Alter do Chão, o Caribe Amazônico

Data

13 de November, 2015

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Fernando de Noronha? Ilha Grande? Jericoacoara? Nada disso! A melhor praia do Brasil não está no litoral, mas sim no interior do Pará. Alter do Chão – Alter para os íntimos – é um paraíso de areias brancas banhadas pelas águas claras e cálidas do Rio Tapajós. Não por acaso, o local é conhecido como Caribe Amazônico – e faz por merecer o aposto.

BÁSICO

Alter do Chão, Alter para os íntimos, fica às margens do Rio Tapajós, um afluente do Amazonas, distante cerca de 30km de Santarém, no Pará. A vila começou como uma pequena comunidade de pescadores, tornou-se com o tempo um balneário de final de semana para os santarenos e nos últimos tempos tem se firmado cada vez mais como um destino turístico de alcance nacional e internacional.

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A Ilha do Amor banhada pelas águas claras do Rio Tapajós – foto de Marcos Jerônimo

Nessa evolução, Alter perdeu um pouco de seu charme rústico original – o acesso a vila, que anos atrás era feito por estrada de terra, hoje em dia tem pista asfaltada, e o bucolismo do local é quebrado nos finais de semana por uma horda de banhistas – nada, claro, que se compare a uma Copacabana ou Guarujá no verão. Além disso essa evolução também trouxe um lado positivo, que se reflete em melhores serviços de hotelaria e estrutura para receber os turistas.

A vila de Alter tem seu centro nervoso na Praça da Matriz, onde fica a Igreja. Ao redor da praça fica a maioria dos restaurantes, bares, mercados e outros serviços dos quais o visitante pode necessitar. Em frente a praça, mas separada por um braço de água, fica o cartão postal de Alter, a Ilha do Amor, na verdade uma pequena península de areias alvíssimas. Nos finais de semana os turistas lotam as barracas que funcionam na Ilha vendendo pratos a base de peixe e cerveja gelada. O acesso é feito através de canoas – catraias – que ficam ancoradas em frente a praça. Basta encostar lá, ver quem está “na vez”, e indicar onde deseja ser deixado. Na hora de voltar, basta acenar pra algum catraieiro que esteja próximo. O sistema é bem organizado e funciona sem percalços.

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Visão da vila de Alter com seus catraieros – foto de Manuel Dutra

Do outro lado da Ilha do Amor, ligado ao Tapajós apenas por um braço d’água, fica o Lago Verde, que, quando o rio está cheio, possibilita um surpreendente passeio de caiaque explorando os igapós (mata alagada) e igarapés (riachos) que o margeiam. Os caiaques podem ser alugados na própria Ilha.

Além da Praça, em sentido oposto à Ilha do Amor, não há nada de muito interesse ao turista. São basicamente residências dos moradores locais e também de santarenos que ali passam os finais de semana.  Alter do Chão exerce uma atração irresistível sobre muita gente. São bastante comuns relatos de visitas que se transformaram em residência, e há uma comunidade grande de forasteiros das mais variadas procedências que decidiram ali fixar raízes, maravilhados com o estilo de vida tranquilo dos locais e as águas transparentes do Tapajós. Há um ditado local que diz que aquele que se banha nas águas do Rio uma vez sempre vai voltar, e a experiência parece provar a validade da sabedoria popular.

QUANDO IR

A Amazônia tem basicamente duas estações: chuvosa, que, grosso modo, toma todo o primeiro semestre, e seca, que corresponde ao restante do ano. O regime de chuvas influencia no nível do Rio. No começo do ano o Tapajós está em seu ponto mínimo. A partir daí, com as chuvas, começa a encher, chegando em junho ao seu ápice, quando começa a estiagem.

