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Explorando Torres del Paine

Quem escreveu

Pedro Ivo Dantas

Data

23 de February, 2016

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Para a maioria dos brasileiros, a Patagônia se resume a Bariloche e suas hordas de turistas. Há, porém, uma outra Patagônia, de acesso um pouco mais difícil, mas que oferece uma natureza quase intocada, paisagens espetaculares e aventura de primeira para os mais corajosos. Um desses lugares é Torres del Paine, um parque no sul do Chile que já foi eleito o melhor lugar do mundo para se fazer trilhas.

O Parque Nacional Torres del Paine é um microcosmo de tudo que faz da Patagônia um lugar tão maravilhoso. Lagos de um esmeralda ridiculamente brilhante? Tem. Montanhas de granito negro, com cumes cobertos por neve perene? Tem também. Glaciares enormes, que parecem esconder a entrada de uma outra dimensão? Claro! Para onde quer que se vire o olhar há uma paisagem deslumbrante atrás da outra, praticamente intocada pelo homem.

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O Parque visto a partir do Lago Pehoe – foto Pedro Ivo

Torres até pode ser visitada em apenas um dia, num bate e volta a partir de Puerto Natales, mas não recomendo de maneira alguma essa modalidade. O trajeto até o parque é longo (cerca de 3 horas) e, no final, você vai ter apenas uma visão distante das montanhas e glaciares a partir da janela do ônibus. Se você já veio até aqui, tem mais é que desfrutar de tudo que Torres pode oferecer. E isso demanda algum tempo (e esforço)!

A maneira mais tradicional de visitar Torres é caminhando, percorrendo seus famosos circuitos: o W e o O, que tem esses nomes porque seus trajetos lembram o desenho dessas letras. No caso do W, as 3 ‘pernas’ correspondem ao caminho para o Glaciar Grey e aos vales do Francês e do Ascensio. Esse circuito normalmente é percorrido em 4 ou 5 dias. Já o Circuito O dá a volta no maciço central do parque em 8 a 10 dias, exigindo bem mais preparo e dedicação do visitante – desnecessário dizer que o W é bem mais popular.

Há ainda a possibilidade de simplesmente passar alguns dias no Parque, alojando-se na Hospedaria Las Torres, que oferece acomodações bastante confortáveis. Essa é uma boa possibilidade para quem não se sente preparado ou não tem vontade de encarar as caminhadas. A partir de lá, é possível fazer trilhas mais curtas e passeios de cavalo pelo parque. Ou simplesmente esquecer da vida na varanda, enrolado num cobertor bem grosso, com um belo vinho nas mãos, só curtindo a paisagem.

As Torres del Paine propriamente ditas – foto Pedro Ivo

Existem outras áreas dentro do Parque – mais especificamente as áreas próximas aos rios Pingo e Zapata, à Hosteria Pehoe e ao Centro de Visitantes no Lago Toro – que também recebem turistas, porém não as conheço pessoalmente, assim nesse guia vou me concentrar nas áreas do entorno do Lago Nordernskjold, no Setor Norte do Parque. Mais especificamente, vou me concentrar no circuito W, que já percorri duas vezes.

Todas as trilhas em TDP (aliás, na minha experiência, todas as trilhas da Patagônia) podem ser feitas facilmente sem nenhum tipo de guia especializado. Os caminhos são bem demarcados e os serviços de Guardaparques são eficientes. Entretanto, se você nunca fez nenhuma trilha antes, pode ser mais seguro contratar um guia. Isso pode ser feito no Brasil, diretamente com agências chilenas ou argentinas, ou quando chegar em Puerto Natales.

Chegando lá

A base para se explorar Torres é a cidade chilena de Puerto Natales. O aeroporto mais próximo fica em Punta Arenas (3h30 de ônibus – empresa Bus Sur), mas também é possível chegar lá a partir de El Calafate (5h – Bus Sur ou Turismo Zaahj), na Argentina. Puerto Natales em si não tem muitas atrações: é uma cidadezinha como outras na Patagônia, sem ser especialmente simpática. Vale reservar um dia para passar lá somente se você precisar comprar ou alugar equipamento de trekking – a cidade tem diversas lojas onde é possível encontrar de tudo, desde barracas e sacos de dormir até roupas específicas para neve, por um preço bem mais em conta do que no Brasil. Muitas vezes, os próprios hotéis/albergues também alugam equipamentos – vale verificar. Mas tenha em mente que dentro do próprio parque existem lojinhas que alugam quase todos esses equipamentos por um preço um pouco maior, mas que evita o trabalho de ter de carregar tudo.

