Viagem

Komodo, a surreal ilha de dragões, praias coloridas e raposas que voam

Quem escreveu

Vanessa Mathias

Data

09 de June, 2017

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“Epa era uma linda jovem habitante de Flores que uma vez ficou grávida – e seguindo a tradição de Kampung, o nascimento de uma criança era cirúrgico com uma faca de bambu. Quando cortaram a barriga de Epa, descobriu-se que lá dentro havia gêmeos: um menino e um lagarto. O menino recebeu o nome de Gerong, e o lagarto chamaram de Ora. À medida que crescia, Ora, o lagarto, se tornava mais agressivo e começava a se alimentar dos mascotes da vila. Até um dia ter sido expulso para uma floresta. Porém Ora sempre voltava do exílio forçado a visitar seu irmão gêmeo Gerong.”

Sabe quando você está grávida de um bicho e um bebê? Bom, nem eu. Mas a lenda demonstra a íntima relação que as pessoas da ilha de Flores, na Indonésia, ainda tem com os dragões de Komodo. Muitos dos habitantes mais velhos ainda consideram que a população  da vila é, efetivamente, descendente dos dragões (ou seja, que seu avôs ou tataravós eram lagartos).

É interessante pensar que a lenda não está assim taaaaaão distante da verdade. A ciência provou que espécimes próximas aos dragões tem quatro milhões de anos, e foram uma das principais formas de vida que evoluíram para tantas outras espécies.

Labuan Bajo. Foto: Vanessa Mathias
Labuan Bajo. Foto: Vanessa Mathias

Komodo é uma das ilhas mais distintas da Indonésia, por dois grandes motivos: o primeiro é o mergulho- imergir nas águas remetem a algo que está entre Plutão e um multiverso dimensional. O segundo são os próprios dragões de Komodo: répteis gigantes que levam o nome da Ilha, e você praticamente só encontra por lá.

E para que esse post não ficasse mais gigante do que já está, resolvi dividi-lo em dois:  ‘Komodo acima da Terra – as opções para não-mergulhadores’, e ‘Komodo embaixo d’água’. Prontos para embarcar? Let’s go!

Komodo acima da Terra

Para respirar o oxigênio dentro do Komodo National Park é preciso desembolsar a pequena fortuna de 20 dólares (se você contar dez dias e estiver pobre como eu estava, vai achar muito também). O parque nacional, que fica em Nusa Tenggara, é uma das regiões de maior densidade dos répteis com fama de mau que dão nome à ilha. Foi lá que realizei meu sonho de Khaleesi: os mais de 2.500 dragões se espalham entre as três ilhas principais, Komodo, Rinca e Padar, e infinitas ilhotas.

Os grandes chegam a medir três metros de comprimento e pesar até 90 kg. Ao escutar isso, confesso que imaginava pequenos dinossauros, por isso que vê-los de perto foi um tiquinho frustrante. Eles parecem jacarés grandes e definitivamente mais zangados, uma mistura de cobra com jacaré, sabe?

“Oi gente. Qual a boa do finde?”  Foto: Vanessa Mathias

Um fator interessante é que a saliva do dragão é o que mata – ela tem uma concentração tão grande de bactérias que é por isso que ele consegue derrotar búfalos, veados e, claro, humanos. (Cogitei trazer um para levar na reunião de condomínio do prédio, mas não rolou.) Então fica fácil: eles dão uma mordidinha, esperam o veneno fazer efeito, e daí sim, atacam de verdade.

É mais fácil encontrar os dragões na ilha de Rinca do que na ilha de Komodo – vejam só vocês. Há vários tours para ver os famosos dragões, mas são os presos no parque. A melhor forma é vê-los efetivamente na selva – com uma das empresas de mergulho ou guias independentes. Dizem que até pouco tempo você poderia pagar 1.000.000 IDR (aproximadamente 75 dólares) e eles prendiam uma cabra em uma árvore. Isso atraia os dragões e você podia vê-los destroçando a pobre chifrudinha viva. Hoje há até quem faça, mas parece que é proibido: sorte para os caprinos locais.

O dragão e a cabra. Foto: Daily Mail
O dragão e a cabra. Foto: Faradeed.ir

O cenário do parque é indescritível, formado de savanas, florestas tropicais, e praias de areia branca e rosa. Ao andar pelas ilhas, búfalos, veados, javalis, cobras e muitas aves nem se importam muito com os curiosos.

Cratera em Komodo. Foto Irwan Flores Tour
Cratera em Komodo. Foto Irwan Flores Tour

Dá para fazer trekking em Mbelling com uma cachoeira. Bem legal para quem curte uma caminhada. Há agências como essa que fazem o passeio.

Barco Le Pirate. Foto: Le Pirate
Barco Le Pirate. Foto: Le Pirate

Vocês vão observar no meu relato emocionante do próximo capítulo (não percam!): recomendo fortemente que as pessoas se certifiquem para mergulho antes de ir para lá.  Porém, se você não tiver mesmo interesse em mergulho com cilindro, o snorkel é também uma opção incrível. Os passeios de barco fazem um rolê entre as ilhas de Rinca, Komodo, Bidadai, Seraya e Sabolo.

