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De Marajó para dentro de nós

Quem escreveu

Noo

Data

10 de August, 2015

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Começar do começo. Tarefa difícil quando o coração parece querer explodir de tantos sentimentos e experiências que precisam ser compartilhadas. Era novembro, e nós estávamos sufocadas pelas nossas realidades. Em uma conversa sobre sonhos, ideais e possibilidades, decidimos aproveitar essa sintonia de pensamento e de alma para fazer algo que, em vinte anos de amizade, nunca havíamos feito: viajar só nós duas.

Já havíamos ouvido falar coisas incríveis sobre a Ilha de Marajó (Pará), mas foi uma amiga que nos recomendou o turismo de base comunitária – uma ideia desenvolvida por uma agência de turismo de São Paulo, capital, em parceria com a Associação das Mulheres do Pesqueiro, da Vila do Pesqueiro, uma comunidade de pouco mais de 300 moradores em Marajó. Conversando sobre os nossos objetivos e sobre o que procurávamos com a viagem, concluímos que seria esse o caminho: em vez de usar os nossos poucos dias disponíveis (onze, no total) para pular de cidade em cidade, optamos por nos hospedar na Vila, que fica a 8km da cidade de Soure – principal porto da Ilha.

Soure. Foto: Flávia Elisa Pereira.
Soure. Foto: Flávia Elisa Pereira.

Chegamos a Marajó no dia 7 de janeiro, depois de uma travessia de três horas de barco (de Belém ao porto de Camará), uma hora de van (de Camará a Soure, onde passamos a primeira noite). Ainda em Soure, fomos ao encontro da nossa “mãezinha”, a Cris Penante, moradora da Vila do Pesqueiro que nos acompanhou até a sua casa na comunidade, em um trajeto de uns vinte minutos de táxi (a Ilha não tem ônibus, e tem pouquíssimos carros; a maioria das pessoas se locomove por bicicletas ou motos, ou por carroças puxadas por búfalos). E assim começou o que definimos como a mais significativa viagem para dentro de nós que já fizemos.

Passeio de Búfalo em Soure. Foto: Flávia Elisa Pereira
Passeio de Búfalo em Soure. Foto: Flávia Elisa Pereira

Na Vila

Era inverno em Marajó. O inverno na Ilha se caracteriza por chuvas curtas (e de intensidade moderada) diárias e, com isso, por uma temperatura mais amena do que nos outros meses do ano. As manhãs, tardes ou noites chuvosas nos mantiveram por mais tempo dentro da casa da Cris; e não demorou muito para que descobríssemos a mulher firme que ela é. Uma representante fiel da simpatia e da força da mulher marajoara. Na Vila, elas são o núcleo de toda a família e de todas as relações. São mães, tias, avós, professoras, artesãs, cozinheiras, organizadoras de Carimbó e, normalmente, assessoram a renda do marido.

Noelle e Flávia acomodadas na casa da Cris. Foto: Flávia Elisa Pereira
Noelle e Flávia acomodadas na casa da Cris. Foto: Flávia Elisa Pereira

Também não demorou muito para que entendêssemos o modo de vida na Vila: no Pesqueiro se vive em comunidade, no sentido mais puro da palavra; as normas são simples e comum a todos (não se pode construir uma casa sem autorização prévia do INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, nem pescar em fase de reprodução dos peixes, por exemplo, sem permissão do ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).

Dona Neide nos apresentando o tutu, no mangue. Foto: Flávia Elisa Pereira
Dona Neide nos apresentando o tutu, no mangue. Foto: Flávia Elisa Pereira

As tarefas são dividas entre os moradores de forma que todos tenham uma função essencial. Por exemplo, a Neide e o Jacaré são um dos poucos encarregados da coleta de Turu (molusco que vive dentro das árvores do mangue) na Vila, e são eles os responsáveis de apresentá-los aos turistas (degustamos no mangue e, depois, em forma de sopa! E é uma delícia!). O Seu Catita, pescador mais experiente e melhor contador de piadas da Vila, acompanha os turistas inexperientes pelo igarapé, e os ensina a pescar (alguns aprendem, outros não).