O traslado até o parque é feito de ônibus. Na alta temporada (outubro a abril) há saídas regulares de manhã (às 7h30) e no início da tarde (às 14h30). Já na baixa temporada não há saídas regulares e é preciso contatar as empresas diretamente para verificar os horários disponíveis. As empresas que fazem esse trajeto são a Buses Gomez, a JB e a Maria José, e o custo é de CP$ 5000 cada trecho (dez/2015 – cerca de R$ 28). Os horários de retorno são às 13h e às 18h. É normal comprar um bilhete de ida e volta com o retorno em aberto, possibilitando pegar qualquer ônibus da mesma companhia para voltar à Puerto Natales.

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Da portaria Laguna Amarga já se tem uma bela ideia da aventura que virá – foto Pedro Ivo

Chegando-se à portaria de Laguna Amarga, porta de entrada no parque, é necessário preencher uma ficha cadastral, pagar uma taxa de ingresso e assistir a uma rápida palestra. Lá também você vai receber um mapa do parque e um recibo – guarde, pois ele pode ser exigido pelos Guardaparques mais à frente. Na alta temporada, a entrada no Parque custa CP$ 18000 para estrangeiros (cerca de R$ 103) e CP$ 10000 na temporada baixa (R$ 57). O pagamento deve ser em dinheiro, em pesos chilenos, ou o equivalente em dólares ou euros. Informações atualizadas sobre a entrada no parque e transporte podem ser encontradas no site oficial.  Recomendo sempre verificar o site antes de planejar qualquer viagem à região.

Os ônibus só chegam até Laguna Amarga. Lá, troca-se para os mini ônibus que fazem o trajeto Portaria > Guarderia Pudeto (de onde sai o catamarã para o Refúgio Paine Grande através do Lago Pehoé) > Sede Administrativa da Conaf no Lago Toro. Os horários dos ônibus, mini ônibus e catamarãs são sincronizados, ou seja, os mini ônibus só saem depois que os ônibus chegam, e o catamarã só sai depois que o mini ônibus passa por Pudeto. A viagem do catamarã leva cerca de meia hora. O esquema é bem organizado e funciona muito bem, como todos os serviços no parque de maneira geral.

Horários de ônibus para Torres del Paine, alta temporada
Saída de Puerto Natales 07:30 14:30
Parada em Laguna Amarga 09:45 16:30
Parada em Pudeto (Catamarã) 10:45 17:30
Sede Administrativa 11:45 18:00
Retorno
Saída da Sede Administrativa 13:00 18:00
Parada em Pudeto (catamarã) 13:30 19:00
Parada em Laguna Amarga 14:30 19:45
Chegada à Puerto Natales 17:00 22:00 

 

Horários do Catamarã do Lago Pehoe, alta temporada
Saídas de Pudeto Saídas do Paine Grande
09:30 10:00
12:00 12:30
18:00 18:30

Na portaria do parque, já se tem uma bela vista do Maciço Paine com suas torres e glaciares. Prepare-se: a aventura vai começar!

Hospedagem

Torres oferece opções de hospedagem para todos os bolsos (e tolerâncias a desconfortos), desde simples barracas até sofisticados hotéis. No primeiro caso, há campings privados e pagos, que oferecem amenidades como banheiros com chuveiros com água quente, lojinhas de mantimentos e aluguel de equipamentos, e também campings públicos e gratuitos, mas bem mais espartanos em serviços. Você só vai encontrar campings públicos se for fazer o Circuito O, pois no W todos os campings são privados.

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O Camping e Refugio Paine Grande ao amanhecer – foto Marcelo Lopes

Para os que preferem mais conforto e estão dispostos a pagar por isso, existe a opção de ficar hospedado nos refúgios e hotéis que se situam dentro do Parque. Os refúgios são um meio termo entre um hotel e um camping: espécie de albergues de montanha, oferecem quartos coletivos com aquecimento central e refeições quentes. Refúgios e campings normalmente estão juntos um dos outros e são operados pelas mesmas empresas, sendo possível, mesmo para quem está acampado, contratar as refeições nos refúgios.

