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Spin the Globe: Talita Ribeiro

Data

29 de March, 2016

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Ela tinha um mês de férias e podia ter escolhido passá-las em uma praia de água transparente, numa cidade moderna e fervida, ou até relaxar em algum lugar afastado cheio de natureza virgem. Optou por gastar 30 dias visitando campos de refugiados na Jordânia e no Iraque, para ver de perto a situação das pessoas flageladas pela guerra que assola a Síria e deixa o mundo todo em estado constante de alerta. A Talita Ribeiro é jornalista especializada em turismo, viajante inveterada, e conta todas as suas experiências no Viagem e Voo.

Essa sua última viagem rendeu muito mais que dicas de hotéis e passeios. A Talita encarou o risco de frente e visitou o Oriente Médio em um momento histórico dos mais complicados para a região, justamente para entender como as coisas estão por lá, muito além do pouco que ficamos sabendo aqui pela televisão. A temporada foi tão intensa e transformadora que virou o livro Turismo de Empatia: Refugiados no Oriente Médio, lançado graças a um financiamento coletivo, e que tem toda a renda revertida para programas de assistência aos refugiados, como o da Família Aziz, na Jordânia e o Top Brazilian Sport Academy, no Iraque.

Para saber detalhes da viagem e ouvir a própria Talita e seu marido Marco contando ‘os causos’ por que passaram, além de ler o blog, recomendo escutar o podcast do Jovem Nerd, que é longo, mas muito interessante. Fora isso, nós queríamos entender o que leva alguém a cogitar visitar uma zona de guerra em plenas férias, qual é a realidade dessa região de que sabemos tão pouco, o papel da mulher na história e o que afinal é o tal turismo de empatia e como ele pode ajudar o mundo.

O que levou você a fazer uma viagem dessas? Qualquer pessoa pensaria que isso é uma loucura. Por que essa decisão?

Eu estava pensando sobre isso. Várias pessoas, inclusive eu, viajam para ver museus que tem histórias específicas sobre períodos também específicos. Por exemplo, eu fui para as cidades da Segunda Guerra na França, do Dia D, porque meu marido é apaixonado por histórias de guerra. E a gente foi para lá para ver os cenários onde tudo aconteceu, os museus etc. Nessa viagem, eu fui ver a história acontecendo, a história atual. Um fato que vai mudar para sempre o futuro do mundo. Quando você está lá dentro, no Oriente Médio, você percebe que existem vários movimentos com grandes chances de serem transformadores a longo prazo. Um deles é o Estado Islâmico, que querendo ou não já é um movimento transformador por si só, apesar de ser muito ruim. Mas tem também vários movimentos sociais e de mulheres, que foi o que me interessou mais, e que também podem fazer a diferença no longo prazo. Eles já estão mudando a história de onde atuam e tem potencial para mudar de forma mais ampla. Isso é meu pensamento pós-viagem, analisando os dados. Mas antes de ir, eu fiquei interessada nisso por conta de uma foto. Eu vi uma foto de uma mulher tirando a nicabe, aquela roupa preta que elas usam que deixa só o olho de fora. Ela estava na caçamba de uma picape e tirava a nicabe, tendo por baixo um vestido super colorido. Um vestido vermelho com umas bolas azuis e amarelas. E essa foto era o máximo! A legenda da foto era: “Mulher que conseguiu escapar do Estado Islâmico atravessa a fronteira da Síria com o Curdistão”. E eu nunca tinha ouvido falar em Curdistão. Eu fiquei pensando se era um país que eu não conhecia, achando estranho, porque eu gosto de mapas, mas eu não fazia ideia do que era isso.

A imagem que motivou toda essa jornada (Infelizmente não sabemos de quem é para dar os créditos)
A imagem que motivou toda essa jornada (Infelizmente não sabemos o autor para dar os créditos)

O Curdistão é mais um conceito que um país mesmo, não?

