Roskilde, um festival que vai muito além da música

Quem escreveu

Vanessa Mathias

Data

11 de July, 2016

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The Orange Feeling. Esse é a expressão que os dinamarqueses traduzem o sentimento de estar no Roskilde  – que só quem já foi sabe o que é. E escrevo aqui cansada, com gripe e com aquela leve depressão pós-festival, o bichinho do Orange Feeling também me picou. É uma semana inesquecível e surpreendente. Para o bem, e para o mal.

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Foto Divulgação

Se pudesse expressar em duas palavras o que caracteriza o festival, seriam duas: permissividade e amistosidade. Permissividade? Tudo pode. Ou quase tudo pode. É o momento que os dinamarqueses se permitem tudo aquilo que gostariam de fazer. Pode fazer corrida pelado, pode pescar, pode levar o que quiser para beber (e inclusive entrar com bebida no festival). Pode fazer xixi onde você bem entender (independente do gênero). Pode jogar lixo onde quiser, pode também ficar em lugar limpinho. Macarena a 100 decibéis? Pode.  Não trocar de roupa 8 dias? Problema seu. Só não pode impedir a liberdade do outro coleguinha.

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Foto: Joe Kniesek

Já a amistosidade é impressionante e incomparável a qualquer lugar que já fui. Se você sorrir para alguém, em segundos acaba em uma cadeira com um drink na mão. Logo, um amigo. Isso sem nem considerar que todo mundo é lindo… ou esse DNA é realmente abençoado ou a agência que fez o casting dos participantes do festival é realmente muito boa.

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São 4 dias de “esquenta” antes de efetivamente começar o festival de música. E por esquenta entende-se atividades e festas non-stop por 4 dias, além dos 4 dias de música.

Uma cidade em 8 dias

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Roskilde Festival Area – Divulgação

Roskilde é mais do que um festival. É uma cidade construída para durar 8 dias. Incrivelmente, é a terceira cidade mais populosa da Dinamarca: são 130.000 pessoas. Desses, 32.000 são voluntários – ou seja, de cada 4 pessoas que você conhece, uma está trabalhando no festival. E como boa cidade, Roskilde também tem seus bairros, seus guetos, suas tribos.

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O centro da cidade é Dream City, em geral ocupada por veteranos no festival.  Lá é o espaço principal do acampamentos, onde você encontra a prefeitura, que cuida de toda a Dream City. O acampamento que serve café todas as manhãs, o acampamento com jogos de tabuleiro, a Bodega – o “bar” regional…

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…o acampamento que serve vinho rosé todas as tardes, várias pistas de dança, e o Postkilde – o correio regional, que entrega jornal e manda cartas entre os acampamentos.

FullSizeRender (20) E foi exatamente o Postkilde que me adotou, após ter me conectado através de conhecidos em comum. E fez toda a diferença. Vantagens? Morar no centrão e experienciar a real-Roskilde, com trinta e três dinamarqueses tão fofos quanto animados. Como bom centrão, lá é também onde aparecem as primeiras pessoas jogadas no chão à noite, mictórios ao “ar livre” e um combinado de sons tão eclético, atemporal e animado quanto uma Augusta às 5 da manhã em 1996. 

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Já Silent & Clean é a área meio subúrbio do Roskilde, para aqueles que já cresceram e preferem uma área limpa e silenciosa. Lá você pode nadar e até pescar em um lago. Na Clean Out Loud, a pista de dança é liberada a noite inteira, mas jogar as coisas no chão é mal visto. Settle n`Share é a área mais colaborativa do festival, que cada um dos acampamentos oferece algo ao outro.

E se gerenciar uma cidade tem desafios, imagina uma cidade que só existe por 8 dias? A estrutura é impressionante. Para começar, uma estação de trem dentro do festival, que só funciona uma vez por ano. Ou seja, você pode sim ir e voltar de Copenhagen em 20 minutos se quiser.

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Além disso, milhares de projetos são testados em Roskilde, como se fosse uma feira de ciências gigante. No meu tour entre os projetos, alguns o que mais me impressionaram: o teste de uma geladeira que transforma xixi em material para gelar breja. Seria essa a solução para a cerveja quente em Roskilde?  Em outro, uma seção para fabricar seus próprios instrumentos musicais  (eu fiz uma flauta feita de cenoura).

