Spin the Globe: Oscar Risch

Quem escreveu

Gaía Passarelli

Data

11 de February, 2015

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45 voos em um ano. Mais da metade dos 50 estados norte-americanos. Horas de voo suficientes para 16 voltas ao mundo. Residência num dos países mais bonitos do mundo. A vida do Oscar Risch, olha, não tá nada mal. O paulista, que é formato em Engenharia Florestal e hoje se dedica totalmente à fotografia e viagens, tem um dos passaportes mais carimbados que eu conheço.

O motivo é simples: junto com o companheiro, em 2008 criou um blog para manter contato com a família e registrar as residências em outros países. Juntos viveram nos EUA, depois em Singapura e atualmente na Nova Zelândia, que ele chama de paraíso. Durante anos assinaram o MauOscar, que acabou crescendo e juntando com outros travel bloggers no que hoje é o Viajoteca, um blog tocado a várias mãos, atualizado todos os dias, com sete mil seguidores em redes sociais em menos de um ano de lançamento.

Parece um sonho, e é. Mas tem suas dificuldades também. No papo abaixo, que Oscar respondeu por email logo depois de voltar de uma road trip de duas semanas pelas paisagens da Nova Zelância (siga no instagram, as fotos deles são incríveis) ele conta qual é a parte mais difícil da adaptação e confessa que essa coisa de bucket list é um problema que nunca acaba.

 

Oscar em Seul, Coréia do Sul.
Oscar em Seul, Coréia do Sul.

1. Como você começou a escrever sobre viagem e turismo?

Tudo começou há uns dez anos, quando estava na faculdade e ganhei uma bolsa de língua e cultura alemã do serviço alemão de intercâmbio acadêmico (DAAD) para estudar por três meses em Leipzig. Foi minha primeira experiência vivendo no exterior e decidi escrever um diário pessoal de viagem registrando diariamente as novas experiências e descobertas no velho mundo.

Três anos mais tarde, já morando em Singapura, encontrei o tal diário de viagem e ao reler alguns dos relatos daquela viagem à Alemanha decidi que deveria fazer algo semelhante para registrar as novas experiências durante aquela temporada na Ásia.

Como também queria compartilhar o cotidiano em terras tão distantes com amigos e familiares, criar um blog foi o mais natural. Aí que nasceu o www.mauoscar.com.

À medida que o tempo foi passando, a audiência foi crescendo e o foco do blog foi mudando. Quando percebi estava escrevendo um blog com foco em viagem e turismo. Justo eu, que odiava português na escola.

2. Você já morou em várias cidades do mundo, atualmente em Auckland. Qual sua preferida?

Sinceramente, não sei responder. Depois de morar em quatro continentes diferentes tenho uma teoria: Querendo ou não, você sempre vai se apaixonar pelos lugares onde vive.

No meu caso, viver uma temporada na Alemanha era um sonho desde criança. Tanto que muito antes de aprender inglês, aprendi alemão. Além da oportunidade de fazer um curso de inverno para aperfeiçoar meu alemão em Leipzig, acabei retornando à Alemanha com outra bolsa de estudos para estudar Engenharia Florestal numa espécie de graduação sanduíche na Universidade de Freiburg.

Mesmo com limitadíssimo budget de estudante, viver e estudar na Alemanha me fez conhecer um pouquinho da Europa. Uma experiência fantástica e que mudou minha vida e forma de enxergar o mundo.

Voltando ao Brasil um pouco antes do início da copa de 2006, acabei levando um bom tempo para me readaptar. Neste ínterim, acabei conhecendo minha cara-metade e por motivações profissionais acabamos deixando o Brasil por prazo indeterminado em meados de 2008. Nossa primeira parada: Singapura. Mudar para Singapura era algo que jamais me passou na cabeça, mas viver 18 meses na “Ásia para iniciantes” me fez conhecer tantas coisas legais em sua maioria exóticas que costumo dizer que Singapura literalmente abriu meu paladar para o mundo.

Depois da temporada asiática, acabamos mudando para os EUA, onde moramos por quase três anos. Eu não era um grande fã dos EUA, mas depois de conhecer mais da metade dos 50 estados americanos tenho que dizer que adoro a diversidade daquele país e ainda sonho em um dia conhecer o que ficou faltando. Pelo menos os parques nacionais.

Depois de três anos nos EUA, mudamos para Auckland na Nova Zelândia. Inicialmente ficaríamos por aqui por apenas seis meses. Mas já se passaram quase dois anos e meio e continuamos por aqui. Acho que, se pudesse, provavelmente não iria embora nunca mais.  Se bem que a gente adora esse negócio de mudar de país de tempos em tempos. Mas país bonito como a Nova Zelândia ainda estou para conhecer.