Na verdade, o Curdistão é todo o espaço que os curdos ocupam antes dos países chamarem Iraque, Síria etc. Ele existe muito antes que os países. Mas eu nem sabia disso. A única informação que eu tinha dos curdos, que eu tinha ouvido falar na época, é que o Saddam Hussein massacrava esse povo. E eu fui pesquisar porque eu achei impressionante que as mulheres tivessem a liberdade que essa mulher tinha, porque ela tira o véu inclusive da cabeça. E eu sei que muitos países no Oriente Médio exigem que você use o véu. Eu fiquei intrigada e fui pesquisar. E descobri que, no Iraque e na Síria, toda a região do Curdistão é formada por estados basicamente autônomos. Oficialmente no Iraque, por exemplo, na região que eu fui, eu não precisei de visto, porque eu entrei por Erbil, que é a capital do Curdistão iraquiano. Se eu tivesse entrado por Bagdá, eu precisaria. Então os territórios curdos funcionam de forma bem autônoma em relação ao país que ele pertence.

Mas essa região tem um movimento separatista?

Tem movimento separatista dos curdos, sim. Mas não é divulgado porque não há interesse internacional na separação. O surgimento do EI mudou um pouco isso, porque depois que os Estados Unidos ocupou o Iraque, os curdos ganharam mais autonomia. Os curdos do Iraque. Porque mesmo entre os curdos há divisões, é uma coisa louca. Aí os curdos da Síria, depois que começou a Primavera Árabe, também ganharam mais autonomia. Só que o governo do Curdistão na Síria é completamente diferente do iraquiano. O do Iraque é considerado de direita, alinhado aos interesses dos Estados Unidos, e o da Síria não. É um modelo muito diferente de governo. Eles dividem mais o poder, é um poder mais horizontal. Não é hierárquico como numa democracia que a gente conhece. Mas não foi isso que me chamou a atenção, tanto é que eu não fui para a Síria, até porque é muito arriscado ir para lá agora. Eu sou louca, mas nem tanto. Fui para o Iraque, porque eu queria conhecer as mulheres. Tanto no Iraque, quanto na Síria e na Turquia, as mulheres curdas tem muita voz, independentemente se muçulmanas ou cristãs ou judias, elas falam de igual para igual em algumas áreas. Na Síria, isso ocorre em todas as áreas. Onde tem um homem com poder, tem que ter uma mulher com poder igual. Ponto. No Iraque não é bem assim, mas as mulheres estão presentes no exército e também como advogadas, brigando contra crimes de honra, que ainda é um problema sério no Oriente Médio.

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Por acaso, há pouco tempo, eu estava lendo sobre as mulheres da Arábia Saudita, que é o pior lugar do mundo para elas. Lá, as mulheres estão se organizando em protestos pacíficos como pelo direito de dirigir, com uso de selfies e redes sociais…

É um movimento de resistência. Tem isso no Irã, mulheres que fazem esse trabalho em redes sociais, brigando para cair a obrigatoriedade da hijab, o véu. É incrível porque elas não lutam só porque elas não querem usar o véu, mas porque elas querem usar o véu se isso representar uma escolha com base na fé delas, que seja uma forma de louvor ao deus delas, e não uma lei. E é incrível a defesa que elas usam, você percebe que elas estão mexendo com algo muito grande. Eu comecei a pesquisar e descobri que em vários países do Oriente Médio existem vários movimentos de mulheres e meninas, que é o que me interessa mais, que estão mudando a realidade. No meio da guerra, numa disputa absolutamente sangrenta, você tem mulheres que se levantam e dizem: “Não vamos aceitar que crimes de honra não sejam julgados da forma correta, não vamos aceitar que o EI domine tudo.” Então elas foram para a linha de frente, o que é fascinante.

Justo agora, em que temos movimentos feministas crescendo cada vez mais, que as mulheres estão batalhando por todos seus direitos, temos casos como o das turistas argentinas assassinadas no Equador, por estarem desacompanhadas. E você fez uma coisa ainda mais arriscada, viajando totalmente sozinha, indo para um lugar onde a situação da mulher é muito mais delicada, para encontrar mulheres fortes e batalhadoras.

