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Na madruga, com um indonésio, no mercadão de Bali

Quem escreveu

Angela Mansim

Data

13 de August, 2018

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Recebi uma proposta indecente.

“Bora conhecer o mercado central de Bali na madrugada, quando tudo acontece?”

Claro, não pensamos duas vezes para dizer sim. Propostas não-turísticas-óbvias e comida é tudo o há de mais incrível a se fazer, certo? Certo. Ainda mais porque o convite veio de um indonésio local  ━  agora grande amigo  ━  que cansou de me ver comprando comida no pequeno mercado público do bairro em que moro, no sul de Bali.

Mas este post não se trata de mim. Se trata do que Angga faz todos os dias na madrugada para ganhar a vida, enquanto a turistada dorme.

Angga, o indonésio micro-empreendedor que trabalha nas madrugadas. Foto por Angela Mansim.

As noites não dormidas dos indonésios

Saímos às 1 da manhã do sul de Bali. Foi necessário um cochilo antes da partida para aguentar o tranco. Eu, Pedro e Angga em um mini caminhão de três lugares e uma chuva torrencial oscilante.

Perguntei para Angga como funciona a rotina do sono. Segundo ele, a maioria dos indonésios que possuem empreendimentos relacionados a alimentação em Bali trocam o dia pela noite. Além de ter que garantir a compra de produtos frescos na madrugada, é preciso voltar para os bairros, descarregar a mercadoria, organizar as bancas e começar as vendas desde cedo até o período da tarde. Só então é que se vai para casa tirar o tal descanso merecido. Isso tudo, com uma média de três a quatro filhos para criar por família.

A viagem durou 1 hora. A primeira impressão do mercado, observando também a rotina da rua, é que os indonésios estão realmente todos acordados fazendo as compras do dia. E, como suspeitávamos, zero gringos.

Primeira impressão do mercado de rua de Denpasar. Foto por Angela Mansim.
Banca de legumes e verduras no mercadão. Foto por Angela Mansim.

Desvendando o mercado

O mercado de Denpasar é muito agitado durante o dia e, assim como Sampa, vende-se eletrônicos, roupas, alimentos, tudo o que se pode imaginar. Mas na madrugada, os carregamentos são apenas de alimentos, sendo que às 6 da manhã todos param as vendas para limpar as ruas e começar a receber os turistas pela manhã.

Angga explicou que o comércio cresceu tão rápido nestes quarteirões, que agora o governo está construindo uma estrutura próxima para ser o mercado oficial de Denpasar e, assim, desocupar as ruas.

A primeira coisa que Angga fez na nossa chegada foi procurar o seu assistente de feira (pessoa responsável por consultar preços e fazer a maioria das compras, antes mesmo que o comprador chegue no mercado). O assistente nos recebeu e já carregou o caminhão com as compras previamente efetuadas. Depois, partimos em busca dos produtos que faltavam e também em busca de mercadorias especiais.

Os produtos vem sobretudo do leste e norte de Bali durante a noite, mas também existe um espaço especial da feira para mercadorias que vem da ilha de Java, 30 minutos de balsa de Bali. O famoso sambal, molho de chilli picante, é javanês.

Vegetais, frutas e verduras são muito semelhantes ao que temos no Brasil, mas encontramos alguns produtos inusitados, como o kelapa keju (um queijo feito de coco), o tempeh (soja fermentada), kacang panjange (uma variedade de feijão, bem comprido), terasi udang (pasta de camarão para cozinhar) e os não tão estranhos assim, mas com preços muito acessíveis, açúcar e óleo de coco e de palma.

Angga na barraquinha de tempeh, a soja fermentada que é embalada em plástico ou em folha de bananeira. Foto por Angela Mansim.
Os caminhões javaneses, área exclusiva no mercado de rua. Foto por Angela Mansim.

Indo Dreams

Angga contou um pouco da sua história de vida durante as compras. Assim como muitos indonésios em Bali, ele e a mulher estudaram turismo, fizeram cursos de culinária locais e cursos de hotelaria. Há 5 anos, Angga dava aulas de culinária balinesa em um hotel, onde teve que aprender o alemão para se comunicar com os turistas.

Ele conta que para ter seu próprio negócio – o sonho de muitos em Bali  ━  é comum ir trabalhar em outros países para juntar dinheiro e ter capital para investir. Por isso, Angga trabalhou cinco temporadas em cruzeiros pelos Estados Unidos e, assim, conseguiu pagar as contas, aprender o inglês e juntar dinheiro para investir em uma banquinha no mercado público de Jimbaran, sul de Bali.

O sonho dele, em um futuro próximo, é prover alimento para grandes hotéis em Bali e não ter mais que se preocupar com as vendas no dia-a-dia.

Angga com seu caminhão pela madrugada. Foto por Angela Mansim.

Secret Spot

Achei que já estávamos indo embora, quando Angga parou o caminhão no meio de Kuta  ━  região central em Bali. Já eram 3 da manhã, ele saiu do caminhão e disse que iríamos gostar de conhecer o local. Seguimos Angga por  um caminho muito estreito, bizarro e sem luz. E, de repente, demos de cara com um mercado gigante mas completamente escondido, secret spot para quem faz compras.

Lá encontramos muito peixe e frutos do mar frescos, coco em formas variadas e as inusitadas folhas de mandioca, utilizadas para fazer o soto (uma tradicional sopa indonésia). Este mercado foi ainda mais interessante, fora da rota conhecida de compras. Angga disse que para ali para comprar ingredientes que não encontra disponíveis no mercado central de Denpasar.

Secret spot, mercado no meio de Kuta, Bali. Foto por Angela Mansim.
Secret spot, mercado no meio de Kuta, Bali. Foto por Angela Mansim.
Indonésio ralando coco para vender. Foto por Angela Mansim.

Estávamos de volta às 4 da manhã ao sul de Bali, onde nos despedimos para ir para casa dormir, enquanto Angga apenas iniciava o seu dia de trabalho, descarregando a mercadoria com a mulher e organizando o local para as vendas.

Para quem quer fugir do mainstream de Bali, dica quente: não durmam e façam esse rolê.

Quem escreveu

Angela Mansim

Data

13 de August, 2018

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Angela Mansim

Designer, especialista em perrengues, comida de rua e gestão de marcas. Come, dorme e se teletransporta por aí no jeitinho simples da vida local. Radicada em Bali, a baia de todos os mortais.

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Comentários

  • Muito foda ângela! Quero experimentar esse queijo de coco aí! (e todo o resto, obviamente)
    - Pedro Ivo Dantas

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