Catita, o pescador mais experiente da Vila do Pesqueiro Foto: Flávia Elisa Pereira
Catita, o pescador mais experiente da Vila do Pesqueiro Foto: Flávia Elisa Pereira

E são muitos os exemplos. Na casa da Cris estava sendo construído um quartinho para hóspedes. Até que ele ficasse pronto, o chefe da obra, o Risada (morador da Vila do Céu, uma comunidade a alguns pés [de barco] do Pesqueiro que também tivemos a chance de conhecer; lá, ao contrário da Vila em que estávamos, ainda não há água encanada) só voltava para casa aos domingos; nos outros dias, trabalhava desde muito cedo, auxiliado pelo Roberto (marido da Cris), e pernoitava na casa deles, em uma rede montada na sala.

A alguns passos de nós, sem cerca nem nenhum outro tipo de delimitação, ficava a casa da Dona Nazaré – mãe do Roberto, sogra da Cris. Foi lá que fizemos as melhores refeições de nossas vidas – todas típicas marajoaras, preparadas com muito carinho e sempre regadas a um bom papo. Na parte de frente da casa, há a fonte da renda da Dona Nazaré e de seu marido: um minibar com sinuca – a maior diversão e o ponto de encontro dos adolescentes da Vila durante a noite.

Praia do Céu. Foto: Flávia Elisa Pereira
Praia do Céu. Foto: Flávia Elisa Pereira

Éramos as únicas turistas hospedadas na Vila. As outras poucas pessoas de fora que víamos nos quiosques da praia estavam apenas de passagem. Logo nos tornamos a maior atração entre as crianças, que, de férias escolares, passavam o dia brincando de bola na rua e não ligavam nem um pouco para as nossas desculpas para não participar dos jogos que elas propunham. Roniel (sobrinho da Cris e do Roberto), Juju, Aline, Jamile, Iago, Junior e duas Paulas foram boas companhias em muitos momentos ao longo dos dias. Mostraram-nos que, desde cedo, a relação de respeito entre os moradores da Vila é muito sólida. Respeitam suas cores, religiões, e idade mais avançada. E não economizam nas pequenas demonstrações de afeto e admiração – desde o primeiro dia, nos chamavam de “senhora” e faziam elogios diários aos nossos olhos, nossas bocas, nossas peles e nossos jeitos de ser.

Foram onze dias mergulhadas em outra(s) realidade(s), que nos fez repensar a nossa. Parece pouco, mas as oportunidades de olhar para as nossas próprias vidas são tão raras, e fazemos isso tão bem quando estamos fora delas, que quisemos aproveitar a nossa chance ao máximo. Depois de tantos dias distantes das nossas realidades e tão próximas de nós mesmas, voltamos; não só para as nossas casas, no caos da cidade grande, mas para quem somos e para o que queremos de nós.

Tudo, absolutamente tudo dá saudade. Do primeiro café da manhã com queijo de búfala na casa da Cris ao último almoço no quintal com os animais, e a pratiqueira fresquinha na churrasqueira. Das paisagens inspiradoras, das aves coloridas na praia, do verdadeiro açaí, do cupuaçu, da mangaba, bacuri, taperebá, muruci e todos os frutos amazônicos que provamos e nem sabíamos que existiam… Mas, acima de tudo, das pessoas. Da receptividade da Cris. Da companhia do Roberto e do Risada pra ver a novela. Da comidinha deliciosa e do carinho da dona Nazaré. Das piadas do Catita. Da sabedoria da Neide e do Jacaré. Do Roniel, Juju, Aline, Jamile, Iago, Junior e Paulinhas, que nos fizeram querer ser criança de novo só pra ter uma infância como a delas. A todas essas pessoas, que nos mostraram um pouquinho de sua felicidade durante esses dias, destinamos a nossa eterna gratidão. E a nossa saudade, que é grande, mas não é eterna porque vamos voltar.

As crianças da Vila do Pesqueiro. Ale, Paulinha, Aline e Juju, sorridentes e fotogênicos. Foto: Flávia Elisa Pereira
As crianças da Vila do Pesqueiro. Ale, Paulinha, Aline e Juju, sorridentes e fotogênicos. Foto: Flávia Elisa Pereira

Serviço:

Turismo Consciente (Agência de Turismo de base comunitária)


Esse texto foi originalmente publicado pela Flavia Elisa Pereira, da NOO, parceiro de conteúdo do Chicken or Pasta.

Foto destaque:  Flávia Elisa Pereira

 

 

Quem escreveu

Noo

Data

10 de August, 2015

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http://noo.com.br/

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