Eu fiquei muito chateada com a história das argentinas. Isso me deixou realmente mal, porque eu sou uma mulher que sempre viajou sozinha e é absurdo que tentem intimidar a gente, que tentem prender a gente em qualquer tipo de regra. Então eu acho que a melhor resposta – a melhor homenagem para todas as mulheres que já sofreram qualquer tipo de assédio – é continuar viajando sempre. É como disse aquela estudante paraguaia que escreveu uma carta para essas meninas: uma hora não vai haver mais sacos plásticos para todas nós. É muito triste, é muito violento falar esse tipo de coisa, mas é a verdade. Eu acho que não dá para deixar se intimidar porque o mundo é perigoso. Todo lugar é perigoso mesmo, mas se a gente tiver mais contato, se formarmos uma rede de apoio, conhecendo outras meninas viajando e conversando e sabendo sobre a realidade delas, que é o turismo de empatia… O turismo de empatia é um conceito que eu desenvolvi nessa viagem (claro que existem outras milhares de pessoas que praticaram isso antes de mim), mas eu nunca tinha ouvido um conceito de definisse esse tipo de experiência.  É quando você embarca para conhecer outros tipos de pessoas, para conviver com elas e ver como elas enxergam o mundo e também como elas transformam o mundo diariamente. Era isso que eu queria na minha viagem.

Encontro com o consul do Brasil no Curdistão iraquiano
Encontro com o cônsul do Brasil no Curdistão iraquiano

O turismo de empatia é uma ideia que sempre esteve aí, mas que quando recebe um nome, acabamos validando-o como conceito. Eu queria justamente saber como é que se entra em uma aventura desse tipo. Como se descobre aonde se deve ir, até que ponto é seguro, como se preparar… Porque é muito diferente de ir para fazer um trabalho voluntário, que tem o esquema pronto, com lugar, trabalho, alojamento. Eles montam a estrutura para você. O seu caso é uma viagem, com uma série de acasos que podem acontecer. Como se sabe que é realmente seguro entrar em uma dessas?

Eu queria conhecer essas mulheres especificamente no início, mas isso mudou ao longo da viagem, entender como elas vivem, como elas pensam, e como elas estão transformando o mundo. Não era uma viagem de trabalho voluntário, não era de turismo normal. Apesar de eu ter aproveitado muito, principalmente a Turquia e a Jordânia. A parte de turismo da Jordânia é fantástica, e eu acho extremamente seguro, não vejo como um destino arriscado para ninguém. Foi isso, no início eu queria conviver, entender, aprender, respirar o mesmo ar que essas mulheres. Só que, para deixar a viagem mais segura (porque infelizmente a gente sabe que não é muito seguro) eu entrei em contato com missionários. Eu sou cristã e entrei em contato com missionários que atuam no Oriente Médio, com projetos seculares humanitários sem vínculo religioso, para que eles pudessem me receber e para que eu tivesse alguém para quem ligar em cada país que eu fosse. Esse foi o motivo pelo qual eu não fui ao Irã. Eu não consegui nenhuma resposta dos projetos com que entrei em contato, porque a internet é controlada lá.

A primeira coisa é que o turismo de empatia não nasce pelo destino. Você não decide ir para o Iraque ver o que tem lá, mas sim você quer conhecer as meninas que estão fazendo isso ou aquilo. Onde estão elas? Você pode fazer isso dentro do Brasil. Por exemplo: quero conhecer uma comunidade quilombola, quero entender a história quilombola no país. Onde eu posso ir e com quem posso conversar? Então a curiosidade parte de um grupo, de pessoas, não do lugar. Visto isso, você deve pensar quem tem informações para lhe dar sobre o que você quer saber previamente. Não dá para você embarcar numa viagem dessas na semana que vem. Você precisa se preparar, saber onde você está pisando, até para você saber respeitar a cultura local, para você conseguir absorver aquilo que você vai vivenciar, para entender melhor. Na minha viagem, eu comecei a pesquisar notícias, livros, bem antes, para ver se eu teria estrutura mental para aguentar. Eu nunca tinha estado em um país em guerra. E depois eu comecei a entrar em contato com pessoas que vivem lá, através dos missionários, que era a rede mais segura e confiável que eu tinha para o meu trabalho. Inclusive eu conheci brasileiros que vivem lá e isso foi muito legal. Graças a deus que elas existem, porque elas me ajudaram bastante nessa primeira fase. Eu falei sobre as minhas intenções, que não eram religiosas, que eram mais culturais. E eles me deram informações preciosas. Por exemplo, o cara brasileiro que vive no Iraque, que tem uma escolinha de futebol para refugiados, não aceitou me receber na casa dele sozinha. Se fosse meu marido junto, ele me receberia, mas sozinha não, porque isso ia pegar muito mal com os vizinhos. E eu podia não conseguir aproveitar a viagem com ele, porque nós não poderíamos sair juntos, fato considerado grave na cultura local. Então eu procurei e achei um lugar no Airbnb, no Iraque! Eu fiquei com uma menina canadense que estava trabalhando com projetos da ONU lá, e com uma iraniana que também trabalhava lá. E foi a melhor escolha. No fim, o meu marido me encontrou no meio do caminho, mas foi muito bom. Eu acho que, nesses cenários de guerra, é muito melhor ficar em casa do que em hotel, que é sempre um alvo, por ter muito estrangeiro.