[foto Nova Zelândia]

3. O Viajoteca é seu segundo blog. Qual é a idéia do site, quem participa e como rolou?

A idéia de criar um novo blog de viagens se deu por uma série de motivos. O primeiro é que o nome do meu primeiro blog não faz alusão a viagens. Segundo é que ter um blog hoje dá muito mais trabalho que dava. Com toda essa história de redes sociais, SEO e afins, o blogueiro hoje passa boa parte do seu tempo preocupado com estratégia do que com produção de novo conteúdo. E por fim, no meu caso mudar para o paraíso (quero dizer Nova Zelândia!) foi um balde de água fria no crescimento do www.mauoscar.com. Apesar de não ligar tanto para os números, era meio frustrante olhar as estatísticas de tempos em tempos e ver a audiência caindo sabendo que eu continuava a escrever tanto quanto sempre escrevi.

A história do Viajoteca começou via Skype quando quatro expatriados apaixonados por viagens resolveram unir esforços e criar um blog de viagem coletivo. Pessoalmente, eu só conheço uma das minhas sócias. A Mirella que a mais de 10 anos escreve para o Mikix.com que assim como eu não foi muito feliz na escolha do nome do blog.

As vantagens de escrever um blog de viagens a oito mãos por pessoas que moram tão distantes uma das outras são várias, já que cada um tem, além da região que mora, todas as suas experiências ao redor do globo para relatar e ainda pode contar com os colegas para dividir todo o trabalho de divulgação e administração do blog. Outro ponto interessante é a cara variada que os posts ganham, já que cada um imprime de forma diferente sua visão sobre os destinos, enriquecendo o conteúdo e diversificando o conteúdo.

A grande desvantagem é, sem dúvida, tentar marcar reuniões para discutir ideias e projetos, já que é necessário conciliar três fusos horários diferentes: a Mirella em algum lugar da América do Norte (Toronto, Florida ou São Francisco), a Martinha e a Carina na Europa (Paris e Frankfurt, respectivamente) e eu na Nova Zelândia. Fora que nem estamos mencionando a agenda de viagens de cada um, já que quando um está chegando, outro sempre está de partida!

No final está dando tudo certo e as vezes me pergunto porque não havíamos pensado nisso antes!

4. Onde você esteve em 2014 e pra onde vai em 2015?

2014 foi um ano bastante prolífico em termos de viagem. Ao todo foram 45 vôos e uma distância voada suficientemente grande para dar 2 voltas e meia na terra. Entre os novos destinos visitados por mim em 2014 temos a Índia, Samoa, Niue e Chile. Além de duas passadas por Singapura uma no caminho para o Kerala e outra no caminho para o Camboja e Bali. Isso sem falar nas inúmeras viagens que fiz pela Nova Zelândia.

Como em 2015 devemos estar de mudança novamente, não temos grandes viagens em vista. Teoricamente estávamos indo embora da Nova Zelândia em março, mas recentemente recebemos a confirmação que ficamos pelo menos até agosto/setembro. Ou seja, provavelmente iremos visitar mais um ou dois destinos do Pacífico Sul durante o inverno. Os mais cotados no momento são Nova Caledônia e Vanuatu. Nesse meio tempo aproveitaremos para revisitar alguns lugares favoritos da Nova Zelândia e conhecer alguns outros poucos pontos que ainda não chegamos a conhecer.

Oscar nas ruínas de Angkor Wat, no Camboja.
Oscar nas ruínas de Angkor Wat, no Camboja.

5. Falando como alguém que tem experiência: qual a maior dificuldade de mudar de país?

Os desafios em qualquer processo de expatriação são vários, porém nenhum na minha opinião é mais desgastante quando o processo imigratório. Principalmente quando se tratam de vistos de parceiros do mesmo sexo. Dentre os países que moramos desde que deixamos o Brasil, o único que foi de fato relativamente tranquilo foi a Nova Zelândia cuja única requisição esdrúxula foi um raio X de pulmão para atestar que não sofremos de tuberculose. Fora isso, mandamos a aplicação para o visto de trabalho numa sexta-feira para embaixada neozelandesa em Washington DC e na terça seguinte, já estávamos com os vistos no passaporte prontos para mudar para a terra dos kiwi.

Outra dificuldade que encontramos na época  da mudança é a falta de tempo. Geralmente entre a notícia que vamos mudar e a mudança em sí são algumas semanas. Neste pequeno espaço de tempo, além de toda a tramitação legal/imigratória citada acima, temos que nos despedir do lugar que moramos e nos preparar para o próximo destino. É uma maratona, mas no fim tudo se acerta.

6. Rodar o mundo faz você enxergar o Brasil e São Paulo de outra forma? Como?

Viajar te faz uma pessoa muito mais tolerante, aberta e criativa. Apesar de soar meio antagônico, conhecer outras realidades acaba também transformando você uma pessoa muito mais crítica o que pode ser erroneamente interpretado por algumas pessoas como esnobismo.

Enfim, uma das vantagens de você ter a oportunidade de morar fora e em diferentes lugares do mundo é poder observar aquelas coisas que como turista você muitas vezes não tem chance vivenciar.

