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Guia do Bixiga: história, cultura e muita comida

Quem escreveu

Gaía Passarelli

Data

01 de November, 2018

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Flanar, na definição de dicionário, é “andar ociosamente, sem rumo nem sentido certo; flanear, flainar, perambular.” São Paulo é uma cidade fantástica pra flanar. Ainda mais em tempos como os de hoje, em que tanto da cidade está sendo redescoberto. A cidade em constante transformação oferece informação, diversão, experiências para quem quiser. Basta saber o que olhar. Pegue o Bixiga como exemplo. O bairro é um dos mais representativos da comunidade italiana na cidade, mas tem uma história que precede a chegada dos imigrantes europeus que segue viva ainda hoje.
Começa assim…
O Bixiga oficial completou 140 anos em outubro de 2018. Mas, como quase tudo quando se fala da ocupação do solo em São Paulo, é difícil definir quando exatamente o Bixiga começa. A data comemorativa oficial é 01 de outubro quando, em 1878, foi inaugurado o loteamento do bairro. Na ocasião, que contou com a presença do Imperador Dom Pedro II, houve a colocação da pedra fundamental onde hoje está o cruzamento das ruas Major Diogo e Santo Antônio, para marcar a construção de um hospital (que nunca aconteceu).

Mas os primeiros registros de ocupação da área são do século 16 como Sítio do Capão. E foi só na década de 1820 que o sítio passou para um homem conhecido como Antônio Bexiga, daí o nome. Segundo reportagem do Nexo Jornal, “antes de ser ocupada por imigrantes, a Bela Vista, onde se localiza o Bixiga, era utilizada como esconderijo de negros em fuga.” Grupos de pesquisa e estudo como o Instituto Bixiga de Pesquisa e Formação Popular e o Cidades Educadoras apontam para a presença de quilombos, beneficiados pela mata fechada da região, muito antes da divisão da área em lotes. Com o passar do tempo “a urbanização deu lugar a lotes estreitos e profundos, ocupados por mais de uma família, onde os negros se instalavam nos fundos e os imigrantes brancos nas frentes das residências,” aponta o Nexo.
Não é por acaso, então, que a mais famosa rua do bairro se chame 13 de Maio, data da assinatura da Lei Áurea. E nem é coincidência que o grupo afro Ilú Obá de Mim promova a lavagem da escadaria todos os anos nessa data. A presença negra no bairro sobrevive ao apagamento histórico com rodas de samba nas ruas nos finais de semana, a presença de terreiros de candomblé e umbanda e a Vai-Vai (veja abaixo).

Bixiga, Bela Vista, São Paulo
Mapa dos Campos do Bixiga no século 19. Fonte: http://www.portaldobixiga.com.br/historia/

Onde, exatamente?

A melhor forma de ver o Bixiga é andando. O bairro não fica colado a nenhuma estação de metrô, mas dá pra chegar a partir das estações São Joaquim ou Brigadeiro. Também é bem fácil chegar de ônibus pelos corredores da Brigadeiro Luis Antônio e 9 de Julho. Ou pegar um Uber.
As fronteiras do Bixiga são difíceis de definir e mudam de acordo com o entendimento do interlocutor. É uma parte do centro da cidade, que pode ir de trás da Praça da Sé até a Avenida Paulista, é meio que a mesma coisa que a Bela Vista, ou é apenas a região ao redor da Praça Dom Orione e Rua 13 de Maio? Uma idéia do Bixiga: vai dos Arcos Jandaia e Rua Adoniran Barbosa até o MASP e da Avenida 9 de Julho até a Rua Vergueiro. Não tô inventando – essa é a definição do bairro de acordo com o mapa da Sampapé, organização que busca melhorar a experiência de andar nas cidades. A Sampapé fez seu primeiro “Passeio a Pé”, justamente no Bixiga, em 2012. Desde então eles promovem discussões, eventos, caminhadas e metodologias de engajamento comunitário. Procure por eles no site e no Facebook, Instagram e Medium. Também procure (online ou nas ruas do bairro) o belo mapa do bairro que a ONG criou.