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E eu acho que você também acaba perdendo um pouco da experiência…

Sim. Na Jordânia eu também fiquei com esse grupo que tem um trabalho humanitário e que são missionários cristãos, contra quem eu tinha preconceito. Eu não sabia se ia aguentar ficar com eles porque a gente tem aquela imagem da pessoa passando fome e o sujeito está batendo com a bíblia na cabeça dela para ela se converter. Mas eu fiquei na casa deles e foi ótimo. Até porque eles nem podem fazer isso lá porque no Oriente Médio todo, praticamente, o proselitismo é crime. Não pode falar com uma pessoa sobre uma religião que não seja a dela. Você não pode chegar e falar de Jesus para um muçulmano, e ele também não pode tentar convertê-lo. E eu achei bom não existir essa exploração da fé em um cenário tão cheio de carências sociais. Eles faziam só trabalhos sociais fora da igreja. Tinha o culto na igreja, mas fora dela, eram só trabalhos tipo centro médico e odontológico, visitas às casas dos refugiados para saber se estava tudo bem com comida, roupa, se tinha alguma coisa que o projeto podia ajudar. E nessas visitas que eu acompanhava, eu conheci mulheres e meninas que eu acho que podem ser tão revolucionárias como são as que já se levantaram e já estão brigando por igualdade. Tem uma geração inteira lá de meninas e mulheres refugiadas, sírias e iraquianas, que vão ficar solteiras ou viúvas, porque os homens estão morrendo na guerra ou fugindo para a Europa. Dificilmente uma mulher sozinha vai para lá, elas normalmente só vão se forem casadas ou com o pai… Elas ficam mais no Oriente Médio que os homens.

Isso vai gerar uma geração muito específica, que vai ter que encontrar formas de progredir.

Exato. Pela primeira vez, para a maioria das mulheres, eu acredito, elas vão poder decidir sobre o próprio destino. Não vai ter um pai, um marido, um irmão mais velho que decida sobre a vida delas. Só que não adianta nada você ter uma geração que pode decidir seu destino, mas que não tenha opções para tanto. Da mesma forma do que aconteceu com as mulheres depois da Segunda Guerra, esse momento está agora lá no Oriente Médio. Eu acho que a gente tem que aproveitar para apoiar, porque com mulheres mais empoderadas, mais à frente da própria vida e do país, você pode mudar o rumo da história. Eu acho muito difícil, se não improvável, isso acontecer através de armas, de força bélica. Eu achei isso fascinante e chamou minha atenção, me fazendo desviar um pouco do objetivo inicial. Eu fiquei muito mais focada nas refugiadas e suas histórias de perda, sonhos etc. do que nas mulheres que já estavam “liberadas”. Isso foi o que eu trouxe para o Brasil, pensando o que poderia fazer para ajudar.

Escola de futebol de um brasileiro no Iraque
Escola de futebol de um brasileiro no Iraque

Você acha que só o fato de trazer esse tipo de informação para a nossa realidade, que é totalmente desconectada, levando em conta que a gente recebe informações de lá através da imprensa… só de você jogar uma luz sobre essas pessoas que estão lá em um limbo absoluto, só pelo fato de mostrar a realidade dessas pessoas, não é uma forma de ajuda?