Basicamente todas as opções de hospedagem em Torres são operadas por duas empresas: Vertice Pagatonia  e Fantastico Sur. Falarei mais sobre as opções específicas de hospedagem dentro de cada circuito. No site de ambas as empresas, é possível fazer reservas adiantadas. Na alta temporada, isso é mais que recomendável, especialmente se você quiser garantir um lugar nos refúgios, que são bastante disputados – em datas como ano novo e carnaval, as vagas podem se esgotar com meses de antecedência.

Não menospreze as lojinhas de conveniência que os abrigos oferecem: elas dispõem de todo o básico que um campista pode precisar, incluindo sopas prontas, macarrão, enlatados, bem como biscoitos e chocolates. E, claro, sendo o Chile, há uma oferta razoável de vinhos. Os preços são maiores que os de Puerto Natales, mas o fato de não ter que carregar o peso extra dos mantimentos durante a trilha faz toda a diferença, ainda mais para aqueles que não estão acostumados a caminhadas longas. Em outras palavras: não se preocupe em levar comida e compre o que precisar por lá. Além disso, as lojinhas também dispõem de itens básicos como papel higiênico, sabão, absorventes etc, e alugam equipamentos como barracas, sacos de dormir e fogareiros a gás.

Fora dos refúgios não há nenhum outro tipo de comércio, portanto antes de sair para as (longas) trilhas certifique-se de que você está levando algo para comer. Água pode ser encontrada facilmente por todo o parque, especialmente no verão, quando o gelo derrete dando origem a vários riachos. Essa água é potável, porém, se quiser se garantir, leve algum sistema de filtragem ou purificação como tabletes de cloro.

Circuito W

Mapa trecho W - www.stephandben.com/
Mapa trecho W – imagem: www.stephandben.com

Esse é o circuito mais famoso do parque e é feito pela maioria dos visitantes. Não é uma trilha fácil, mas tampouco é algo do outro mundo. Quem já fez a travessia da Serra dos Órgãos, na região serrana do Rio de Janeiro, por exemplo, deve conseguir encarar o W sem problemas. Caminha-se em torno de 15 Km por dia – alguns dias mais, alguns dias menos. A maioria das pessoas faz o circuito em 4 dias, mas é possível encurtar para 3 dias, ou esticar para 5 ou 6 dias – dependendo do que a sua agenda e o seu preparo permitirem.

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Pegando gelo para o uísque no Glaciar Grey – foto Pedro Ivo

Pode-se fazer esse circuito em dois sentidos: horário ou anti-horário. Quem faz no sentido horário começa no Refugio e Campamento Paine Grande (operado pela Vertice). Para chegar lá, você deve pegar um ônibus na Laguna Amarga até a Guarderia Pudeto, margeando o Lago NordensKjold, e de lá pegar o catamarã, que cruza o Lago Pehoe.

Do Paine Grande sai a primeira ‘perna’ do W: o percurso que leva até o Refugio Grey, margeando o Lago Grey. A caminhada é relativamente leve, sem grandes ascensões, mas longa: seus 11 Km levam algo em torno de 3 a 4 horas para serem percorridos. A recompensa na chegada é a visão do magnífico Glaciar Grey (ainda que, se você já visitou o Perito Moreno em Calafate ou o Viedma em Chaltén, o impacto provavelmente não será tão grande).

É possível se hospedar no Refugio Grey (também operado pela Vertice), que fica próximo ao Glaciar, ou no próprio Paine Grande. A vantagem de ficar no Grey é que o percurso é menor (11 Km), porém é necessário carregar a mochila cargueira durante todo o tempo. Escolhendo o Paine Grande, é possível deixar a mochila por lá e fazer a trilha leve, apenas com uma mochila de ataque, porém você terá que percorrer todo o caminho de volta, totalizando assim 22 Km nesse primeiro dia.

Finalmente, do Paine Grande também saem passeios de barco que navegam o Lago Grey até o Glacial. O percurso de ida e volta leva cerca de 3 horas. Existe ainda a possibilidade de fazer caminhadas no gelo do Glaciar Grey.

Saindo de Puerto Natales bem cedo, com o ônibus das 7h30, você pode pegar o catamarã do meio dia e chegar ao Paine Grande por volta das 12h30. Ou seja, no verão, quando o sol só vai se pôr por volta das dez horas, é perfeitamente possível sair de Puerto Natales e fazer a primeira perna do circuito no mesmo dia. Possível, mas bastante cansativo: se sua agenda comportar, sugiro deixar esse primeiro dia apenas para se ambientar e relaxar, fazendo o Glaciar Grey no segundo dia.

