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Explorando cidades do nascer do sol ao fim da noite.

Na ciranda de Piracanga

Quem escreveu

Vanessa Mathias

Data

20 de January, 2016

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Crianças brincam de pega-pega no rio, jovens com a prancha de surfe admiram o nascer do sol, senhoritas tomam seu sol enquanto leem nas cadeiras reclináveis, outro grupo conversa. Aos olhos de um desavisado, pareceria até um destino de férias paradisíaco qualquer. Mas isso só até olhar um pouco mais de perto. O pega-pega das crianças era meio diferente: elas gritavam “poder do amor” ao sair correndo para abraçar as demais. Os jovens que olhavam o sol estavam em meditação antes do surfe. As senhoritas nas cadeiras reclináveis leem o novo livro do Prem Baba. E ainda: alguém do grupo comentava sobre seu processo de desapego da relação possessiva com o pai e sobre sua linha ancestral lyriana azul. É o que acontece durante um dia em Piracanga.

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Divulgação

Pode-se dizer que Piracanga é uma ecovila, ou uma comunidade escondida, ou um centro holístico de terapia. É tudo isso sim, mas é, antes de tudo, um refúgio para pessoas buscando um novo estilo de vida.  Uma amostra grátis:

A cidade mais próxima é Itacaré, a 50 minutos de estrada não pavimentada. E foi balançando em um carrinho que cheguei lá, desavisada, sabendo muito pouco sobre o lugar, apenas em busca por um período de equilíbrio, reencontro e tranquilidade para a mente. E foi isso o que encontrei, infiltrando-me aos poucos em projetos, terapias e conversas. Confesso que foi uma mistura bastante antagônica de encantamento com estranhamento.pira1

Fiquei impressionada com a diferença cultural, a organização e a estrutura. Hoje a comunidade fixa tem entre 200 a 250 pessoas, atingindo quase 400, se incluídos os hóspedes. Para se hospedar por lá, há duas opções: ficar no centro para hóspedes (pousada) ou alugar casas, cabanas e quartos de moradores aqui, para um retiro ou moradia fixa.

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Tudo começou com o sonho de Angelina, uma portuguesa ligada a 220 volts, com quem você cruza pelo lugar tirando o lixo, varrendo a cozinha, dando um curso de aura ou dando instruções na recepção. Ela queria criar um local que cuidasse de todas as pessoas que lá vivessem e respeitasse todos os outros seres. Mas é melhor ouvi-la contando a história:

https://www.youtube.com/watch?v=xvFkAkGrITA

O que é simples na teoria, na prática, é uma tarefa árdua. Envolve muitos projetos, como a escola da natureza, a escola Inkiri, o próprio centro holístico, entre mais de uma dezena. Cada projeto tem um responsável e que recebe o nome de “guardião”.

Escola da natureza

A natureza e todo o ambiente é visto em Piracanga como uma “divindade pura e vulnerável” e, por isso, alvo de zelo e cuidado, o que inclui energia, resíduos, água, criação e cultura de solo, entre outros. Minha experiência é ter vivido uma reconexão de elementos que ficam esquecidos no dia a dia. Quando chove, você fica feliz, porque o rio precisa da água. Quando tem sol também, porque lembra que terá energia. É um estado de conexão com tudo o que você fala e diz.

Energia

A maior parte da energia é produzida a partir de captação solar. Existem geradores, mas apenas para emergências. Porém, a energia é utilizada com cuidado: muitas casas não possuem geladeira e, em quase lugar nenhum, você vê ventilador, ferro de passar roupas ou qualquer outro item “desnecessário” como televisão, por exemplo. Honestamente, não senti falta de nada disso.

Banheiros secos

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De todo cuidado com a natureza, o que achei mais legal é que o seu cocô vira banana. Funciona assim: os banheiros secos foram especialmente montados para seus dejetos irem, por encanamento, até as bananeiras. Elas se alimentam de você, que se alimentou delas, completando um ciclo.