Sem dúvida. Eu não tinha ideia de livro nenhum. Isso nasceu depois, enquanto eu estava viajando, mas bem depois de eu passar pelo campo de refugiados iraquianos, onde fiquei muito triste e pensando como eu poderia ajudar. Eu não queria juntar só dinheiro. Eu podia fazer uma vaquinha entre amigos e mandar dinheiro para lá, quase o mesmo valor que eu consegui levantar com o livro. Mas eu queria que as pessoas não doassem por culpa, por dó. Eu queria que elas se envolvessem, que elas sentissem mesmo empatia, que elas pensassem que, se elas estivessem nessa situação, que elas gostariam que alguém lesse a história delas, que alguém rezasse por elas. Então o livro veio para isso, baseado em um diário de viagem que eu fazia para mandar para a minha família, para eles ficarem um pouco mais calmos (ou não), mas não era a intenção publicá-lo. Depois eu me dei conta de que é importante, que eu quero que as pessoas conheçam essas histórias. Eu quero que as pessoas pensem o que podem fazer para ajudar. Eu também fiquei muito inquieta com essa coisa das mulheres e decidi voltar para o Oriente Médio agora em maio para levar um projeto que eu faço com meninas de São Paulo, da periferia, que chama Cartas para o Futuro. O Cartas para o Futuro no Oriente Médio pretende conectar meninas refugiadas com mulheres bem sucedidas (no sentido de que realizam algo) do mundo. Por exemplo, já temos um grupo de mulheres da Bósnia, que foram para os EUA quando a guerra explodiu no Leste Europeu, e que querem escrever para as meninas que vivem hoje em campos de refugiados, para compartilhar como é a vida após esse período e ajudá-las a acreditar que vão conquistar seus sonhos, sabe?

Então, vou voltar para o Oriente Médio em maio para isso e ficar dois meses. Vamos fazer um protótipo na verdade e, depois de validado, tentar ampliar para outros países. Em junho, também vou fazer um projeto com o Kobra (grafiteiro) lá, trabalhando a temática da conciliação através de brincadeiras infantis que não exijam “objetos”. Por exemplo, amarelinha, ciranda, passa-anel (com pedrinha). A ideia é a gente compartilhar nossas brincadeiras e aprender as brincadeiras locais. E a cada novo destino (ficaremos um mês fazendo isso), compartilhar o que aprendemos no anterior, com ele pintando os painéis inspirados nisso também, claro.

Só homens
Só homens

Os campos de refugiados são construídos em geral com a ideia de durarem de 1 a 3 anos, mas em muitos lugares do mundo, tem gerações inteiras que nasceram neles, que já estão lá há mais de 30 anos. Isso quer dizer gerações inteiras sem qualquer tipo de lazer, acesso à educação, liberdades individuais etc. E também juntar um caminhão de brinquedos não resolve nada, porque alguns poucos são beneficiados pontualmente e pronto.

Exato. É muita gente. A nossa ideia é fazer os painéis nas capitais (Amã, Tel Aviv e Erbil), que lembrem as crianças refugiadas de toda a região, brincando juntas.

Você pensa que, se mais gente começar a frequentar lugares como esses, existe a possibilidade de se gerar um movimento de estímulo de qualidade de vida para essas pessoas? Quero dizer, você acha que a simples visita de pessoas do mundo todo pode fazer a diferença?

Eu acho que quanto mais pessoas se aproximarem dessa realidade (não vale ver dentro de um carro com o vidro fechado, sabe?), mais conexões vão surgir e com isso novas ideias para solucionar velhos problemas ou, ao menos, para estancar a dor. Há um texto que eu escrevi nessa linha.

Eu acho que o turismo pode nos ajudar a ampliar os nossos horizontes sempre. Resta saber se nós estamos dispostos a, através dele, ampliar os horizontes de outras pessoas também. O turismo de empatia nos convida a compartilhar tempo, espaço e a história com os outros, sabe? Não apenas a observá-los. Isso exige coragem e uma coisa que é super rara hoje em dia: presença. Temos que estar ali, 100% presentes, para conseguir viver plenamente esse tipo de experiência.

O turismo de empatia pode virar uma tendência? Com mais e mais pessoas aderindo? E será que até o excesso de gente indo não pode transformar a experiência em um tipo de zoológico da vida real? Porque sempre aparecem os burocratas, os mercenários e os turistas apenas curiosos. Fico pensando em tribos indígenas, mulheres girafa, sabe essas coisas?