O Glaciar Frances descendo o Cerro Paine Grande – foto Pedro Ivo

A próxima perna do circuito é o Vale do Francês. Para chegar lá, é preciso encarar uma caminhada de pouco mais de 7 Km, margeando o Lago Skottsberg até o Acampamento Italiano,  que fica na entrada do Vale. Esse trecho é quase todo plano e não apresenta grandes dificuldades, mas, chegando ao vale, o gradiente de ascensão aumenta bastante, e, com isso, a dificuldade da trilha. Tente subir pelo menos até o primeiro mirante, de onde se tem uma vista maravilhosa – de um lado, o Glaciar del Francês subindo pela lateral do Cerro Paine Grande, e, do outro, os picos dos Cuernos del Paine.

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Merecido descanso no fim do dia no Refugio Los Cuernos – foto Marina Magalhães

Se ainda tiver energia, você pode subir até o Acampamento Britânico (5,5 Km do Italiano), ou ainda seguir um pouco mais até o segundo mirante. O Britânico é um acampamento público, o que quer dizer que você pode dormir lá sem nenhum custo. Por outro lado, não tem nenhum tipo de facilidade – nada de água quente, muito menos lojinha de conveniência. Caso não deseje dormir no Britânico, você pode deixar a mochila cargueira no Italiano e encarar a subida do vale mais leve. Não há nenhum tipo de locker: os montanhistas simplesmente deixam suas mochilas numa pilha, umas sobre as outras, e cada um pega a sua no retorno.

As outras opções de pernoite nesse dia são o Acampamento Italiano, que como o Britânico é gratuito e tem instalações bem espartanas, ou seguir por mais 5 Km até o Acampamento e Refúgio Los Cuernos, operado pela Fantastico Sur e que conta com uma boa infraestrutura.

Esse é o dia mais puxado do circuito, pelas grandes distâncias envolvidas: são 7,6 Km entre o Paine Grande e o Italiano, 11 Km ida e volta entre o Italiano e o Britânico (mais 4 Km ida e volta caso resolva ir até o mirante) e, se decidir dormir no Los Cuernos, mais 5,5 Km. É muita coisa para fazer em só um dia, de forma que é melhor dividir em duas partes: uma possibilidade é passar a noite no Britânico, ou ainda dormir no Italiano e deixar um dia inteiro para encarar o Vale.

A última perna do W é o Vale Ascensio. Esse vale dispõe de dois campings para montanhistas: o Acampamento Chileno (operado pela Fantastico Sur), que dispõe de boa infraestrutura, e o Acampamento Torres, gratuito e – você adivinhou! – bem simples. Antes de entrar no vale, você precisa primeiro encarar os 11 Km que separam o Acampamento Italiano da Hosteria Las Torres. De lá para o Chileno são mais 5 Km de subidas e descidas, normalmente com bastante vento, o que pode dificultar bastante a vida do trekker.

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Valle Ascencio, último (ou primeiro) dia do circuito W – foto Pablo Pandolfo

A Hosteria Las Torres tem uma estrutura excelente, a melhor de todo o parque. É o destino certo de quem quer conhecer Torres del Paine, mas de uma forma mais tranquila e com mais conforto. É possível ter a hosteria como base e a partir de lá explorar outras áreas do parque. Eles também tem uma área de camping, mas para quem quiser realmente explorar o Vale Ascensio, recomendo ficar no Camping Chileno. Além de possuir uma boa infraestrutura (embora as barracas fiquem em plataformas dispostas na encosta de um morro e algumas sejam de difícil acesso). Ficando lá, você já está na metade do caminho para aquela que talvez seja a vista mais incrível de toda a aventura: o Mirante Las Torres oferece uma visão maravilhosa das Torres del Paine em toda sua glória (são três torres, Norte, Central e Sur). Completando a paisagem, o Glaciar Torres, que no verão forma lindas cascatas que desaguam num lago das águas mais esmeraldas que você já viu.

O tempo na Patagônia sempre é imprevisível, mas normalmente as condições são melhores de manhã. Assim, ficando no Chileno, você pode acordar bem cedo e chegar ao mirante também cedo. Do acampamento até o mirante são cerca de 2 horas de trilha, sendo o trecho final bastante extenuante. No caminho, você vai passar pelo Acampamento Torres. O Vale ainda segue mais um pouco e há um outro acampamento ainda mais alto, o Japonês, mas ele é usado apenas por alpinistas.