Bixiga, Bela Vista, São Paulo, Sampapé
“O principal espaço de convivência do Bixiga é a rua,” diz a ONG SampaPé

O que ver e fazer no Bixiga

Comece pelo Museu Memória do Bixiga, na Rua dos Ingleses. Tem cerca de oito mil fotografias de época e quase dois mil itens de acervo, incluindo objetos do compositor Adoniran Barbosa. Inaugurado em 1981, o MUMBI é o principal espaço de preservação da memória do Bixiga e ocupa um casarão que ficou vazio por mais de três décadas e do qual se sabe pouco. Além de visitas guiadas e a promoção de estudos e pesquisas. A história dos teatros do Bixiga, uniformes de soldados da Revolução Constitucionalista de 1932, a herança da população negra, imagens e histórias dos casarões, muitos hoje abandonados: esse é o lugar para saber de tudo um pouco. O museu também promove almoços com o tradicional nhoque da sorte italiano todo dia 29!

Bixiga, Bela Vista, São Paulo
Antiga passagem entre a parte alta e baixa do bairro hoje é corredor cultural. – foto: Gaia Passarelli

O topo da Escadaria do Bixiga, no final da Rua dos Ingleses, do Bixiga é um excelente lugar para começar um passeio ou marcar ponto de encontro. Inaugurado em 1929 para servir de ligação entre a parte alta e rica (Morro dos Ingleses, onde moravam os funcionários europeus da São Paulo Railway) e a parte baixa e pobre (dos cortiços da Rua 13 de Maio) a escadaria ficou deteriorada por décadas e hoje, restaurada, é local de eventos como shows de jazz, brechós ao ar-livre e piqueniques comunitários.
Vire à direita na direção da Praça Don Orione e entre na galeria do número 870. No segundo andar fica o Alabama Hotel, um brechó com janelona linda que dá vista pra praça. Nos fins de semana, a turma do Alabama costuma promover eventos com música e exibições. Fique de olho no site.

Bixiga, São Paulo, Bela Vista, Alabama Hotel, brechó
Encontre o Alabama Hotel na galeria na frente da praça, no meio de lojas de colecionista e antiguidades. – foto: Gaia Passarelli

O Mundo Pensante, também na 13 de Maio, descendo na direção do bairro, é uma balada mas também é espaço multicultural onde são exibidos filmes, peças de teatro e mostras de arte, além de workshops, cursos livres, debates e oficinas de temas diversos. Ocupa o mesmo casarão que abrigou o Clube Glória e é um dos espaços que tem ajudado a mudar a cara do Bixiga antigo. Há eventos de dia e de noite, consulte a programação.


Descendo a Treze de Maio na direção da Achiropita você vai passar na frente do Cannoli do Bixiga, uma portinha com balcão que só abre de quinta a domingo, sempre à tarde. O posto de melhor cannoli da área é disputado, mas esse tem sido preferido de quem frequenta a área: é fresco, leve e sem doçura exagerada. Minha escolha é o tradicional, com creme de ricota e frutas cristalizadas, mas há opções como nutella e doce de leite argentino. Pode servir de sobremesa para quem encara antes uma (deliciosa) fatia de pizza enrolada em cone. Pra comer na rua.

Bixiga, Bela Vista, São Paulo, Cannoli
Leave the gun, take the cannoli. – foto: Gaia Passarelli

Se você é paulistano, é provável que já tenha comido o pão italiano da tradicionalíssima Basilicata, responsável pela entrega do pão usado no couvert em muitos restaurantes da cidade. A padaria foi renovada nos últimos anos e hoje funciona em esquema catraca, vendendo todo tipo de produtos. Perdeu em aconchego, mas os doces e pães continuam ótimos.

Basilicata
Reprodução Basilicata

Deu fome de almoço? A Rua 13 de Maio tem mais cantinas do que deveria ser permitido por lei, e a verdade é que a maioria delas são bem mais ou menos. Uma das boas exceções é a Roperto, casa clássica de massas que não raro tem filas enormes na porta. O carro chefe é o fusilli com calabresa.