Acho interessante como não damos atenção a isso. Não falamos sobre cocô. Não assumimos a merda, por assim dizer. Lá, aos poucos, você se acostuma com esse lado menos digno do seu ser – tanto que fiquei até orgulhosa quando tinha de acionar o número 2. Ahhh, o orgulho de fazer merda! É a constatação de que somos parte integrante da natureza, de que seu “depósito” contribui para a geração de fertilidade no solo. Muito melhor do que mandá-lo para o rio Tietê, não?

Resíduos

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Todo lixo é separado. Todo mesmo. Para Santiago, que se ocupa da permacultura, “lixo é um lugar que não existe, pois jogar em algum lugar sem cuidar é exportar a responsabilidade para outra pessoa.” E é o que eles evitam, já que Piracanga consegue o impressionante número de 92% de reutilização e reciclagem do lixo. Isso significa lavar desde garrafas, até saquinhos de plástico, incluindo tudo o que é potencialmente reciclável.

Há compostagem para os resíduos orgânicos. Os vidros são usados nas construções ou reutilizados como embalagens. O metal e o plástico são usados no berçário de plantas e como matéria-prima para artesanato. Até tijolos são feitos de garrafa PET e de saquinhos plásticos. Os 8% restantes são encaminhados para o lixão de Itacaré.

Água e produtos biodegradáveis

Piracanga é abençoada por contar com um lençol freático que fornece sempre água limpa. Porém, ele é muito próximo da superfície, a apenas 2 a 4 metros de profundidade, o que obriga os visitantes e moradores a utilizarem produtos biodegradáveis. Portanto, nem leve protetor solar, xampu ou creme dental. Isso tudo está à venda na lojinha de produtos feitos pelo templo-laboratório. Acabei por me adaptar bem ao protetor solar e ao desodorante de lá, mas, quanto ao creme dental, ao xampu e ao condicionador, aconselho comprar bio e trazer de fora.

Escola Inkiri

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Foto Divulgação

A escola Inkiri é um projeto pelo qual fiquei apaixonada. As crianças são extremamente bem cuidadas em Piracanga – não é à toa que tantas grávidas e mães de filhos pequenos vão à comunidade. A Inkiri parte do princípio da escola livre, respeitando o espaço de cada criança e o seu desenvolvimento individual. Os alunos são extremamente protegidos por todos da comunidade contra as energias de interferência, julgamentos, projeções, expectativas ou qualificações.

Paulina, responsável pela escola, conta que lá as crianças criam sua própria autonomia: elas aprendem o que querem e quando querem. Atualmente a escola está trabalhando com o Pacheco, uma das maiores autoridades em escola livre, para aproximar a metodologia à da escola da ponte ou Âncora.

Resultado? Só vi crianças felizes, criadas de forma livre na comunidade. Educadas, críticas e com muita, muita personalidade.

Espaço cultural das rosas

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Divulgação

É um espaço que mistura música, dança, artes visuais, teatro e outras expressões artísticas.

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Divulgação

Todos as manhãs, é lá que acontece a meditação sonora – algo em que fiquei viciada rapidamente e de que estou sentindo falta. Eles têm os seguintes núcleos:

  • Escola de Música, Corpo e Artes – Aulas, workshops e vivências de auto-conhecimento através dessas ferramentas
  • Sala de Criação – Corte e costura, desenho, pintura, escultura;
  • Rádio Piracanga – Desenvolver o espírito comunitário;
  • Danças Circulares – Daqui vem a ciranda do título – diariamente as pessoas dão a mão umas às outras e entram em equilíbrio, simbolizando igualdade entre todos;
  • Reiki – Técnica japonesa de imposição de mãos para ativar a energia vital,
  • Encontros, Cursos e Retiros

Comida e bebida

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Foto Divulgação

Na Cozinha Alquimia, principal restaurante do Centro, a alimentação é completamente vegana, priorizando alimentos frescos, crus e orgânicos, alguns inclusive plantados por lá (não muitos, pois o solo é arenoso).