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Alter na seca – foto Cristiano Santa Cruz
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Na cheia, quando somente o teto das barracas fica visível – foto Cristiano Santa Cruz

O nível do Rio influencia muito a experiência de Alter: quanto muito seco, maior a faixa de areia que o Tapajós expõe, e essa parte mais funda acaba ficando um pouco lamacenta. Por outro lado, quando as águas estão no ponto máximo grande parte das praias, incluindo a Ilha do Amor, ficam encobertas – mas há quem prefira a paisagem assim, com o rio no seu máximo esplendor.

Além disso, convém sempre evitar os períodos de maior movimentação turística: carnaval, especialmente, mas também ano novo e o festival do Sairé (que ocorre em meados de setembro). Levando isso tudo em conta, o período ideal pra visitar Alter são os meses de agosto, setembro e outubro, quando há menos turistas, o rio está num ponto médio e o tempo está mais firme. Caso não seja possível, meados do primeiro semestre – março, abril, maio – também é uma boa época, embora você esteja mais sujeito a chuvas – de qualquer maneira não se desespere, pois na Amazônia o calor está sempre presente e mesmo com chuva ainda dá pra pegar aquela prainha.

Chegando lá

O acesso a Alter do Chão se dá através de Santarém. Gol e TAM operam voos alguns voos diários para o aeroporto local, vindos de Belém ou Manaus. Outra opção, pros mais aventureiros e que dispõe de mais tempo, é pegar um barco nas capitais do Pará ou Amazonas. A viagem até Santarém leva dois dias e, ainda que cansativa, permite apreciar a Amazônia de uma forma mais intensa – além de ser uma boa forma de se entrosar com os locais. Tenha em mente que a viagem subindo o Rio leva mais tempo, devido à correnteza. Em outras palavras, o trajeto Belém-Santarém leva algumas boas horas a mais que Santarém-Belém.

Uma vez em Santarém, a melhor opção é tomar um táxi até Alter do Chão (também é possível pegar um ônibus, mas a menos que você esteja realmente com o orçamento apertado não recomendo essa alternativa – a viagem é desconfortável e demorada). O serviço de táxi é tabelado e custa R$80 (valores de outubro/2015). A viagem leva cerca de meia hora. É possível também alugar um carro no aeroporto, embora a utilidade desses seja um pouco restrita, visto que em Alter se faz tudo a pé.

PARA SE HOSPEDAR

Já se foram os dias em que Alter era uma pequena vila de pescadores com praticamente nenhuma opção de hospedagem. Nada ainda é extremamente luxuoso, o clima “roots” se mantém, mas hoje em dia há uma opção razoável de hotéis e pousadas pra todos os bolsos.

A primeira decisão que o turista tem que fazer é se deseja ficar no centro da vila (próximo da Igreja, mais prático mas também um pouco mais muvucado), ou se prefere se isolar do movimento.

No primeiro caso há o Hotel Mirante da Ilha, moderno (para os padrões de lá) e que possui quartos encarando a Ilha do Amor.

Simplicidade, preço e a melhor localização de todas é a pousada Belas Praias. Tem cama, ar condicionado, e fica na frente do deck para passeios e da praça. Além disso o dono é um fofo.

Muitos falam também do Hotel BeloAlter, que fica distante uns 15 minutos a pé da Praça da Matriz e oferece acomodação em chalés. Os chalés são bonitinhos, mas os quartos já ficamos e não consideramos que vale tanto a pena considerando a distância.

Mais do que uma hospedagem, mas uma experiência alternativa é a Terramor. A 1,5 km da Vila, é um espaço simplesmente incrível. Eles são um centro de cura holística.   Os espaços são em bangalôs abertos no meio da floresta amazônica. Eles produzem parte do seu próprio alimento, todos dividem e compartilham a comida e as tarefas. As atividades incluem Ayahuasca e diversas outras cerimônias de criação, música, meditação e celebração.  Quem comanda a casa é o Maurice, um irlandês que é a personificação do amor que eles pregam.

