Viagem

5 preconceitos sobre o Irã para perder hoje

Quem escreveu

Vanessa Mathias

Data

30 de January, 2017

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De todas as 24 imigrações que passei, sem dúvida a que me abriu portas ao país mais interessante e desafiador dos últimos 8 meses foi a do aeroporto de Teerã. Meus quinze dias lá foram mais que divertidos, foram transformadores.

Há tanto para falar sobre a cultura, sobre as pessoas, sobre a história, sobre a religião – que ensaio escrever sobre o Irã há dois meses e… não sai. De alguma forma, sinto que não vou conseguir fazer justiça ao país. E que não estou equipada o suficiente para tratar de assuntos tão complexos como a religião ou a política.

Mas em vista dos últimos acontecimentos, percebo que o pouco que sei é mais do que até alguns líderes políticos importantes por aí (alô, Casa Branca!). E se eu mesma fiquei muito surpresa com o Irã, isso só demonstra que eu mesma tinha alguns preconceitos enraizados (meio que inconscientes). Quem sabe lendo você descobre que não tem um também?

1. Os iranianos são árabes retrógrados

Essa frase é uma real atrocidade do começo ao fim. Para começar os iranianos são persas, e não árabes. E falam persa, apenas o alfabeto é árabe (como nós falamos português usando o alfabeto romano). E diferente de quase toda a América ou a Europa, eles se mantém lá no seu território há mais de quatro mil anos: o berço da civilização persa data de dois mil anos antes de Cristo.

Persépolis no Irã
Vanessa em Persépolis. Foto: Vanessa Mathias

Vamos colocar em perspectiva? Isso foi 2.500 anos antes da civilização Inca sequer existir. Enquanto Ciro, o Grande, dava festas de Ano Novo regadas a vinho nas suas piscinas na Babilônia, aqui na América ainda não tínhamos descoberto a agricultura. Ainda iria demorar mais dois mil anos para ter tecido  do lado de cá do oceano, saca?

Templo do Fogo, Yaz | Vanessa M.
Templo do Fogo, Zoroastrismo Yaz. Foto: Vanessa M.

Visitar o Irã é uma aula sobre a a história da humanidade. O Zoroastrismo foi a primeira religião monoteísta e que deu origem ao judaísmo, ao cristianismo, e ao islamismo. Fiquei apaixonada pela religião (que ainda existe em escala mínima por lá). Pregava apenas três coisas: Pense coisas boas. Fale coisas boas. Faça coisas boas.

Olha que fácil e atual. Quando foi que complicamos tudo?

2. Os muçulmanos são violentos

Templo Bogh'e-ye Shah-e Cheragh Shiraz | Vanessa M.
Templo Bogh’e-ye Shah-e Cheragh Shiraz. Foto: Vanessa M.

O Islã da forma que é só chegou no Irã la pelo século XV. A revolução islâmica – o Governo atual que controla desde a obrigação da vestimenta à proibição de álcool, só foi em 1979, 37 anos atrás. Antes disso, as pessoas vestiam o que bem entendessem e eram beberrões.

Notícias pontuais, atravessadas e enviesadas que chegam por aqui contribuem para um imaginário que o Oriente Médio está sempre – e totalmente- em guerra, onde governos ensinam com base em chicotes, pedras e guilhotinas. E nesse contexto dá para imaginar que nascem realmente grupos extremistas. Certo?

Parque em Teerã | Vanessa M.
Parque em Teerã. Foto: Vanessa M.

Errado. Bem errado. Culpar os iranianos pela ISIS é como culpar os americanos pela Ku Klux Klan. Aliás, é como culpar os brasileiros pela Ku Klux Klan – já que a ISIS nem sequer existe em território iraniano. Eles tem o mesmo desprezo pelo terrorismo que o mundo ocidental tem por grupos extremistas.