Eu sou suspeita, mas tenho certeza de que vale a pena, porque pode transformá-lo e aproximá-lo dos seus próprios sonhos. Você deixa de viver o roteiro pré-definido. Por isso eu ressalto, turismo de empatia não é “safari humano”, em que você vai olhar de forma distanciada e protegida uma realidade diferente da sua. Turismo de empatia é você descer do carro, tirar seus sapatos, cumprimentar as pessoas, sentar no chão com elas, ouvir suas histórias, tentar entender o contexto em que elas vivem, brincar com as crianças, tomar litros de chá – mesmo sabendo que o açúcar pode fazer falta para a família, mas que não aceitar seria extremamente ofensivo… Acho que muita gente já faz turismo de empatia – várias me escreveram contando suas experiências – mas não sabiam como nomear isso. Agora que existe um conceito que o define, acredito que a tendência é que mais pessoas o façam e o reconheçam. Como ele dá trabalho – se não der, tem algo errado -, acredito que não teremos grandes excursões para isso não. (risos)

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Eu recentemente entrevistei o Facundo Guerra e ele falou sobre a diferença entre gente que viaja para se transformar, para contestar as próprias visões de mundo, e gente que vai só para confirmar suas próprias identidades e convicções a partir do contraste com o diferente. O turismo de empatia é o extremo do primeiro tipo. Como convencer as pessoas a encararem esse tipo de desafio, saírem da própria bolha e olharem para o outro? Acha que isso é possível? Ou você acha que quem é, é, e quem não é, nunca vai ser?

Difícil essa pergunta! Eu acho que todo mundo que tem curiosidade, mesmo que superficial, sobre o outro, pode embarcar em uma viagem de empatia. Porque acredito no poder que um questionamento tem de nos tirar da nossa zona de conforto. O que é improvável é que alguém que só construa muros, e tenha medo de pontes, embarque nesse tipo de turismo. Mas como boa romântica, tenho fé que relatos de viagem que apresentem a riqueza desse tipo de experiência, as cores, sabores, sentimentos e perfumes que isso agrega à sua vida, podem ajudar a inquietar até mesmo quem está do outro lado do muro… Mas é um conceito novo, então, não tenho uma resposta 100% certa sobre isso.

Eu sempre penso muito que todo o conflito histórico no Oriente Médio, por mais que tenha esse cunho religioso, na verdade é, e sempre foi, motivado por dinheiro. Naquela região, principalmente por conta do petróleo. Mas agora o petróleo está no preço mais baixo já alcançado, os próprios países extratores estão em desacordo, e o mundo inteiro está mobilizado procurando fontes de energia alternativas (até a China!)

Sim, a religião é o de menos, e olha que eu sou cristã, a minoria perseguida lá agora (mas que também já perseguiu outros). É sobre dinheiro e poder. Por isso eu acho tão importante a entrada real das mulheres nesse cenário, elas não foram criadas para desejar e servir ao dinheiro/poder e podem mudar o rumo da história.

Mercado de Erbil
Mercado de Erbil

Na sua opinião existe saída para o conflito? Acha que ele vai acabar? Ou mesmo com a saída do problema do dinheiro, a religião vai continuar sendo um entrave?

Acho que as mulheres podem mudar o rumo desse conflito e até acabar com ele, mas não será hoje ou amanhã, é um trabalho de médio prazo e que precisa de apoio externo. Assim como o trabalho de reconciliação entre os povos da região, não só entre as diferentes religiões. O combate ao radicalismo não deve se concentrar só no Oriente Médio ou só nos muçulmanos. Há radicais religiosos aqui no Brasil que devem ser combatidos também, há radicalismo na política, enfim, acho que nós precisamos trabalhar e entender mais a empatia, para ter um mundo mais pacífico e justo. Discurso de miss, mas eu acredito nisso. (risos)

<3 Então, só para terminar: já está programando fazer uma incursão dessas em algum outro ponto do mundo?

Não, por enquanto eu vou me focar no Oriente Médio, queria conhecer outros países da região, Líbano, Irã e Afeganistão. E quero, assim que possível, ir para a África também, mas acho que ficará para o próximo ano.

Vai conhecer algum campo de refugiados na Europa?

Não tenho planos de Europa por enquanto. Sei de trabalhos incríveis na Holanda. Mas o tempo e o dinheiro são limitados.

Uma hora rola, com um trabalho lindo desses, não tem como não rolar.
Amém! :)

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Data

29 de March, 2016

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