 

PARA COMER

A oferta de restaurantes em Alter melhorou bastante nos últimos anos mas ainda é bem fraca, aquém do que o lugar merece. Todas as opções, em geral, são bem simples e oferecem um cardápio parecido, com ênfase nos peixes locais, especialmente tucunaré, pirarucu, filhote e tambaqui. Diferentemente do que acontece no sudeste, aqui os peixes normalmente são servidos inteiros, em pratos grandes, pra serem divididos. Os acompanhamentos mais usuais são arroz, uma salada simples, molho vinagrete e a onipresente farofa, que os paraenses comemos com praticamente tudo. Ah sim, onipresente às mesas também é o molho de pimenta de cheiro com tucupi, super aromático e ardido.

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Na Ilha do Amor se come com o pé na areia, literalmente – foto Luiza Campello

A refeição mais emblemática de Alter é aquela feita em alguma das barracas da Ilha do Amor, onde a precariedade das instalações (e higiene) é suplantada pelo prazer de comer com os pés na areia. O ritual começa com a escolha do peixe: você vai até a barraca onde as opções do dia vão ser apresentadas pelo barraqueiro. Escolhido o peixe e acertado o preço, que varia com o tamanho, é só decidir a forma de preparo: grelhado na brasa, frito ou cozido na caldeirada são os mais usuais. Na dúvida vá de tucunaré frito na manteiga, pirarucu à milanesa ou ainda caldeirada de filhote – não tem erro.

Enquanto espera seu peixe ficar pronto – e ênfase no esperar, pois tudo ali funciona num tempo próprio, relaxado – você pode acompanhar a cerveja Cerpa gelada com uma porção de iscas de peixe ou a especialidade local, o bolinho de piracuí (uma farinha de peixe seco com a qual se faz um bolinho que lembra o de bacalhau). Outra opção bem peculiar são as porções de chips de banana da terra verde, levemente salgadas, vendidas por ambulantes, que também fornecem porções de castanha do caju fresquíssimas, bem diferentes das que se come no resto do país.

Se bater aquele desejo de colocar um pouco de açúcar no organismo, esses mesmos ambulantes costumam vender docinhos a base de cupuaçu e castanha do pará, e na Vila, próximo à praça da Matriz, há um quiosque da Sorveteria Nido, que oferece maravilhosos sorvetes de frutas locais, com destaque pros sabores de açaí, tapioca e taperebá (e falando em taperebá, não perca a oportunidade de experimentar as frutas locais, muitas vezes exóticas pros paladares forasteiros mas sempre deliciosas).

Melhores opções de restaurantes se encontram em Santarém. Vale a pena reservar pelo menos uma noite pra se comer na cidade. Comidas típicas num ambiente bem simples podem ser encontradas na Vinoca (Travessa Turiano Meira, 367), que serve tacacá – espécie de sopa feita de tucupi (caldo fermentado da mandioca), camarão seco e jambu (uma erva que deixa a boca dormente) -, vatapá paraense (com tucupi e jambu) e maniçoba – um prato de sabor tão delicioso quanto aspecto, digamos, desagradável, feito a partir das folhas da mandioca brava que são cozidas durante uma semana e depois temperadas com as carnes da feijoada.

Outros restaurantes que fazem preparos muito interessantes com os ingredientes locais incluem o Nossa Casa (R. São Cristóvão, 2 – não deixe de provar a Farofa de Piracuí com Banana da Terra Frita, de comer ajoelhado, o Arroz Paraense, com jambu e tucupi, e a Panelinha de Feijão Manteiguinha, uma especialidade local) e o Piracema (Av. Mendonça Furtado, 73), que tem uma Moqueca de Pirarucu Defumado com Molho de Castanha do Pará que dá água na boca só de lembrar.

Arco-íris  (Na praça mesmo, ao lado da igreja) é um restaurante bem na praça que traz comida saudável e bem menos “típica”. Arroz integral, uma saladinha orgânica, um peixe delicioso com acompanhamentos ótimos. Ah, e caipirinhas diferentes e excelentes para dar início às atividades no fim do dia.

