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Veneza | Visitando a Bienal de Artes

Quem escreveu

Lalai Persson

Data

05 de September, 2015

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Em 1997 eu pisei em Veneza pela primeira vez. Foi uma passagem rápida. Cheguei, almocei e fui embora. Fui injusta ao acreditar que Veneza não merecia um retorno, afinal como sentir de verdade uma cidade em apenas meio-dia? Decidi dar uma segunda chance aproveitando para visitar a Bienal de Artes. E já antecipo: valeu voltar.

A chegada, diferentemente da primeira vez, foi de avião. Alguém havia dito que o aeroporto era dentro da cidade e um táxi resolveria rapidamente o meu problema. Nota zero pra mim que não pesquisei. A única providência que tomei em relação à Veneza foi reservar um hotel por 3 noites. Logo no aeroporto me dei conta de que estava fora da cidade e táxi só se fosse de barco, o que me custaria 110 euros. Não, né?

Comprei o bilhete de ônibus + barco e segui para a cidade. Em 1 hora eu estava na porta do meu hotel. A primeira visão de Veneza não trouxe sequer uma lembrança. Foi como se eu nunca tivesse pisado na cidade. Dessa vez eu gostei dela de cara, mesmo em meio ao caos que assola Veneza durante o dia com cruzeiros ancorando em seu porto deixando por lá milhares de turistas, que vão apenas para passar o dia deixando a cidade um inferno na terra de tanta gente e calor.

Veneza é cara, por isso prepare o bolso. Foi mais cara que Paris. Preferi ficar no centro para poder me locomover facilmente para a Bienal, lembrando que Veneza tudo é feito de barco ou a pé. Acabei encontrando um hotel próximo a Rialto, no meio do burburinho. Hotel 3 estrelas localizado no 1º andar de um prédio mezzo comercial, mezzo residencial, o que dificultou encontra-lo. Tarifa? R$ 1.600,00 por 3 dias em quarto duplo (não tinha opção de quarto individual) com café da manhã. Quarto amplo, ventilado e bem equipado, janelas altas, banheiro gigantesco, wi-fi funcionando como deveria. Café da manhã no quarto, já que o hotel não possui uma área comum. Caro demais, mas era véspera do meu aniversário, então achei merecido.

Comer bem é uma saga. Apesar de ser Itália e todos afirmarem que é impossível comer mal por lá, o pior espaguete  e salada caprese que experimentei na vida foi exatamente em Veneza. E eram dois pratos que não tinham como errar. Cozinharam demais o macarrão, erraram no molho e a salada parecia um mero protótipo ruim de uma salada caprese. Para equilibrar, eu tive uma das melhores experiências gastronômicas por lá também. Fui jantar com um amigo no Campo Santa Marguerita, uma praça fora do eixo turístico, cheio de bares e restaurantes, a maioria frequentada por locais. Me deliciei com um espaguete ao vôngole e meu amigo com um peixe assado, acompanhados de um ótimo vinho, no Osteria alla Bifora. Despretensioso, ótimo atendimento e os pratos, além de bem servidos, super bem preparados.

Viajar é arriscar. Eu sempre espio guias, foursquareyelp e tripadvisor para saber se estou no lugar certo. Porém, às vezes, me dou ao luxo de apenas sentar e fazer o pedido sem ter uma prévia. Já me dei muito bem, mas também já me dei muito mal. Em Veneza é melhor consultar sempre para não errar, especialmente porque na maioria das vezes você vai pagar caro, então melhor que valha a pena. Não deixe de fugir do hotel em alguma manhã (antes das 7h, dependendo da época do ano) para ver o sol nascer numa cidade que ainda dorme. É um espetáculo incrível, inclusive porque verá a cidade ainda vazia.