Um exemplo clássico disso é a política. Eu acho super interessante observar como cada cultura dos países que eu já morei trata do tema. Posso até parecer meio maluco, mas adoro assistir um debate político e apuração dos votos. Certamente muitos paralelos podem ser traçados entre a forma que a política funciona em todos os lugares que morei. Sim, no fundo é tudo muito parecido e ao mesmo tempo muito diferente. O bacana dessa história é observar as diferenças de como as coisas são conduzidas e o seu resultado final.

Na Nova Zelândia, que é considerada um dos países menos corruptos do mundo, o uso do tráfico de influência é por exemplo considerado inadmissível para a opinião pública. Um deputado que recentemente ligou para o comandante da polícia neozelandesa por conta de um amigo que estava com problemas de violência doméstica foi forçado a renunciar por conta de tal telefonema que estaria supostamente prejudicando as investigações. Já a ex-ministra da justiça que usou dinheiro público em uma visita oficial a China para tratar de negócios da empresa do seu marido perdeu o cargo por conta disso. Agora você olha para o Brasil e o que vê? Não tem um único dia que você olha as notícias e não vê um caso de corrupção, uma obra super faturada aqui, outra ali, ou uso do dinheiro público para fins pessoais e por aí vai.

Verdade seja dita, não existe lugar perfeito. Porém conhecer outras realidades faz você enxergar as coisas diferentes e se todos tivessem este tipo de oportunidade, certamente viveríamos em um mundo melhor.

7. Qual foi seu maior vanessismo (alguma loucura ou mancada que deu muito errado)?

Nossa, nunca tinha ouvido falar nessa palavra.. Acho que eu devo sofrer de memória seletiva porque geralmente acabo esquecendo das mancadas e furadas que acontecem em viagem. No entanto uma que não consigo esquecer aconteceu quando ainda morávamos em Singapura. Durante um final de semana prolongado decidimos fazer uma viagem de ônibus até Genting Highlands na Malásia para conhecer um Resort Cassino perto de Kuala Lumpur. Em 2008/2009 os super hotéis Cassinos de Singapura ainda estavam em construção.  Pela internet o tal Genting Highlands parecia super legal e depois de viajar a noite inteira chegamos ao local.

Assim que chegamos percebemos a besteira que fizemos! Que decepção. Tudo parecia velho e fedido e odiamos tanto o lugar que trocamos a nossa passagem de volta para o primeiro ônibus de volta à Singapura logo no início da tarde.

No entanto a viagem ficou marcada não pela furada que nos metemos, mas pela inusitada cena que presenciamos enquanto almoçávamos num dos restaurantes do local. Estávamos almoçando quando um grupo de três senhoras chinesas de meia idade passando pelo lado de fora do restaurante começou a discutir em mandarim ou cantonês sei lá. Enquanto uma dava de dedo na cara da outra, a outra respondia gritando e a tensão só ia aumentando, até que uma delas tira da bolsa um bloco de notas de Ringits e joga na cara da outra no maior barraco que já devo ter visto na vida. A confusão só terminou com os seguranças separando o trio que a estas alturas já estava prestes a se estapear. Ou seja, sem entendermos uma palavra da briga, presumimos que alguém deve ter perdido feio no jogo. Mesmo assim, olhando de fora foi divertidíssimo.

8. Qual seu destino sonhado que ainda não rolou?

Putz, são tantos. Quanto mais se viaja, mais destinos entram na nossa bucket list. Acho que o top 5 neste momento são Islândia, Antárctica, Alaska, África do Sul e Patagônia. Na verdade, o que sempre procuramos fazer é explorar os destinos próximos aos lugares que moramos, com eventuais viagens mais longas combinadas com trabalho. Por essas e outras, morando aqui na Nova Zelândia temos tentado conhecer alguns paraísos tropicais do pacífico sul.

9. Lembro na viagem pra Índia que você fotografa muita natureza, animais. Existe a idéia de se especializar em algum nicho? Já pensou em publicar um livro, por exemplo?

Eu adoro fotografar paisagens. Mudar para a Nova Zelândia fez essa paixão só aumentar. Quem sabe um dia algumas dessas fotos não vire livro daqueles de mesa, ou até mesmo uma exposição. O duro vai ser escolher algumas entre mais de 400 mil fotos que hoje fazem parte do meu acervo pessoal.

Paisagem digna de livro: o Lago Pukaki, na Nova Zelândia.
Paisagem digna de livro: o Lago Pukaki, na Nova Zelândia.

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Quem escreveu

Gaía Passarelli

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11 de February, 2015

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Gaía Passarelli

Gaía Passarelli é paulistana de nascença, autora do livro "Mas Voce Vai Sozinha?"(Globo, 2016) e do blog How to Travel Light. Encontre-a em gaiapassarelli.com

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Comentários

  • Oscar é TOP!!! Seus blogs são o máximo! :-)
    - Lena Maximo

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