Bixiga, Bela Vista, cantina, Roperto
Bixiga, Amore Mio – foto: Portal SescSP | Flickr

Para tomar um café especial, dê uma parada na casa Casa Jardim Secreto que ocupa um casarão histórico da Rua Conselheiro Carrão — leia mais nessa reportagem do SP24hrs. A feira de mesmo nome, que deu origem à casa, acontece uma vez a cada dois meses na Praça Dom Orione. Siga no Facebook para saber as datas.

Bixiga, Bela Vista, Casa Jardim Secreto
Casa Jardim Secreto. – foto: Gaia Passarelli

Outras coisas

Outra opção para almoçar é o Sacolão do Bixiga, que fica debaixo do viaduto de frente para o Teatro Oficina. Basta descer a Conselheiro Carrão, virar na Major Diogo e seguir por baixo do viaduto, passando pela Arena Bela Vista, o projeto social que usa a área debaixo do Viaduto Jaceguai como espaço de esportes e convivência. O Sacolão é frequentado principalmente por quem mora na área, que compra no hortifruti, boxes de açougue, pastel e afins. Vale se programar para almoçar em qualquer dia da semana no concorrido e elogiado Box 62, da cozinheira Mara Rasmussen, que serve receitas com jeito de cozinha de mãe, como arroz a grega, cuscuz e pê-éfes. As coxinhas são sensacionais, assim como as quiches. Chegue cedo para pegar lugar numa das mesas de madeira, peça uma jarrinha de mate gelado e aproveite.


Durante o Carnaval, o Bixiga é tomado por blocos diversos, novos e antigos. A tradição sambista do bairro tem muito a ver com a quadra da Vai-Vai, a mais premiada escola de samba da cidade. Os ensaios da Vai-Vai fazendo o chão do bairro tremer, literalmente, e são dor e delícia para os moradores. Como juntam milhares de pessoas e só crescem a cada ano, há quem queira tirar dali a sede. Mas é importante lembrar que a Vai-Vai é parte da vida e da história do Bixiga e está ali desde 1930. Os ensaios de 2019 devem começar em breve, fique de olho no site da escola para saber. Aproveite e conheça abaixo o tema de 2019: o quilombo do futuro.

Nos limites do bairro, mas do outro lado da Brigadeiro Luiz Antônio, está um dos tesouros de São Paulo: a Vila Itororó, na Rua Martiniano de Carvalho. Símbolo da população imigrante e operária, a construção na época ficou conhecida como Casa Surrealista e com o passar das décadas se tornou mais um dos cortiços deteriorados do Bixiga. Está hoje em reformas para se tornar um pólo cultural com apoio da Prefeitura e tem horários de visitação abertos ao público. Aproveite que está na área e passe na Basílica do Carmo, também na Martiniano de Cavalho, ali perto.


Se você andou durante o dia, jantou e quer terminar com um drink, acabe a noite no Espaço Zebra. O belo estúdio de arte do casal Renato Larini e Neli Pereira tem uma programação sempre interessante que pode envolver drinks criados com ingredientes brasileiros, apresentações musicais e mostras de novos artistas visuais. Consulte antes de ir.

*Foto de destaque: Gaia Passarelli

Quem escreveu

Gaía Passarelli

Data

01 de November, 2018

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Gaía Passarelli

Gaía Passarelli é paulistana de nascença, autora do livro "Mas Voce Vai Sozinha?"(Globo, 2016) e do blog How to Travel Light. Encontre-a em gaiapassarelli.com

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Comentários

  • Pena que no meu tempo não tinha essa loucura de tirar fotos registrando nossos passos, há não iria ter memória de celular para tanto,pena,mas vcs fizeram isso por nós, naveguei com emoção nesse documentário tão saudoso,muito obrigada.agora vou navegador nos sites recomendados, saudades de andar a pé de madrugada até o sol chegar meu querido é eterno Bixiga.
    - María Fátima de lina

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