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A bela vista da Casa do Saulo – foto http://amazonidaturismo.blogspot.com.br/

Com acesso um pouco mais difícil mas que vale a visita, o Restaurante Casa do Saulo (Praia do Carapanarí Km 7,5, acesso pela estrada do Aeroporto), chefiado pelo simpaticíssimo Saulo Jennings e localizado no topo de um morro em frente a linda Praia do Carapanari, oferece pratos a base de pescados com uma vista deslumbrante. Enquanto espera sua comida ficar pronta você pode tomar uma caipirinha na praia abaixo ou simplesmente relaxar na piscina. O Saulo também é o principal contato para aqueles interessados em fazer Kite Surfing no Tapajós.

PARA PASSEAR

O grande barato de Alter é curtir il dolce far niente. Lá não há a animação de uma Praia do Futuro em Fortaleza nem o elegante cosmopolitismo de uma Búzios. Alter funciona em outro ritmo, num tempo próprio, de contemplação e desfrute. Tome uma catraia até a Ilha do Amor e passe uma manhã relaxando nas águas do Tapajós. Alugue um caiaque pra explorar o Lago Verde. Se esconda do sol do meio dia e aproveite pra tirar uma soneca na rede na varanda de seu chalé, mas acorde a tempo de fazer uma caminha pela praia no final da tarde e apreciar o pôr do sol – e, por que não, dar mais um mergulho sob a luz da lua? Diferentemente de outros lugares, o Tapajós se presta muito bem a mergulhos noturnos – mesmo a noite suas águas se mantêm com temperaturas próximas dos 26º, perfeitas pra aliviar o calor das noites mais quentes. Tenho várias lembranças de ver o pôr do sol de dentro d’água, e lá ficar até a lua subir aos céus – é uma experiência única. E o melhor, no outro dia você pode repetir tudo novamente!

Mas, naquela hipótese improvável de você se entendiar do paraíso, existem algumas opções de passeio: um curto mas que vale muito a pena é ir até a Ponta do Cururu, uma enorme ponta de areia que avança no Tapajós. Converse com um catraieiro pra te levar lá, se possível se programando pra coincidir com o pôr do sol. É comum o avistamento de botos por ali, o que não é nenhum motivo pra alarme – eles estão interessados apenas nos peixes.

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Pôr do sol na Ponta do Cururu – foto de Marcos Jerônimo

No caminho pra Ponto do Cururu você vai passar por outro marco geográfico com um nome, digamos, peculiar – a Serra da Piroca é a única elevação da área, e uma trilha relativamente fácil leva ao seu topo, de onde se ter uma vista de 360º. A trilha é relativamente fácil de seguir, embora seu estado de conservação não seja dos melhores – peça pra um catraieiro te deixar na entrada da trilha, vá de tênis, leve bastante água e evite o horário do meio dia, bem como tome cuidado pra voltar antes de escurecer. Tomando esses cuidados simples, é um passeio que vale muito a pena, se não por nada mais, pelo menos pra poder contar que já esteve num lugar com esse nome!

Dentro daAamazônia existem milhares de comunidades ribeirinhas, a apenas 2 horas de barco você pode visitar várias. Mas por duas vezes o pessoal aqui do COP resolveu trocar alguns dias em Alter por morar com eles alguns dias. O aprendizado é impressionante.

Se você tem curiosidade e prefere fazer um roteiro fora do tradicional, fale com o Jorge da agência Mãe Natureza Ecoturismo

Ou ainda você pode tentar a sorte e ligar diretamente para o Pitó: é um guia de origem indígena, e sabe tudo sobre a região. Mas como normalmente está na floresta, tem que insistir para falar com ele: (93) 9118-6574 ou (93) 99212-7567

PARA DANÇAR

A noite em Alter é tão, ou mais tranquila, que os dias: não costuma haver nenhum agito maior que uma roda de violão na pracinha. Os restaurantes e bares costumam fechar bem cedo também, então se programe de acordo. De maneira geral é melhor dormir cedo pra aproveitar o que Alter tem de melhor.