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Até com chuva Torres del Paine é lindo: arco-íris sobre o Valle Ascencio – foto Pedro Ivo

Depois de se deslumbrar com o Mirante Torres, só resta tomar o caminho de volta à Hosteria Las Torres, de onde é possível tomar um minibus até o Portaria Laguna Amarga, e, de lá, o ônibus para retornar a Puerto Natales. Dormindo no Chileno e acordando cedo, é possível ir até o Mirante Torres e voltar para a Hosteria a tempo de pegar o primeiro ônibus de retorno à cidade, que passa na Portaria às 14h30.

Como você deve ter percebido, o Circuito W é bem flexível e pode ser feito de uma forma mais rápida e intensa ou também com mais tempo, de uma maneira mais tranquila. Convém também sempre reservar um dia ou dois para imprevistos, como tempo ruim, por exemplo. E lembre-se ainda que o circuito também pode ser feito no sentido anti-horário, começando pelo Vale Ascensio e terminando com o Glaciar Grey. A ordem é mais uma questão de gosto pessoal: a paisagem mais impressionante é a vista a partir do Mirador Torres. Prefiro, assim, deixar essa perna por último, para garantir o máximo de impacto no final.

Outros circuitos dentro do Parque

Não só do W vive Torres del Paine. Outro trajeto muito famoso é o Circuito O, que tem esse nome porque dá uma volta completa ao redor do Maciço Paine – ele engloba todo o circuito W, mais o setor norte do parque. Mas que fique bem claro: se o W está longe de ser moleza e vai exigir muita dedicação e esforço para ser encarado, o O é somente para aqueles montanhistas experientes e em forma. Em primeiro lugar, porque é muito mais longo: 140 km (contra 76 km do W). Além disso, o O tem uma outra característica que o torna bem mais desafiador: enquanto o W oferece uma ótima infraestrutura para o visitante, com refúgios, campings, aluguel de equipamento, lojinhas de conveniência etc, na parte norte do parque, não existe nenhuma dessas amenidades, apenas acampamentos precários. Em outras palavras, você vai ter que carregar todo o seu equipamento (barraca, saco de dormir, fogareiro) e alimentos.

Se não faltasse mais nada, o setor norte também engloba algumas das passagens mais desafiadoras do parque, como o Paso John Gardner, ponto mais alto da trilha, com 1200m de altura, e áreas com incidência de ventos muito fortes.

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Em Torres, cada ângulo oferece uma nova paisagem deslumbrante – foto Pedro Ivo

Em suma: só encare o O se você estiver muito certo do que está fazendo e já tiver experiência com trekkings de longa duração. Por outro lado, caso decida fazê-lo, você vai ver uma porção do parque que pouquíssimos já tiveram a oportunidade de desfrutar!

Outras áreas menos famosas e visitadas incluem o Circuito Pingo Zapata, que começa na Guarderia Lago Grey e vai até o Glaciar Zapata, podendo ser feito em um dia, e o Circuito Laguna Verde, que vai da Sede Administrativa até a Laguna Verde, também podendo ser encarado em um (longo) dia.

Além disso, o parque também oferece outras opções de lazer para aqueles não tão adeptos de trilhas, como cavalgadas, pesca, navegação e caiaques e assistir animais. Tem para todos os gostos!

Quando ir

É mais fácil falar de quando não ir: no inverno quando as temperaturas despencam, com mínimas abaixo de zero e precipitação de neve. Além disso, e mais impactante para o montanhista, os dias ficam extremamente curtos, ou seja, há menos luz do sol para as trilhas, que precisam ser muito bem planejadas. É importante também notar que, como o número de turistas cai bastante nessa época, vários serviços não funcionam ou funcionam de maneira precária. Os ônibus e as balsas que operam no parque, por exemplo, têm horários de funcionamento bastante reduzidos.

O verão, por outro lado, é uma ótima época: dias longuíssimos (no auge do verão, o sol só vai se pôr depois das 22h) garantem que há tempo de sobra para as trilhas. As temperaturas são bastante agradáveis, na faixa dos vinte graus, e a vegetação deixa tudo mais colorido. Claro, isso também quer dizer que o número de visitantes aumenta bastante nessa época, e em feriados como ano novo e carnaval, o parque pode ficar bem lotado. O fluxo de turistas é maior entre os meses de dezembro e fevereiro, assim um bom meio termo é ir um pouco antes ou depois desse período: entre outubro e novembro o tempo já esquentou um pouco, mas o parque ainda está bem vazio, assim como em março e abril.

