Música & Diversão

Primavera Sound se redefine e abraça de vez a música eletrônica

Quem escreveu

Amanda Foschini

Data

08 de June, 2017

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Começo a escrever este texto com as panturrilhas ainda doloridas e a cabeça ainda meio bagunçada depois de alguns dias muitos intensos de Primavera Sound. O festival, que celebrou sua 17ª edição entre os dias 31 de maio e 04 de junho, se transformou em um mutante que não para de crescer: 200 mil pessoas de 125 países e mais de 250 artistas.

Tendo acompanhado o festival nas últimas cinco edições, pude notar as mudanças (boas ou não) que o Primavera vem sofrendo no seu caminho de megafestival: de evento indie intimista a microcosmos musical multirrítmico e multiplataforma. Mais palcos, mais gente, mais diversidade, mais quilômetros caminhados, mais artistas. O Primavera Sound mirou para frente e foi embora sem nunca olhar para trás.

A edição deste ano bateu recorde de público: 220 mil pessoas. Foto: Dilvugação festival

Entre algumas mutações no DNA do festival, uma em especial chamou a atenção de quem conhecia o Primavera de outras épocas: a clara mudança de rota em relação à música eletrônica e suas vertentes. Se antes, DJ’s e produtores tinham para si o último horário de um palco qualquer, agora a história é outra, com artistas assumindo o palco principal e uma nova área, com dois palcos, dedicada exclusivamente ao gênero, com 18 horas de música diária e nonstop.

O palco Heineken, o principal do festival – que recebeu gente do calibre de Grace Jones, Van Morrison e Bon Iver – abriu espaço para o eletrônico brilhar com Aphex Twin, que rasgou a noção de tempo e espaço com um live que foi uma aula de produção musical, e com Jamie xx, que chegou para ocupar o posto de Frank Ocean (que cancelou sua participação dias antes do início do festival), e segurou bonito a onda com um DJ set curtinho mas cheio de groove disco. Como já vem acontecendo há alguns anos, o palco ficou devendo alguns bons decibéis para quem estava mais ao fundo. Queixa antiga que segue incomodando edição após edição, principalmente quando o assunto é música eletrônica (e Aphex Twin, gente!).

Palco Heineken, o maior do festival, lotado para ver Aphex Twin. Foto: Divulgação festival

O palco Ray-Ban, onde se apresentaram Sampha e Seu Jorge, também estendeu o tapete vermelho para DJ’s e produtores eletrônicos: DJ Tennis fez todo mundo queimar as últimas gotas de energia na quinta-feira; na sexta, um mais que simpático Flying Lotus apresentou seu live cheio de visuais e começou uma viagem que seria fechada com maestria e precisão pela tabelinha Talaboman, de John Talabot (anfitrião que apareceria outra vez mais no palco Bacardí Live para um set disco que lavou a alma de quem esteve por lá) e do sueco Axel Boman. Na sexta, a música eletrônica se fantasiou para apresentações mais fanfarronas com os divertidos !!!(CHK CHK CHK) e DJ Coco, a versão catalã do DJ de formatura e o responsável por fechar o festival desde as primeiras edições.

Flying Lotus: música também para os olhos. Fotos: Divulgação

Primavera Bits: música eletrônica com casa própria no Primavera Sound

Clima de festão no palco Desperados Club. Foto: Divulgação.

Já na edição do ano passado, o organização sinalizou seu flerte sincero com o mundo da música eletrônica criando um beach club dedicado exclusivamente ao gênero. A paquera deu match pesado e neste ano o beach club ganhou o nome de Primavera Bits e dois palcos: Desperados Club, cheio de luzes e com ares de festão para receber DJ sets de todos os estilos, e o Bacardí Live, palco mais intimista focado em formatos live. Permeando isso tudo, bares sem filas, atendimento simpático dos portugueses, almofadas de sobra, palmeiras, os melhores banheiros do festival (com vasos sanitários de verdade, álcool em gel e open bar de papel higiênico), sistema de som Bowers & Wilkins montado com cuidado e ouvido fino para ninguém sofrer de abstinência de grave, e o Mar Mediterrâneo a poucos metros abraçando isso tudo. Aposta certeira, sucesso garantido e sorrisos por todos os lados.

Era evidente o cuidado na curadoria do line up do Primavera Bits, que misturou influências, origens, gêneros e épocas. A tarde da quinta-feira esquentou com os lives de Romare, Lord of the Isles e Moscoman, que ganhou todo mundo com sua banda cheia de suingue. Com os motores já azeitados, ficou fácil para Joy Orbison tirar todo mundo para dançar no seu baile e abrir caminho para um live explosivo de Henrik Schwarz, que com repertório de sobra, técnica afiada e muito feeling desmontou quem estava por lá.

Bacardi Live: novo palcos dedicado unicamente aos formatos live. Foto: Divulgação

A sexta-feira foi de dúvidas cruéis: HVOB ou The xx? Kornél Kovács ou Jamie xx? Âme ou Talaboman? Problemas do primeiro mundo resolvidos com a lei do mínimo esforço e do melhor banheiro. Ficamos pelo Primavera Bits e teve HVOB com um live lindo e etéreo, o groove de Kornél Kovács botando fogo em tudo e a seriedade dançante e certeira de Michael Mayer jogando um tiquinho mais de gasolina no povo. Festão que deu bolha no pé, dor na bacia e vontade de que a noite nunca acabasse.

No último dia, a vontade era chorar de cansaço coberta na cama mas encaramos a andança uma última vez para cumprir tabela. À meia-noite, John Talabot, prata da casa, fez um set disco para todo mundo agradecer o esforço final. Que set, que energia, que bailão! Sorrisos, vocais e cores. O início perfeito para uma noite final que ainda teve o live sério e correto de Ferenc, e Recondite pedindo a conta com um live sombrio, duro, mas impecável. Uma ode ao techno alemão.

Foi assim que o Primavera Sound se fez eletrônico sem nunca deixar o indie de lado. Coube todo mundo, houve de tudo e choveram momentos especiais. Cada um no seu quadrado, unido pelo poder socializador da música. Foi lindo mas é hora de plugar o carregador porque em duas semanas a brincadeira começa de novo, agora no Sónar Barcelona.

Quem escreveu

Amanda Foschini

Data

08 de June, 2017

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