Para começar, eles nem seguem a mesma vertente. Enquanto o Irã é de maioria xiita, grande parte do Oriente Médio é de maioria sunita – e isso por si só gera um bafafá tremendo que vale estudar para entender o básico da região. Entre si, os muçulmanos já se dividem por si só. Por exemplo, o governo do Irã é inimigo da Arábia Saudita, de maioria sunita, e eles nem podem entrar no país para visitar Meca, por exemplo. Puta rolo, com o perdão da exprssão.

Grand Baazar Isfehan | Vanessa M.
Grand Baazar Isfehan. Foto: Vanessa M.

Ah, vale comentar a maior vergonha-alheia-de-mim-mesma que percebi nessa viagem: a nossa expressão “xiita”para indicar algo “radical” ou “extremista” não poderia ser mais preconceituosa e equivocada. Foi fruto da mídia a que fomos expostos nos anos 80, explicações aqui. Não só os xiitas são o grupo menos radical, como usar para qualquer um é incorreto e preconceituoso.

A maior parte do Oriente Médio, incluindo todo o imenso território iraniano, é absolutamente seguro. Viajando sozinha e sendo mulher, em poucos lugares me senti com tanta segurança quanto andando nas ruas do Irã – independentemente da hora e local. Um exemplo? Os trocadores de dinheiro (casas de câmbio não-oficiais) carregam – literalmente – malas de dinheiro pelo centro. (Imagine isso na Praça da Sé?).

arquivo_001Foto em Isfehan com meus anfitriões. Foto: Vanessa M.

A própria polícia é muito mais branda que um policial militar no Brasil. Por exemplo: ao vestir algo errado (esse vestido acima tinha uma fenda na parte de cima das costas) quando andava com meus anfitriões, fui abordada pela polícia da “moral”. Nada de chibatadas: uma moça super delicada informou que estava em desacordo, me ofereceu um alfinete, perguntou sobre o Brasil super curiosa, e me deu um iogurte salgado. (Em tempo: iogurtes salgados são ótimos.)

Quanto mais viajo, mais chego à conclusão que, inseguro mesmo, é andar no centrão de São Paulo com um iPhone no bolso. (Já falei aqui).

[Ah… com exceção do trânsito… esse é uma loucura e perigoso mesmo hahahaha]

3. Os iranianos são fechados ao mundo ocidental

A sua experiência mais próxima a ser um rock star é ser um estrangeiro visitando o Irã. As pessoas querem muito falar com você na fila do pão ou no café. E tirar uma selfie.

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Palestra improvisada. Em tempo: minha roupa estava em desacordo e blusa curta demais, tive que trocar. Foto: Vanessa M.

Vou dar alguns fatos que exemplificam a famosa hospitalidade iraniana: não consegui dormir no hotel, porque tinha mais convites para visitar a casa das pessoas do que dias no meu itinerário. Tive que tentar encaixar cafés da manhã, com almoços, com passeios, com jantares, com voltas no parque, para dar conta dos convites que ia recebendo. Até fui temporariamente raptada em uma rodoviária por um taxista que resolveu me levar para o aquário da cidade em vez do meu destino (vai render um novo post essa história). No meu primeiro dia, fui conversar sobre o Brasil com duas pessoas, e quando me dei conta estava dando uma palestra sobre Carnaval, samba e sexualidade para umas vinte e cinco (acima). Nozes, tecidos, brincos: ganhei presentinhos todos os dias para que eu tivesse boas recordações do país. Em quinze dias, não deixaram eu pagar nenhuma refeição.

Uma das várias famílias que me acolheram e convidaram para jantar | Foto Vanessa M.
Uma das várias famílias que me acolheram e convidaram para jantar. Foto: Vanessa M.

Os iranianos são tão queridos que existe o tarof: uma cortesia que as pessoas dizem que vão te dar algo, ou pagar, e teoricamente não é para você aceitar.  Mais de uma vez eu peguei um táxi e ele no fim disse que a corrida sairia de graça, que o real prazer era me levar. Ele está querendo apenas ser cortês: é preciso insistir três vezes para descobrir se é real.