A alimentação é a grande estrela da estrutura do festival: Roskilde ganhou várias vezes o prêmio de “melhor comida de festival”. Além de terem metas (até 2018 eles pretendem ter 100% dos ingredientes orgânicos), mais de 50% da receita vai para caridade.  Entre alguns destaques, um dos restaurantes era do co-fundador do Noma, e mais dois estandes eram chef Michelin. Na pequena Food Court, eles “testam” boas ideias em pequenas proporções, antes de “promoverem” o estande para dentro do festival. O Artic Meat, por exemplo, é feito 100% pro-bono, com os ingredientes vindos da Groenlândia.

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Imagine você fazer sua própria comida dentro do festival? Em um clima “Masterchef”, você tem 1 hora para escolher todos os ingredientes orgânicos em um mini-mercado e fazer sua comida, com direito a assistentes de cozinha: tudo isso por 32 reais. Claro que me empolguei com o desafio e fiz em uma hora macarrão com massa fresca com manteiga e sálvia, peixe com mexilhão, salada grega e morango com merengue!

Foto Ivo Nelopes/ Madkulturen

Em outra obra de arte, tonéis viraram fornos de pizza, e era apenas levar seu recheio favorito que a massa, queijo e tomate estavam por lá. Além disso, bares de gin-tônica, cerveja artesanal, comida tailandesa, além de claro, salsichas de todos os gostos, tamanhos e fomes.

Muito além de música: Sustentabilidade, Igualdade e Inovação

O grande diferencial do Roskilde é ser um festival também de música, mas não é só isso. Roskilde tem área para arte, cultura de rua, workshops, e palestras dos assuntos mais diferentes e inusitados. De documentários de pessoas em situação de rua a filmes exibindo “Clube dos 5” em VHS. De guerra de balões de água a discussão sobre impostos e ocupação do espaço público. De 100 músicas em 100 minutos com 100 goles de cerveja a um workshop de como virar uma drag queen. De caças ao tesouro a acro yoga.

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Foto Flickr Joe Kniesek

Particularmente comecei com yoga quase todas as manhãs, para começar bem o dia.

Um dos mais interessantes foi o encontro de 50 policiais com 50 moradores de Christiania, para confrontar percepções de temas como legalidade, respeito e liberdade de escolha.

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Em um palco lotado digno de banda grande, Edward Snowden falou ao vivo no Roskilde desde a Rússia, seu local de asilo político. Ele comentou que os governos trabalham em um estilo maquiavélico nos quais os fins justificam os meios, e que a ética atual não permite mais isso – ao menos, não devemos permitir. Snowden falou sobre o quanto os direitos humanos estão sendo ameaçados, citando o exemplo dos refugiados, que nos fazem questionar sobre o direito de ir e vir.

Foto Roskilde Divulgação
Foto Roskilde Divulgação

Se nós achamos que igualdade de gêneros é assunto quente só no Brasil, não é não. Aliás, Rising City, na foto acima, é onde aconteciam a maior parte das atividades no track de igualdade.  O tema entre 2016 e 2018 sempre envolverá algum assunto sobre direitos humanos, e “Stand Up for your rights” foi o slogan de 2016. Entre os cursos, havia um ensinando como “flertar”. Peguei apenas o fim, mas tinha principalmente a ver como se dar bem sem desrespeitar o coleguinha. (Aproveito para mencionar que minha aula de flerte foi bem pouco eficaz para o resto do festival…)

Participei também de um workshop sobre resiliência, dado pelo Copenhagen Institute for Future Studies. Lá foi discutida a importância da resiliência para o sucesso pessoal e profissional, e como treiná-la, através de exercícios físicos, mentais e uma estrutura de pensamento equilibrada.

Já em sustentabilidade, a meta do festival é chegar em 100% de reaproveitamento, mas estão ainda longe disso. Várias pessoas ganham a vida catando latinhas ou plásticos, que valem 1 coroa dinamarquesa a unidade. Para você ter ideia, uma cerveja custa 20 coroas, ou seja, com pouco esforço, se você realmente for dedicado, pode beber de graça o festival inteiro.

