André Soares (DEM),  foi vetada pelo Governador Geraldo Alckmin, como informado por essa matéria. De qualquer forma, a crítica ao esforço empreendido por políticos a causas próprias pouco relevantes ao cidadão se mantém, e cabe a nós eleitores ficar de olho.

Quem escreveu

Renato Salles

Data

29 de August, 2017

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Renato Salles

Para o Renato, em qualquer boa viagem você tem que escolher bem as companhias e os mapas. Excelente arrumador de malas, ele vira um halterofilista na volta de todas as suas viagens, pois acha sempre cabe mais algum souvenir. Gosta de guardar como lembrança de cada lugar vídeos, coisas para pendurar nas paredes e histórias de perrengues. Em situações de estresse, sua recomendação é sempre tomar uma cerveja antes de tomar uma decisão importante. Afinal, nada melhor que um bom bar para conhecer a cultura de um lugar.

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    Vivemos em um mundo de opções pasteurizadas, de dualidades. O preto e o branco, o bom e o mau. Não importa se é no avião, ou na Times Square, ou o bar que você vai todo sábado. Queremos ir além. Procuramos tudo o que está no meio. Todos os cinzas. O que você conhece e eu não, e vice-versa. Entre o seu mundo e o meu.