Bienal de Artes é um ótimo escape durante o dia, quando a cidade ferve insanamente. O ideal são 3 dias pelo menos para visita-la com calma e absorver as reflexões que ela traz. Para quem nunca foi à Bienal, ela tem dois pontos centrais, o Giardini e o Arsenale, onde ficam os principais pavilhões; e as exposições e programações espalhadas em vários lugares da cidade. O tema dessa edição é “All the World’s Futures” (Todos os futuros do mundo), em que mostra a relação entre os artistas e a arte em relação à incerteza da situação atual no mundo, por isso espere por “vazios” e “futuro incerto” em várias obras. São 136 artistas de 53 países diferentes com muita coisa para ver. Prepare as pernocas, porque Veneza e a Bienal requerem que ela esteja em bom estado de uso. A Bienal vai até o dia 22 de Novembro, então ainda dá tempo de se programar e ir (aproveitando que Veneza no outono deve ser um pouco mais agradável que no ápice do verão).

Visitando a Bienal

Separe um dia inteiro para o Giardini, que inclui o Pavilhão Central, que merece toda uma atenção especial, e outro para a Arsenale. Em ambos é possível almoçar razoavelmente bem sem deixar as calças. Sugiro pegar um guia para cada um dos lugares. O tour dura entre 1:45 e 2h e traz uma visão peculiar da Bienal que sozinho talvez a gente não tenha. Além do Giardini e Arsenale há também diversas galerias, museus e outros espaços que também fazem parte da Bienal. Baixe o mapa aqui para montar o seu roteiro, pois a Bienal de Artes é o tipo de evento que vale estudar e se programar antes de ir.

Giardini

giardini

No Giardini fica um dos mais fotografados pavilhões, o do Japão, que é mais belo do que reflexivo, feito pela artista Chiharu Shiota. É no Giardini que fica também o pavilhão do Brasil e os meus favoritos Rússia (The Green Pavillion, Irina Nakhova), Israel (Arqueologia do Presente por Tsibi Geva), Suíça (uma instalação com água feita por Pamela Rosenkranz), Coreia (The ways of founding space & flying. Artistas: Moon Kyungwon & Jeon Jooho), instalação que me lembrou a série Black Mirror; e o Pavilhão Central com obras e instalações de diversos artistas, que é de tirar o fôlego. As instalações do inglês Jeremy Deller, que mostra de um lado fotos de trabalho escravo junto a um device da Motorola desenvolvido pela Amazon para controlar o tempo entre o manuseio e a entrega do produto, e do outro lado uma linda jukebox emitindo sons de fábrica; e as pinturas claustrofóbicas do artista japonês Tetsuya Ishida, além do “”Everything Will be Taken Away”, de Adrian Piper, que merece a visita. Eu comi uma bola e pulei o pavilhão da Austrália, que já vale a visita só pela sua arquitetura.

Arsenale

Particularmente eu gostei mais do Arsenale, que já vale a visita só pelo espaço incrível que é e teve sua construção iniciada muito antes do Brasil ser descoberto. O Arsenale é o palco principal desta 56ª Bienal de Artes de Veneza. É ali que os artistas expõem seus trabalhos individualmente e só esta área já merece horas para visita-lo. Sônia Gomes é a única artista brasileira expondo no Arsenale, ao lado das obras de Jason Moran e Lavar Munroe.

Obras de Jason Moran, Sônia Gomes e Lavar Munroe (da esq pra direita)
Obras de Jason Moran, Sônia Gomes e Lavar Munroe (da esq pra direita). Foto Inexhibit, 2015

Logo na entrada nos deparamos com uma sala iluminada com neons de Bruce Nauman e a instalação “Nymphéas (Water Lilies”, de Adel Abdessemed, que já nos prepara para o soco no estômago de tudo que vem a seguir incluindo fotografia, instalações, performance e pintura. Pode separar pelo menos 3 horas para visitar só esta parte do Arsenale, almoce e então siga para os demais pavilhões como da Albânia, Chile, Suécia, Tuvalu (siiiim, até Tuvalu, um dos menores países do mundo, tem um pavilhão pra chamar de seu), Argentina, México, África do Sul, Peru, Singapura, Turquia entre outros. Aqui também não deixe de contratar o tour, pois vale a pena.