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No Art Zone, o conceito é arte para ser usada, sentada, tocada. Uma das que mais achei interessantes foi uma réplica das lojas da Prada, Tod’s e Miu Miu, do grupo de artistas Superflex, que fizeram áreas VIP para coletores de latinha (em geral, refugiados ou estrangeiros que vem apenas para isso ao festival).  O objetivo era refletir sobre a diferença de classes, prioridades e pessoas.

Finalmente, Música

(AP Photo/POLFOTO, Thomas Borberg) DENMARK OUT
(AP Photo/POLFOTO, Thomas Borberg) DENMARK OUT

Algo bem peculiar ao Roskilde é a música começar quando o festival já está pela metade. Já aprendemos muito, já fizemos yoga, já vimos filme, já dançamos até o sol nascer algumas noites. O festival abre e multiplica: não só em área, mas em quantidade de pessoas que chegam para a música. Você já sabe que algo lá é diferente pela escolha da abertura do festival: a Orchestra of Syrian Music abre o festival com um encontro de refugiados novamente unidos.

Foto Mark Allan
Foto Mark Allan

Eles começaram uma série de shows, que incluíram LCD Soundsytem, MØ,  Ghost , Neil Young,  Tame Impala,  Floating Points, Frank Carter & The Rattlesnakes, Savages, e muito mais.

Youtube - Rasmus RosenquistYoutube – Rasmus RosenquistO que é mais interessante é que os shows que mais bombaram entre os dinamarqueses eram bem diferentes entre os que nós acreditamos ser os maiores. Por ser um festival bastante eclético, alguns dos shows mais esperados eram Red Hot Chili Peppers, os rappers Macklemore & Ryan Lewis  e Wiz Khalifa, a paródia rockeira norte americana Tenacious D, ou o rock clássico dinamarquês Dizzy Mizz Lizzy. Até me aventurei em alguns desses, e a energia é contagiante. Mas, certamente, não é nenhum que veria novamente.

Portanto vamos ao que realmente me surpreendeu. Para começar, LCD Soundsystem nem é páreo na comparação, visto o lugar guardado dentro desse pequeno coração nostálgico. Vi lá na frente do palco, já que é só encarar uma filinha e há barreiras de contenção (desde o acidente do show do Pearl Jam em Roskilde 11 anos atrás). O show deles foi bem próximo ao Primavera Sound.

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Divulgação Roskilde

Neil Young foi apenas amor.  Em um pôr do sol maravilhoso (e com uma idade média de pessoas consideravelmente mais velha), tocou mais de duas horas suas músicas cheias de ativismo e incluiu hits como ‘Alabama’, ‘After The Gold Rush, ‘Heart Of Gold’, e ‘The Needle And The Damage Done’.

Foto: Rockphoto
Foto: Rockphoto

Savages tocou em um dos palcos menores, e até a sua segunda música, menos de um quarto da audiência estava completa. Mas logo curiosos foram surgindo, e suas guitarras únicas fizeram com que esse fosse um shows mais épicos do festival.

MØ honrou sua herança dinamarquesa – assim que chegou ao palco, tudo mudou, com uma energia que não poderia ter sido maior que o show seguinte – Tame Impala. O mais legal do show do Tame Impala, que tive a sorte de ver três vezes nos últimos dois anos, foi a localização: dentro de uma tenda os efeitos especiais e pirotécnicos do show foram muito muito mais “UAU” que em palcos abertos.

Foto : Rockfoto
Foto : Rockfoto
Outro show muito legal foi dos colombianos do Bomba Estéreo, que tocaram simplesmente no palco principal do festival: o Orange Stage, levando todos os dinamarqueses a balançar a poupança.
Se eu voltaria ao Roskilde? Com certeza, principalmente, devido às pessoas.  Mas aliaria a duas ou três noites dormindo uma cama na cidade, um protetor de ouvido potente contra poluição sonora noturna, e, certamente, continuaria com um colchão inflável: o bem único e inseparável que fez esse corpinho de 37 anos sobreviver 8 dias de camping, e tudo valer a pena.

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Seu exacerbado entusiasmo pela cultura, fauna e flora dos mais diversos locais, renderam no currículo, além de experiências incríveis, MUITAS dicas úteis adquiridas arduamente em visitas a embaixadas, hospitais, delegacias e atendimento em companhias aéreas. Nas horas vagas, estuda e atua com pesquisa de tendências e inovação para instituições e marcas.

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