A praia rosa

O coral vermelho em erosão, em combinação com as areias branquinhas, formam uma praia única e extremamente charmosa chamada Pantai Merah, ou Pink Beach.

Praia Rosa. Foto: Vanessa Mathias

Ela é uma das sete do mundo a ter esse tipo de coloração, e seus únicos habitantes são os simpáticos hermitões.

Hermitão. Foto: Vanessa Mathias

É também o local ideal para promover uma corrida de hermitão, hábito entre os locais (uma espécie de Candy Crush que você joga quando não tem 3G – ganha o hermitão que sair primeiro de um círculo). Se você conseguir um barco particular, o pôr do sol dessa praia é o mais lindo que já vi em toda essa vida-de-meu-Deus-do-céu.

Praia Rosa. Foto: Vanessa Mathias

Raposas que voam?

PÁRA TUDO. Você sabia que existem morcegos do tamanho de uma raposa? Kalong é a palavra na língua local para “raposas aladas”e que dão nome à ilha.

Raposa alada. Foto: Fledertier Rodrigues
Raposa alada. Foto: Fledertier Rodrigues

Não cheguei nem perto. Aliás, pedi pra desviar o barco. Mato barata que é uma beleza, acho ratos até bonitinhos, cobras fofas… mas morcegos não dá: são pretos, escuros e tenebrosos. Quase uma pegadinha-do-malandro da natureza. Assim que, apesar de ter curiosidade em observar centenas deles que migram de um lado para outro da ilha, resolvi que não era meu momento de superar esse trauma.

Ilha Kalong. Foto: Fairuz Othman
Ilha Kalong. Foto: Fairuz Othman

Vilas tradicionais

Se tem algo que sou apaixonadinha é fazer visita às comunidades. Wae Rebo é uma das últimas vilas tradicionais da região, hoje relativamente sustentada pelo turismo. Porém é um dos poucos lugares onde você ainda pode ver as casas tradicionais em forma de cone na parte leste de Labuan Bajo, em um trekking mágico de 2 a 3 horas.

Queria muito ter ido, mas tive que priorizar o mergulho. Porém me indicaram um guia sensacional da própria região que leva as pessoas para lá: o nome dele é Irwan e ele tem essa página no Facebook. Dizem que o Ano Novo é sensacional, e acontece em Novembro.

Comunidade. Foto: Irwan Tours
Comunidade. Foto: Irwan Tours

Labuan Bajo – a cidade

A cidade em si é mais uma porto de entrada às ilhas do que uma atração em si.  Com literalmente 4 ruas, as opções de passeios e atrações é limitada. (Sim, eu quis atenuar o fato de que é feia, suja e sem graça). 

Labuan Bajo. Foto Jon Chia
Labuan Bajo. Foto Jon Chia

O aeroporto fica bem próximo à cidade: taxistas e moto táxis oferecerão seus préstimos ao sair de lá. Na verdade, qualquer pessoa vira um “transportador oficial”- uma espécie de Uber analógico. “Transport, transport” é o equivalente deles a “tuk tuk, tuk tuk?” Em poucas quadras você chegará ao seu hotel, independentemente de onde tenha desejado ficar. Uma das melhores opções é o Le Pirate, bem no centrinho da rua principal: um dos poucos mais ‘moderninhos’. O bar à noite é animado (para os padrões de Labuan Bajo, claro).

Le Pirate. Foto: Divulgação
Le Pirate. Foto: Divulgação

O mercado de peixes é outra atração: você paga pelo quilo e escolhe o preparo: frito ou ensopado. Não é só uma das refeições mais baratas da sua vida, mas também uma das mais gostosas.

Chegando pelo ar…

Há voos diários de Bali (aliás, não deixe de ver nosso guia aqui) para Labuan Bajo, a cidade principal do parque. Além disso, há duas vezes por semana vôo de Kupang. Dica importante: a empresa mais confiável, ou seja, menos teco-teco, é a airline-boutique Garuda Indonésia.

Chegando pelo mar…

Se você estiver fazendo um rolê pela Indonésia, há alguns barcos que fazem uma pipocação de ilha em ilha, por exemplo de Lombok. Dependendo da época do ano, você pode ir de Bali de barco para Gilli Islands (linda, linda, linda!) e seguir por quatro dias de barco até Labuan Bajo. Aviso: Não fiz, mas fiquei sabendo que é bem roots, assim só vá se tiver a filosofia mochileira de viajar. Pelni, a empresa de transporte, também navega a cada 15 dias de Bali e Makassar para Labuan Bajo.

Isso é só o que há acima da Terra. Mas o encanto, mesmo, está embaixo d’água. Vai aqui apenas um gostinho para vocês:

Quem escreveu

Vanessa Mathias

Data

09 de June, 2017

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