Eles também amam tudo que é americano. Assistem séries, filmes, e comemoraram o término da sanção dos americanos devido ao acordo nuclear.

Breve resumo para quem não sabe nada do assunto: desde 1979, as Nações Unidas exerce uma sanção no país, fortemente influenciadas pelos EUA, devido ao urânio enriquecido do Irã, que, potencialmente, pode ser usado para armas nucleares. O país sempre disse que o urânio era para geração de energia e fins médicos. Dessa forma, o país não podia fazer negócios com quase nenhum país, prejudicando fortemente a economia. Até 2015, quando chegaram a um acordo, foram lá, e não acharam armas nucleares mesmo.

Na prática, isso significa que o comércio com o Irã é super limitado. Não se usa cartão de crédito internacional, e quase tudo é feito lá. Já que não tem empresas estrangeiras, eles fazem de tudo lá mesmo: desde o seu próprio “Uber” à sua própria bolsa Channel – com marca e tudo. Haja empreendedorismo!

[Não sei o que vocês acham, mas precisa de um coração muito bom para se ferrar por anos por um país e ainda tratar todos que vem de lá bem, assistir a séries e tal… não?]

4. As mulheres são submissas

Mulheres iranianas
Mulheres iranianas, Teerã. Foto: Matti, Travelstyle

Não me entenda mal: os país tem leis extremamente sexistas e nada igualitárias. Além do famoso dress-code (o hijab (véu) é obrigatório, assim como blusa folgada até o joelho), há regras que nunca imaginaria. Mulher não pode andar com nenhum homem sem ser seu irmão ou pai. Mulher não pode fumar. Mulher não pode cantar em público (sim… cantar…). A infidelidade feminina pode levar à pena de morte. E se você for gay então

Culpar os iranianos pelas leis retrógradas é o mesmo que culpar o brasileiro médio pela corrupção do Governo. Eles são vítimas, não agentes. Quem mais sofre com isso não sou eu ou você, são eles mesmos. Nós, como turistas, se quebrarmos alguma regra, levamos no máximo alguma bronca.

São as próprias mulheres iranianas que sofrem. E elas são absolutamente conscientes, fortes, extremamente assertivas e articuladas.  Hoje estão em maior número que homens na faculdade, por exemplo. Trabalham e ocupam cargos de destaque. Elas tem absoluta noção desse sexismo e lutam por ele. Por exemplo: como só os homens podem se divorciar, na prática, elas fazem um contrato pré-nupcial que exigem o direto delas de se divorciarem também. E dentro de casa, quem manda são elas.

Elas podem e devem receber nossos suporte – mas não nossa dó ou pena.

5. Cultura é ultrapassada, não há festas, arte ou cultura

Olha, pode até ser que venha da falta de bar, mas nunca vi um país para gostar de poesia.

Foto Reza lendo poesia | Vanessa Mathias
Reza lendo poesia. Foto: Vanessa Mathias

Você passeia nos parques e há reuniões e reuniões de pessoas lendo ou declamando poesias. Lendo livros. E as pessoas efetivamente frequentam seus museus, como o ótimo Museu de Arte Contemporânea de Teerã.

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Festa no apê. Foto: Vanessa Mathias

Falando em festas, bom, se em público nada pode, o contrário é verdade. Entre quatro paredes de casa, tudo pode. O que você veste, bebe ou faz é problema seu. Pensar que não existe álcool porque é proibido é meio como pensar que não existe maconha no Brasil.

Lá, fazer o que quiser em casa é mais que diversão, é quase um ato político.

 

Espero ter contribuído com alguma informação nova sobre o Irã, mas se tiver alguma dúvida que possa responder, deixe aí nos comentários. Se ficou curioso sobre a cultura, sugiro esse blog incrível de uma moça iraniana.

*Foto do destaque: Abedin Taherkenareh

Quem escreveu

Vanessa Mathias

Data

30 de January, 2017

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