Mas nos fins de semana, rola baladinha. Mas balada em Alter do Chão é Carimbó.  E se dança soltinho, sem par. E é uma delícia. O Espaço Alter   é o mais conhecido, mas de vez em quando alguns bares também trazem bandas.

Nos arredores (ou nem tanto)

Um pouco mais distante, ao sul de Alter, acessível por barco (nesse caso é preciso alugar um guia com lancha) ou carro, fica a praia do Pindobal, no município vizinho de Belterra. Essa praia dispõe de barracas e outros serviços, e você pode aproveitar pra visitar Belterra, que tem uma história bastante interessante – foi o segundo povoamento fundado pela Ford Motors quando os americanos tentavam instalar uma plantação de seringueiras no Brasil, depois do fracasso de Fordlândia. Até hoje é possível apreciar algumas casas com a típica arquitetura americana no local.

Na direção contrária, seguindo rumo oeste em direção à Santarém, fica a praia de Ponta de Pedras, que também pode ser acessada por barco ou carro a partir de Alter e onde também há uma estrutura mínima de barracas e uma pequena comunidade ribeirinha que produz alguns artesanatos. Essa praia é bastante apreciada pelos santarenos e costuma ficar lotada nos finais de semana.

Fora as já mencionadas, todo o leito do Tapajós é tomado por praias (lembrando que na época de cheia do rio a maioria delas fica debaixo d´água). Assim, o aluguel de uma canoa ou lancha abre novos horizontes e permite acesso rápido a uma série de praias desertas – pra mim um dos grandes prazeres da vida é a sensação de se chegar a uma praia deserta, ninguém a vista por quilômetros, apenas o suave ruído do vento e do quebrar das ondas no ar. A região do Tapajós permite esse tipo de experiência de maneira muito fácil.

Indo ainda mais distante, é possível explorar o Rio Arapiuns, um afluente do Tapajós que desemboca quase na altura de Alter – só que na margem oposta. Uma visita ao Arapiuns envolve, portanto, atravessar o Tapajós, o que não é tarefa tão trivial, levando-se em conta que o rio tem em média 10 quilômetros de largura entre uma margem e outra. É possível fazer isso com uma lancha, mas a maneira mais segura é um barco – essa é uma viagem que é melhor aproveitada se esticada por alguns dias, alugando um barco de porte maior e pernoitando ao longo do Arapiuns, que possui praias tão bonitas quanto as do Tapajós, porém completamente desertas, sem nenhum tipo de muvuca – nem serviços, portanto se decidir fazer essa excursão se programe muito bem e leve tudo que vá precisar. Se tiver bastante tempo e disposição você pode ir até a foz do rio, onde se encontram as Cachoeiras do Aruã.

FLONA

A FLONA – Floresta Nacional do Tapajós – é uma imensa unidade de preservação comprimida entre a BR 163 e o Rio Tapajós, com mais de 500 mil hectares e que permite ao visitante conhecer um pouco mais de perto a floresta.

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Pra se localizar – a FLONA é essa enorme área à margem direita do Rio Tapajós.

A visita mais comum à FLONA se dá através da comunidade do Maguari, situada no município de Belterra, ao sul de Santarém. Essa é uma comunidade ribeirinha bem organizada, e por isso mesmo bastante popular por aqueles que procuram uma experiência mais autêntica e imersiva. Lá o visitante pode conviver com os locais, apreciar artesanato de látex (um estado mais primitivo da borracha), e se desejar pode passar alguns dias no local se hospedando na casa dos ribeirinhos. Maguari fica a cerca de 5 horas de barco de Santarém ou 2 horas de carro pela estrada.

Mas a grande atração da comunidade atende pelo nome de Vovó Samaúma: uma imensa árvore com mais de mil anos de idade e cujo tronco tem um perímetro de mais 40 metros – uma verdadeira gigante da floresta! O acesso à Vovó se dá através de uma trilha que sai da comunidade e cujos 7 quilômetros de extensão podem ser percorridos tranquilamente em cerca de 2 horas.