Na Ecovila, teoricamente, existe livre arbítrio: cada um cozinha o que quer. Mas, na prática, só conheci pessoas veganas ou vegetarianas. Em Piracanga, também não se vende álcool e, novamente, não conheci ninguém que consumia bebidas alcoólicas dentro da comunidade.

Como na maioria das casas não existe geladeira, as compras são feitas na feira orgânica, que acontece três vezes por semana. Ainda existe a lojinha Frutos da Terra, que oferece grãos, sementes, castanhas, frutas secas e alguns alimentos industrializados. Por último, há também o Açaí, uma lanchonete vegana e que funciona como ponto de encontro dos jovens (a “balada” de Piracanga). Para comprar o que falta por lá, a maioria dos moradores vai uma vez por semana à Itacaré.

Comi absurdamente bem lá. E preciso contar que fui a um café vegetariano, que fica na Ecovila, e passei mal depois de comer uma tapioca com queijo – só porque tinha me acostumado rapidamente com sete dias de comida vegana, sem laticínios.

Centro holístico

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No centro de terapias e curas, o estranhamento vai depender do quanto você está acostumado com pessoas desconhecidas que se abraçam, se acredita na eficiência da Reiki, ou mesmo em leitura de aura.

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Foto Divulgação

Poucas pessoas que conheço são tão céticas quanto eu. Se algo não tiver um certificado assinado pelo MIT comprovando a sua eficiência, não sou de apostar tempo ou dinheiro. Isso serve apenas como introdução para explicar minha experiência: ainda assim, sou a favor de quase todas as terapias que vi por lá.

Explico: acredito na evolução da consciência (na tradução mais literal do assunto – ampliar a consciência em relação a si, que tem a ver com seus próprios pensamentos ou sua pegada no mundo). Acredito em uma busca constante por uma mente mais tranquila, em autoconhecimento, em concentração, em foco em energia positiva para mudança.  E, se você consegue atingir seus objetivos utilizando ferramentas como leitura de aura, Reiki, respiração de renascimento ou jogando pedrinhas para o alto, não importa muito. E essa foi minha experiência, ainda iniciante nesses temas, por aquelas bandas.

Portanto fiquei muito feliz em participar das danças circulares, das vivências de música, da meditação, da ioga… Piracanga para mim tem uma cultura muito forte de utilização de símbolos que abrem portas para o desenvolvimento da intuição. E isso fica bastante claro em cursos como o de leitura de aura ou na meditação das rosas, cheio de elefantes, rosas, rinocerontes, passarinhos e estrelas. Mas novamente, essa é a minha livre interpretação dos fatos (e levaria certamente uma bronca das terapeutas/professoras se elas lessem isso).

O meu objetivo foi cumprido. Após oito dias de convivência intensa comigo mesma, consegui manter um controle maior da minha própria poluição mental.  Tomei consciência do que tira meu sono, sobre as comidas que mais me deixam bem, sobre minha fome, sobre minha relação com o café e também sobre relações com amigos e família. Consegui notar meu preconceito besta em relação a coisas que não fazem mal algum, e também a superar limites idiotas, como falar sobre sentimentos profundos com desconhecidos. E, no final da minha estadia, conseguia ver nos olhos dos recém-chegados a energia de inquietação e agito que eu mesma tinha uma semana antes.

Minha conclusão não poderia ser outra: na próxima vez, são pelo menos dois meses por lá!

Quem escreveu

Vanessa Mathias

Data

20 de January, 2016

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Vanessa Mathias

Seu exacerbado entusiasmo pela cultura, fauna e flora dos mais diversos locais, renderam no currículo, além de experiências incríveis, MUITAS dicas úteis adquiridas arduamente em visitas a embaixadas, hospitais, delegacias e atendimento em companhias aéreas. Nas horas vagas, estuda e atua com pesquisa de tendências e inovação para instituições e marcas.

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Comentários

  • Que relato maravilhos, Vanessa! Deu mta vonta de ir tbm! Bjs!
    - Mel

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