Abadiânia - um encontro com João de Deus

Quem escreveu

Renato Salles

Data

13 de July, 2015

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Se você vai ler esse texto, deve saber primeiro que eu sou um grande cético em relação à religião. Não rezo e não sei como se faz, e só não consegui ainda ser ateu porque a imagem de um grande homem barbudo e invisível que toma conta de tudo, que me foi incutida desde a infância, ainda me assombra. A segunda coisa que se deve saber é que a Casa Dom Inácio de Loyola, onde trabalha o João de Deus, não é um recinto católico, mas sim um espaço ecumênico, apesar dos muitos Pais-Nossos e Aves-Marias que são recitados no microfone. Por todos os lados se vê referências e imagens cristãs, judias, espíritas e budistas.

A pequena cidade de Abadiânia, no meio do nada no interior de Goiás, tem talvez uma fama internacional maior que aqui dentro do nosso país. Hoje, estima-se que 70% da frequência seja de gringos. Alemães, australianos, americanos, franceses, suecos, ingleses, tem de tudo por lá. Até a Oprah já foi. As pessoas atravessam o mundo para chegar a um de seus fins para tentar conseguir a cura. Tudo que é falado no microfone é repetido em inglês, francês e alemão. Vez ou outra você vê alguém com alguma deficiência grave, mas o clima não é nada parecido com o de um hospital. Na grande maioria, o que se vê são pessoas muito calmas e serenas, tentando encontrar a luz para problemas graves, mas ocultos. Mas o que salta mesmo aos olhos é a paz. Por todos os lados, gente sorrindo pela esperança, com suas roupas brancas em clima de réveillon particular, rezando, meditando, sorrindo e ajudando aos outros quando possível.

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Tudo é traduzido nas 4 línguas

João de Deus é um médium muito poderoso que fundou e trabalha na Casa já há 39 anos. Todas as semanas, sem feriado ou férias, eles está lá de quarta a sexta para incorporar as Entidades que fazem a cura. São horas a fio, pela manhã e à tarde, que ele, sentando em seu modesto trono, recebe brevemente filas longuíssimas de gente. Com uns ele troca algumas palavras, com outros ele entrega um receita rabiscada em um papelzinho, e outros ainda seguem caminho sem um piu. Mas todos estão sendo tratados. Diz-se que desde o momento em que você chega ao recinto você já está sendo analisado, e no momento do encontro a Entidade já sabe tudo sobre você.

Depois do encontro tudo pode acontecer. Se você recebeu a receita de remédio, é só se encaminhar para a ‘farmácia’, onde você compra seu remedinho e segue seu caminho. Você pode ser chamado para voltar depois (à tarde, ou no dia seguinte), como aconteceu comigo. Ou você pode ser encaminhado para a cirurgia espiritual, ou intervenção como eles preferem chamar. Acho que nome mudou porque muita gente devia chegar apavorado de entrar na faca (ou na colher, na tesoura, no cabide…) na mão do médium. Sim, essas cirurgias físicas acontecem – um vídeo desesperador fica passando na sala de espera do encontro – mas só em sessão específicas, com gente que pede para fazer, e se a Entidade autorizar. A menos que você esteja desesperado por isso, você está a salvo de alguém enfiar um pedaço de metal no teu olho ali.

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O mirante é o lugar mais bonito da Casa

No fim das contas todo mundo sai com um potinho com as cápsulas de passiflora, que é o único ‘remédio’ vendido ali. Eles reforçam que cada vidrinho recebeu uma energia específica, então teu tratamento é personalizado, e não pode dividir seu vidrinho com o colega. Fora isso, várias outras terapias ajudam na cura. Tem a sopa, gratuita e servida todo dia a partir de umas 10 da manhã. Tem o banho de cristais, e a lojinha que vende toda sorte de pedras energéticas. Tem o mirante, voltado para o vale bucólico, onde se medita. E tem a água fluidificada, que nada mais é que uma garrafinha de água comum, mas abençoada, que você pode tomar quando quiser. Sim, meu ceticismo e o som das caixas registradoras gritaram alto quando vi o balcão da água, mas a verdade é que o preço da água é preço de água mesmo, como em qualquer boteco, então você não se sente enganado. E convenhamos, se você chegou até ali, por que não?

Água sem contra-indicação
Água sem contra-indicação

A Casa atende das 8 da manhã até o fim da tarde. No resto do tempo, não tem muito o que fazer, o que é bom já que o repouso é fortemente recomendado. Abadiânia é uma vilinha, que tem alguns poucos restaurantes simples, e que fecham as portas às 10 da noite. E de verdade, você acaba agradecendo, porque todo o processo e, principalmente, a intervenção dão um sono de matar. Deve ser a Entidade trabalhando pesado.

Confesso que mesmo eu, que abandonei minha relação com o divino faz tempo, me emocionei muito, e me deixei levar. O tempo todo você conversa com pessoas e ouve histórias incríveis, de gente que superou as piores expectativas médicas e segue. Em um canto, muitas muletas e bengalas se acumulam, porque deixam de ser necessárias depois do encontro com João de Deus. E aqueles que se curaram continuam voltando, seja para ajudar os outros, ou para formar a corrente de energia diárias que ele precisa para incorporar.

Tem muita bengala!
Tem muita bengala!

E ainda algumas coincidências acontecem que fazem a gente cair do nosso pedestal. Em um momento particularmente cheio, em que minha paciência já se esvaía, uma mulher se espremeu contra a parede para me oferecer um lugar ao seu lado no banco improvisado na mureta. Pois essa mulher é minha prima distante, conhece toda a minha família, e estava lá pela enésima vez pedindo a cura de seu marido, que já passou por uma hepatite C, um transplante de fígado e agora luta contra um câncer no pulmão. Ela me contou toda sua história, feliz e sorridente, já que seu marido continua superando as expectativas há mais de 4 anos, e nunca esteve tão bem.

Foram só dois dias, mas a lição que aprendi é grande: fé não tem nada a ver com religião. Para mim, que cheguei lá só de curioso, e que não posso reclamar de nada da minha saúde, só resta seguir meu tratamento e esperar que alguma coisa de bom tenha acontecido ali.

O fim do dia é lindo em Abadiânia
O fim do dia é lindo em Abadiânia

Se você se empolgou e quer visitar a cidade, é só seguir nosso guiazinho que tem tudo que você precisa saber.

Quem escreveu

Renato Salles

Data

13 de July, 2015

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Renato Salles

Para o Renato, em qualquer boa viagem você tem que escolher bem as companhias e os mapas. Excelente arrumador de malas, ele vira um halterofilista na volta de todas as suas viagens, pois acha sempre cabe mais algum souvenir. Gosta de guardar como lembrança de cada lugar vídeos, coisas para pendurar nas paredes e histórias de perrengues. Em situações de estresse, sua recomendação é sempre tomar uma cerveja antes de tomar uma decisão importante. Afinal, nada melhor que um bom bar para conhecer a cultura de um lugar.

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Comentários

  • Gostaria de saber os dias e horários que ele atende
    - Pollyana
    • Olá Pollyana. O atendimento da casa é sempre de quarta a sexta. O atendimento começa sempre logo cedo, por volta das 7h da manhã.
      - Renato Salles

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