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Toda a majestosidade da Vovó Samaúma – foto de Pedro Ivo Dantas

Uma outra comunidade da FLONA que recebe turistas é  Jamaraquá, onde se pode fazer um passeio de canoa por igapós cheios de vitórias-régias.

O acesso à qualquer comunidade envolve o pagamento de uma taxa diária de R$6 ao ICMBio, que mantém a FLONA, bem como a contratação de um guia, que custa R$50 mas pode ser dividido entre várias pessoas.

Santarém

Santarém tem atrações que vão além de Alter do Chão. Uma das principais, facilmente perceptível a qualquer viajante que chegue à cidade durante o dia, seja de avião ou de barco, é o encontro das águas do Rio Tapajós com o Rio Amazonas, que acontece bem em frente a orla da cidade. As águas azuis do Tapajós contrastam com o barrento Amazonas, criando uma interface que se estende por vários quilômetros. Uma experiência bastante interessante e única é mergulhar no ponto onde os rios se encontram: a “parede” de água que se forma sob a superfície parece efeito especial de Hollywood.

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Lago do Maicá – foto de João Ramid

Seguindo o Tapajós na direção contrária à de Alter do Chão, ou seja, à montante da cidade, chega-se ao Lago do Maicá, distante cerca de 45km de Santarém. Essa é uma ótima área para avistamento de botos (incluindo o cor-de-rosa), pássaros e bichos preguiça.

Falando em botos, a Feira de Peixes, que opera na Av. Tapajós, num imenso galpão sobre palafitas, oferece um espetáculo único: na época da cheia do rio, quando as águas alcançam a altura do galpão, um grupo de botos se reúne todas as manhãs para aproveitar as sobras de peixe que são jogadas fora pelos vendedores. De tão domesticados, algum deles pegam os peixes diretamente das mãos dos peixeiros e turistas, lembrando golfinhos de um parque aquático. Disputando os peixes com os botos, garças e outros pássaros também lutam pra garantir o café da manhã.

Em frente à Feira do Peixe fica o Mercado Municipal, também conhecido como Mercadão 2000. Ainda que sujo e desorganizado, é uma oportunidade de conhecer um pouco mais de perto os sabores e cheiros da Amazônia. Lá o visitante pode encontrar frutas típicas como o cupuaçu e a graviola, além de tucupi, jambu e pitomba, uma variedade enorme de farinhas de mandioca (por lá conhecida como macaxeira) e até as famosas garrafadas amazônicas, misturas de ervas que prometem resolver todos os problemas do corpo e da alma.

A cidade costuma se reunir quase toda noite na Orla, para espantar o calor com a brisa do Rio. O ponto de maior concentração é o trecho próximo ao Restaurante Mascote, que é uma boa opção para uma cerveja gelada. Ali próximo também um lance de escadas leva a um mirante de onde se pode ter uma bela visão do Rio, e seguindo a orla por mais alguns minutos chega-se ao modesto Museu João Fona, que contém uma bela coleção de artefatos indígenas.

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Uma praia deserta pra chamar de sua no Rio Arapiuns – foto de Pedro Ivo Dantas
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O pôr do sol mais lindo do mundo, no Rio Arapiuns – sem filtro – foto de Inácio Bo

 

Praticalidades

Antes de mais nada convém avisar que o clima em Alter e região é quente, bastante quente. Um pouco menos na época de chuvas e mais no período da estiagem ,mas sempre quente. Tenha isso em mente ao preparar sua mala e invista em shorts, camisetas e chinelo. Os mais friorentos podem querer levar um agasalho leve pras noites mais frescas ou passeios de barco, mas nada além disso. Não se esqueça de levar óculos escuros e litros e litros de protetor solar – mais de uma viagem já foi estragada por causa de insolação. Camisas leves de manga comprida e chapéus de abas largas também ajudam bastante.