De qualquer maneira a Patagônia é famosa por ter um clima traiçoeiro e Torres del Paine não é exceção: mesmo no verão, as temperaturas podem cair bastante e até nevar, para não mencionar os ventos fortíssimos, que às vezes assolam a região, e as tempestades ocasionais. Ou seja, é necessário estar preparado para qualquer ocasião e sempre checar a previsão do tempo antes de qualquer trilha.

O que levar

O item mais imprescindível de uma aventura como essa é provavelmente uma boa bota de trilha, bem amaciada. Há vários modelos interessantes no mercado, tanto nacionais quanto importados. Deixar para comprar botas no Chile não é uma boa ideia: apesar de mais baratas, você não vai ter tempo para amaciá-las, e, acredite, o que você menos quer numa aventura dessas são bolhas nos pés.

Ainda no quesito vestimentas, o ideal é fazer uma composição de várias camadas. O mais tradicional em trilhas é usar 3: uma segunda pele de tecido tipo dry fit, que não segura umidade; uma segunda camada de fleece ou algum outro material isolante, que retenha calor, e por cima disso tudo um anorak ou outro tipo de corta vento (e chuva!). Luvas e gorro também são essenciais. Não se esqueça também dos óculos escuros e do protetor solar – Torres está bem próximo da Antártica e do buraco na camada de ozônio. Uma lanterna também é sempre útil.

Se você for acampar, vai precisar de uma barraca e de um saco de dormir. Você pode levar seu próprio equipamento ou alugar (em Puerto Natales ou nos próprios abrigos). Claro que alugar o equipamento dentro do parque vai ser mais caro, mas você vai ter que carregar menos peso. O mesmo vale para fogareiros e equipamento de cozinha (panela e prato/talheres).

Sempre leve um kit de primeiros socorros com o mínimo (um analgésico, relaxante muscular, antibactericida, um pouco de gaze e esparadrapo, além de qualquer outro remédio que você use). E, por fim, faça um favor a si mesmo e leve uma boa máquina fotográfica para registrar as paisagens com as quais vai se deparar – uma câmera de celular não faz justiça à beleza do lugar.

Nas redondezas

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Glaciar Perito Moreno em El Calafate – foto Pedro Ivo

Punta Arenas é uma cidade interessante. É bem maior que Puerto Natales e é ponto de parada de diversos cruzeiros, além de servir de base para expedições à Antártica. Oferece alguns museus interessantes e, no verão, é possível visitar a colônia de pinguins na Isla Magdalena. Vale a pena ficar por aqui um ou dois dias, se tiver esse tempo disponível.

El Calafate, na Argentina, fica a cerca de 5 horas de Puerto Natales. É uma cidade charmosa, com uma rua central cheia de lojinhas de artesanato e restaurantes, lembrando um pouco o clima de Campos de Jordão. Entretanto, o principal motivo para visitá-la é poder ver de perto o Glaciar Perito Moreno, que impressiona com seu imenso paredão de mais de 5 km de extensão e 70 metros de altura. O Glaciar está situado a cerca de 80 Km da cidade.

*Imagem capa: kavram / Shutterstock.com

Quem escreveu

Pedro Ivo Dantas

Data

23 de February, 2016

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Pedro Ivo Dantas

Paraense radicado em Lisboa. Engenheiro, cozinheiro e cervejeiro, sem ordem específica de preferência. Viajante de vocação.

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Comentários

  • Oi Ivo, Post super completo. Estou pesquisando informações de roteiro no parque. Terei pouco tempo e dinheiro, pensei em ficar apenas 1 noite. Fazer um trekking no primeiro dia, dormir no Camping Chileno para ver o amanhecer na base das torres e voltar. O problema é:não consegui definir qual o roteiro no primeiro dia que eu consiga chegar no final do dia no Chileno, mesmo que seja com deslocamento de onibus via portaria+ minibus. Pensei em comprar um Full day de Puerto Natales, que começa pelo Paine Grande e termina no Lago Pehoe, em vez de voltar, peço para deixarem na Laguna Amarga (se for possivel). Mas tb fica caro, mas consigo me deslocar por algumas partes do parque. Vc pode me dar uma sugestão? Obrigada!!
    - Renata

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