Viagem

Como curtir um domingo em Berlim

Quem escreveu

Domingos Lepores

Data

07 de March, 2016

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Domingo é o dia de descanso em grande parte do mundo ocidental e em Berlim isso não poderia ser diferente. Quer dizer, só um pouco diferente, pois esse descanso vale apenas para os trabalhadores do comércio, que tem a grande maioria das lojas fechadas, até mesmo nas áreas mais turísticas, no último dia do fim de semana. Mas os cafés, bares, restaurantes e outras opções de lazer seguem abertos.

Se levarmos em conta que, em alemão, o domingo  – Sonntag – é o dia do sol, muita coisa pode ficar ainda mais agradável de ser feita ao ar livre se o astro rei der as caras. Então, numa visita a Berlim, a pedida é aproveitar muitas das atrações gratuitas que a cidade oferece, ou ainda andar sem destino certo, explorando e descobrindo novos lugares – Berlim é imbatível nesse quesito.

Para aproveitar uma amostra do que a cidade guarda de melhor num domingo, visitar as atrações ao longo do trajeto da linha de bonde elétrico M10 não vai deixar você se lembrar de que as lojas em geral estão fechadas, tamanha a quantidade de opções capazes de deixar seu instinto capitalista adormecido.

O M10 é uma linha de bonde elétrico que atravessa grande parte da antiga parte leste da cidade, numa trajetória em forma de arco. Seu itinerário foi ampliado recentemente: da estação Warschauer Strasse, no fim do bairro de Friedrischshain, os bondes seguiam até a estação Nordbanhof, no bairro de Mitte, mas, desde o ano passado, o trajeto foi estendido até a Hauptbanhof, a estação ferroviária central de Berlim.

O bonde da linha M10
O bonde da linha M10

A primeira parte deste roteiro pode ser feita a pé, e a sugestão é começá-lo no ponto final localizado na entrada da Hauptbanhof, inaugurada em 2006. A própria estação também vale a visita, por seu projeto arquitetônico arrojado, fazendo dela a maior estação de trens em dois níveis da Europa, e pela variedade das mais de 80 lojas, espalhadas em três andares.

Uma das plataformas de embarque da Hauptbanhof
Uma das plataformas de embarque da Hauptbanhof

Saindo da estação e cruzando o rio Spree, chega-se à área dos prédios governamentais, construídos após a queda do Muro de Berlim. Dois dos mais interessantes são o Bundeskanzleramt, a sede da Chancelaria Federal, onde ficam os gabinetes da equipe do primeiro-ministro e, do outro lado do rio, a Marie-Elisabeth-Lüders-Haus, que abriga o centro de documentação do Parlamento.

Marie-Elisabeth-Lüders Haus
Marie-Elisabeth-Lüders Haus

Voltando à Hauptbanhof e utilizando a saída que dá para a Invalindenstrasse, não deixe de conferir o parque criado no local da antiga prisão do bairro de Moabit – Geschichtspark Moabit -, escondido atrás dos muros da antiga prisão e que conta com uma réplica de uma das celas que faziam parte do presídio.

O parque da antiga prisão de Moabit e a réplica de uma cela
O parque da antiga prisão de Moabit e a réplica de uma cela

Para recarregar as energias e elevar o moral, nada melhor do que um café da manhã no restaurante da cozinheira Sarah Wiener, cujo cardápio apresenta uma interessante mistura entre a culinária austríaca e a mediterrânea. O menu do café da manhã apresenta três opções, com a maior parte de seus ingredientes provenientes da agricultura orgânica.

Terminado o café da manhã, não dá para deixar de visitar o Hamburger Bahnhof Museum, antiga estação ferroviária de onde saíam os trens de Berlim em direção à cidade de Hamburgo até o final do século 19 e hoje convertida em museu de arte contemporânea. São imperdíveis duas das exposições, em cartaz até julho: a do videoartista Julian Rosefedt e a dedicada à arte produzida, adquirida ou banida durante o período do nazismo.

A fachada do Hamburgerbahnhof Museum
A fachada do Hamburgerbahnhof Museum

Seguindo pela Invalindenstrasse, o Invalindenpark recebeu uma imensa escultura que simboliza o Muro de Berlim afundando na fonte de água. O parque é também muito frequentado por skatistas.

A escultura que representa o Muro de Berlim afundando na água
A escultura que representa o Muro de Berlim afundando na água

A última parada na Invalidenstrasse é o Museum für Naturkunde, o Museu de História Natural. Maior museu do gênero da Alemanha, além de exibir o maior dinossauro montado do mundo, o Giraffatitan, mostra ainda Tristan Otto, um dos 50 exemplares de Tyrannosaurus rex encontrados até hoje.

O Giraffatitan
O Giraffatitan

Andando pela Invalindenstrasse e virando à esquerda na Gartenstrasse, logo no início da Bernauerstrasse, o Park am Nordbahnhof é pouco conhecido e frequentado, mas repleto de verde e de pássaros, um oásis em meio à arquitetura, digamos, rude do entorno.

Saindo do parque, ao longo da Bernauerstrasse, há um dos poucos trechos não destruídos do Muro de Berlim. O local abriga um complexo que conta com um memorial, uma igreja e um centro de informações, além de uma escultura que emula uma antiga torre de controle utilizada pela polícia da antiga Alemanha Oriental, na esquina com a Strelitzerstrasse.

Um trecho do Muro de Berlim ao longo do memorial
Um trecho do Muro de Berlim ao longo do memorial

Para dar um descanso nas pernas, a sugestão é tomar um café acompanhado de um bagel no Hermann Eicke, na Brunnenstrasse, logo na esquina com a Bernauerstrasse, antes de seguir ao mercado de pulgas na Arkonaplatz.