Insetos também podem estragar uma viagem. Em Alter propriamente dito não costumam ser um problema maior, a não ser na hora do crepúsculo, quando costumam incidir em maior número. Como precaução, mantenha as portas e janelas dos quartos fechadas com mosquiteiro, e se for dormir em redes (em viagens de barco mais longas, por exemplo) procure um mosquiteiro que cubra a rede.

Insetos são também, de longe, os animais mais perigosos da Amazônia: esqueça a onça pintada e as famigeradas piranhas – a verdadeira ameaça são os mosquitos que transmitem doenças como dengue, febre amarela e principalmente malária. Repelentes ajudam mas no meio do mato é melhor tentar cobrir todas as áreas do corpo possíveis – existem também no mercado de produtos pra camping roupas que já são tratadas com inseticidas e que funcionam muito bem. Pra ambientes fechados, velas de citronela são outra opção interessante.

Outros animais perigosos são as cobras peçonhentas e as arraias. As primeiras podem surgir no meio de trilhas ou até mesmo em áreas urbanas. Não há outro remédio a não ser prestar atenção onde pisa e, caso encontre uma, manter a calma e procurar se distanciar lentamente – como qualquer animal selvagem, ela só vai atacar caso se sentir ameaçada.

As arraias se aproximam da margem do rio especialmente ao escurecer. Novamente, ela só vai atacar caso se sinta ameaçada: isso normalmente acontece quando banhistas incautos inadvertidamente pisam em cima dos animais, que, pra se defender, atacam com seu ferrão. Esse ferrão contém um veneno que, ainda que não mortal, é bastante doloroso. A dica pra evitar um ataque é, quando entrar no rio, especialmente a noite, arrastar os pés no fundo. Caso haja uma arraia nas redondezas ela vai sentir o movimento da água e fugir antes de qualquer encontro desagradável.

EVENTOS: Sairé

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Sairódromo em festa – foto de Cristiano Santa Cruz

O Sairé (ou Çairé), que ocorre normalmente em meados de setembro, é a maior festividade local. Inicialmente um festival de caráter indígeno-religioso, na última década transmutou-se numa espécie de mini-festival de Parintins (o festival dos boi-bumbás amazonense). Só que aqui, no lugar de bois, temos botos: o rosa e o tucuxi (cinza), cujas agremiações fazem apresentações diárias numa arena dedicada (o Sairódromo, que fica numa praça numa parte mais alta da Vila).

As apresentações em si são interessantes, incorporando elementos tradicionais a um espetáculo digno de Sapucaí. Sempre há um rapaz incorporando o boto e uma garota personificando a cunhã, a moça bonita que vai ser seduzida pelo animal pra depois ser abandonada, grávida (e aqui vai uma pequena nota antropológica: até hoje, nas comunidades ribeirinhas da Amazônia, filhos de pais desconhecidos são chamados de ‘filhos do boto’ – com certeza um termo mais leve que ‘bastardos’). Os botos se apresentam alternadamente, numa competição para ver qual vai ser o campeão do ano, e cada qual tem sua torcida apaixonada.

Depois das apresentações dos botos a festa continua com shows de bandas de forró e outros ritmos populares, normalmente com algum nome de repercussão nacional. É uma grande festa que lota Alter, e esse é o lado ruim do Sairé: as praias ficam lotadas e sujas, e as noites podem ser bem barulhentas. Se estiver a fim de farra, é a melhor época do ano pra se visitar (e reserve sua hospedagem o quanto antes, sob risco de ter que dormir na praia). Mas se quiser sossego e tranquilidade, é melhor evitar essas datas.

 

Guia escrito por: Pedro Ivo Dantas – nascido em Santarém, criado no Rio, viajante e cozinheiro por paixão – ou seja, você não poderia estar em melhores mãos

Colaborou: Vanessa Mathias – apaixonada desde a primeira vez que foi pela Amazônia, fez de Alter seu retiro espiritual

Data

13 de November, 2015

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