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Bruce Nauman
Adel Abdessemed
Adel Abdessemed
Pavilhão de Tuvalu. Foto: Kristina Kulakova
Pavilhão de Tuvalu. Foto: Kristina Kulakova
"What remains is tomorrow", Pavilhão África do Sul @ Arsenale
“What remains is tomorrow”, Pavilhão África do Sul @ Arsenale

Demais locais

A Bienal de Artes está espalhada por toda a cidade, inclusive as curiosas instalações da Nova Zelândia, feita pelo artista Simon Denny, que representa o país nesta bienal, se encontram no Museu Correr, que possui um ótimo café com vista para a Piazza de San Marco. Aqui tem a lista completa de todos os lugares que participam da bienal.

Nova Zelândia por Simon Denny
Nova Zelândia por Simon Denny

Como chegar

Chegar em Veneza é fácil, tanto de trem quanto de avião. Como eu cheguei da Letônia, a única forma era avião. Como cito lá em cima, ao chegar no aeroporto compre o bilhete de ônibus + barco até o local mais perto de onde irá se hospedar. É bem simples e não tem como errar. Gastei cerca de 1 hora com todo o deslocamento da saída do aeroporto até a Ponte Rialto. Custou cerca de 10 euros. É o jeito mais fácil, a não ser que queira desembolsar 100 euros por um taxi boat só pra você.

Chegar de trem é mais fácil, já que a estação (central) Santa Lucia fica dentro da cidade. A partir dali é só descobrir qual “ônibus-barco” pegar para ir para o seu destino final. A passagem é barata custando a partir de 1,25 euros dependendo de onde vai ficar.

Como se locomover

De barco, de barco e de barco. Pegue um mapa com as estações e não tem como errar. Fuja das gôndolas a não ser que seja sonho de criança ou queira apenas atravessar um canal, quando é possível negociar a travessia por 1 ou 2 euros.

Onde ficar

Meu quarto típico veneziano no Locanda Leon Bianco
Meu quarto típico veneziano no Locanda Leon Bianco

Veneza não é muito grande e há bons lugares para se hospedar. No meu caso eu preferi ficar no meio do burburinho, o que me permitiu fazer tudo a pé, inclusive minhas visitas à bienal (1 hora andando). Há boas opções no airbnb e se prepare, pois a hotelaria em Veneza é um pouco diferente do que estamos acostumados, a não ser que você pegue um 5 estrelas. O ideal é ficar entre Cannaregio a Castello, mas não deixe de checar o mapa para ter certeza de que não está caindo em uma localização ruim.

Aqui tem uma lista bem bacana com boas opções de hospedagem para quem está indo exclusivamente para visitar a Bienal de Artes. Como citei, eu fiquei no Locanda Leon Biano, perto de Rialto. Foi caro, mas gostei do quarto, da cama, do banheiro e do café da manhã servido na cama.

Conexão

Ter wi-fi à mão salva a pele o tempo inteiro em Veneza, tanto para fugir das diversas roubadas quanto para se localizar. O gps não funciona perfeitamente, mas ainda assim consegue nos conduzir para qualquer canto que a gente quer ir, afinal Veneza é a cidade onde até os locais se perdem. É super fácil conseguir um chip. Eu paguei cerca de 15 euros por um plano da Tim, que não me deixou na mão em nenhum momento.

Onde comer

Um dos meus pratos favoritos: espaguete ao vongole
Um dos meus pratos favoritos: espaguete ao vongole

Comer bem não é uma tarefa fácil e não é fácil fugir de locais turísticos, já que Veneza é praticamente a personificação do “turismo”. Achou Paris cheio, então espere para ver Veneza de perto.