Se você achar o mercado da Arkonaplatz pequeno, junte-se à multidão que lota a feira que acontece no Mauerpark, e não deixe de assistir ao karaokê que acontece numa espécie de anfiteatro, o Bearpit.

Depois de acotovelar-se por inúmeros vendedores de discos de vinil, roupas e móveis vintage, passeie pela Oderbergstrasse, uma das ruas mais bonitas do bairro de Prenzlauerberg, com seus prédios restaurados e coloridos, felizmente não destruídos durante as guerras. E se bater saudade do Brasil, faça uma parada rápida no Hüftengold para tomar um açaí!

Os prédios coloridos da Oderbergstrasse
Os prédios coloridos da Oderbergstrasse

Saindo da Oderbergstrasse, vire à esquerda na Kastanienallee, até chegar à estação de metrô Eberswalderstrasse, para, em direção à Danzigerstrasse, visitar a Kulturbrauerei, centro cultural com cinemas, exposições gratuitas e outros eventos, localizado num complexo de 20 prédios interligados, na área antes ocupada por uma cervejaria.

Deixando a Kulturbrauerei pela Knaackstrasse, caminhe até a Kollwitzplatz, uma das praças mais bonitas de Prenzlauerberg e talvez até mesmo de Berlim. Era reduto da oposição ao governo comunista nos 1980, com espaços dedicados à cultura alternativa, fortemente reprimida na época. Hoje é uma das regiões mais chiques da cidade, mas você não vai ver mulheres empunhando bolsas Louis Vuitton ou senhores vestindo terno e gravata Hermès. É chique à maneira alemã do norte, bem low-profile.

Kollwitzplatz
Kollwitzplatz

A vizinhança é habitada por famílias, casais na faixa dos 30-40 anos, com muitas das mulheres grávidas, o que rendeu ao bairro o apelido de Pregnantberg. É de perder a conta quantos carrinhos de bebê duplos (muitas das mulheres com dificuldade para engravidar fazem inseminação artificial e acabando gerando gêmeos!) irão disputar o espaço que você nas calçadas.

Continuando pela Knaackstrasse, não perca a praça onde fica localizada a antiga Wasserturm, o mais antigo castelo d’água da cidade.

A Wasserturm
A Wasserturm

Prenzlauerberg possui inúmeros restaurantes de comida asiática, especialmente vietnamita e coreana. Todo mundo tem seu preferido, pelos mais diferentes motivos. O meu é o Si An, por causa da decoração e da louça do serviço de mesa, mas sobretudo pelo curry vermelho (com frango ou tofu) e pelos coquetéis de frutas sem álcool, como o de leite de coco, abacaxi e cranberry. Como sobremesa, que tal uma típica torta alemã, com mil camadas de recheio? O café Anna Blumme tem algumas das melhores da cidade.

Depois do almoço, é finalmente hora de tomar o bonde, no ponto localizado nas esquinas da Prenzlauer Allee e Danzigerstrasse.

O bilhete diário custa 7 euros, é válido do momento da sua autenticação até às 3 da manhã do dia seguinte e a compra pode ser feita dentro do bonde. Mas atenção, pois as máquinas só aceitam moedas. A compra utilizando cartão de crédito pode ser feita através do aplicativo para smartphone da BVG, a companhia municipal de transporte.

Até a descida, na parada Paul-Heyse-Strasse, você vai poder observar uma boa amostra da arquitetura residencial da Berlim Oriental, com suas torres e prédios do pós-guerra que se parecem muito entre si e se dar conta de que não perdeu nada de dentro da janela do bonde!

Ao sair do bonde, entre diretamente no Volkspark Friedrichshain, um dos mais antigos da cidade e um dos preferidos pelos joggers da região, para apreciar uma vista panorâmica de Berlim e fazer a merecida siesta.

O lago do Volkspark Friedrichshain
O lago do Volkspark Friedrichshain

Deixando o parque, tome mais uma vez o bonde, para descer na parada Grünberger Strasse/Warschauer Strasse e garimpar aquela luminária dos anos 1960 no mercado de pulgas da Boxhagener Platz.

Caminhe pela Revaler Strasse, aprecie toda a street art do lugar e confira a programação do Urban Spree e do Astra Kulturhaus.

Street art ao redor da Revalerstrasse
Street art ao redor da Revalerstrasse

Atravessando a Warschauerbrücke e chegando à Mühlenstrasse, não perca a maior galeria de arte a céu aberto do mundo, a East Side Gallery. Mais de 100 artistas criaram murais em um trecho não destruído do antigo Muro de Berlim.

East Side Gallery
East Side Gallery

Em seguida, atravesse outra ponte, desta vez a Oberbaumbrücke, para admirar um dos cartões postais da cidade. O vermelho dos tijolos, o amarelo dos trens do metrô, combinados ora com o cinza, ora com o azul do céu vão garantir muitas fotos!

O bar do Michelberger Hotel
O bar do Michelberger Hotel

Voltando em direção à Warschauerstrasse, há duas boas opções para o jantar: o restaurante do Michelberger Hotel, com muitos pratos veganos e crus, todos elaborados com produtos orgânicos, e o restaurante vegano, sem glúten e sem açúcar The Bowl, ideal para uma pré-detox antes de se jogar no Berghain, a menos de 10 minutos a pé dali.

Quem escreveu

Domingos Lepores

Data

07 de March, 2016

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