Notei que Cannaregio é onde se localizam as melhores opções para beber e comer:

Osteria alla Bifora. Campo Santa Margherita, 2930; tel: 041 5236119

La Bea Vita. Fondamenta delle Cappuccine, Cannaregio 3082; tel: 041 2759347

Osteria Ai Osti. Corte dei Pali Testori, Cannaregio 3849; tel: 041 5207993

Da Luca e Fred. Ponte delle Guglie, Cannaregio 1518; tel: 041 716170

Al Mercá para sanduíches e refeição rápida e barata. 213, Sao Paolo; tel 346 834 0660

Al Covo. Castello, 3968, Castello; tel: 041 522 3812

Riviera, caso queira um terraço com vista para o canal. Dorsoduro, 1473; tel: 041 522 7621 (sugere-se reserva)

Osteria L’anice Stellato. Fondamenta de la Sensa Cannaregio, 3272, Cannaregio; tel: 041 720744

Caso esteja hospedado em uma casa, não deixe de fazer compras de alimentos frescos no mercado Rialto.

Se você gosta de café não deixe de ir ao Cafe Del Doge, dica de um veneziano, onde se toma um bom espresso cremoso e bem forte, típico café italiano. Por lá também você vai encontrar café de diversos países do mundo, incluindo o brasileiro. Outra opção é o Dodo Cafe.

Onde bater perna

Grand Canal, Veneza. Foto: Mirelle. Cortesia shutterstock.com
Grand Canal, Veneza. Foto: Mirelle. Cortesia shutterstock.com

Veneza é a cidade para bater perna. Na cidade há muitas boas galerias de arte, lojas e museus. Não deixe de visitar o Peggy Guggenhein, que fica na área de Dorsoduro. O melhor é deixar-se se perder pelas suas ruas estreitas, entrar nas portas pequenas e ver o que há por trás delas. Foi assim que caí num ótimo bar de rock, onde só ouvi italiano à minha volta. Não deixe de comprar uma boa garrafa de vinho e sentar à beira de um canal, preferencialmente onde você possa contemplar a lua enquanto toma seu vinho sem pressa estando sozinho ou não. Foi uma das melhores coisas que fiz na cidade, já que os bares fecham relativamente cedo.

Ponte Rialto. Veneza. Foto: kavalenkava volha. Cortesia shutterstock.com
Ponte Rialto. Veneza. Foto: kavalenkava volha. Cortesia shutterstock.com

No caminho entre Rialto e a Piazza San Marco há diversas ruelas cheias de lojas locais e internacionais. Se perca por ali, entre e saia das lojas, especialmente as pequenas. Caso tenha como missão comprar uma bela máscara veneziana, por ali há uma variedade imensa.

Quem se derrete com casinhas coloridas tem que ir visitar Burano, uma ilha veneziana que fica a 1h de ônibus-barco de Rialto.

A ilha colorida Burano. Foto: kavalenkau. Cortesia shutterstock.com
A ilha colorida Burano. Foto: kavalenkau. Cortesia shutterstock.com

Leia também o post que a Gaia fez para ninguém cair nas roubadas quando visitar a cidade. Neste site há também um guia bem completo para visitar a Bienal incluindo acomodações, restaurantes, bares e a resenhas das exposições.

*Fotos: Lalai Persson

Quem escreveu

Lalai Persson

Data

05 de September, 2015

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Lalai Persson

Lalai prometeu aos 15 anos que aos 40 faria sua sonhada viagem à Europa. Aos 24 conseguiu adiantar tal sonho em 16 anos. Desde então pisou 33 vezes em Paris e não pára de contar. Não é uma exímia planejadora de viagens. Gosta mesmo é de anotar o que é imperdível, a partir daí, prefere se perder nas ruas por onde passa e tirar dicas de locais. Hoje coleciona boas histórias, perrengues e cotonetes.

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Comentários

  • Oi, Lalai! Eu também gostei mais de Veneza quando voltei :) Como é o ingresso da Bienal? O ticket dá entrada a todos os pavilhões?
    - Nanda | vontadedeviajar.com
    • Oi Nanda, a próxima Bienal rola em 2017. Eu comprei um ingresso que valia tanto para o Giardini e Arsenale, além das exposições em outros locais, mas eu tinha dois dias para fazê-lo. Existem outros tipos de pacotes, mas não lembro de cabeça.
      - Lalai Persson

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