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Turismo sustentável: os riscos do desequilíbrio ecológico

Quem escreveu

Renato Salles

Data

01 de June, 2015

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Se você estiver viajando para qualquer país do mundo, uma coisa pode ter certeza que você tem que tomar cuidado, porque a imigração vai ser muito rigorosa em qualquer um deles: o transporte de animais, plantas e sementes é absolutamente proibido, a menos que liberado por uma autoridade competente. E essa liberação é muito, muito difícil. Tanto que o transporte de qualquer coisa pode ser considerada tráfico, e responder criminalmente por tráfico, mesmo que seja de uma banana, não é nada engraçado.

Tenho um amigo que por pouco não foi deportado no momento em que pisou no solo australiano, depois de algumas muitas hora de vôo, por conta de uma bananinha inofensiva esquecida na mochila. Também tenho uma amiga canadense que mora em Nova York, que na volta do Thanksgiving na casa dos pais foi pega na fronteira dentro do trem, por trazer uma maçã para não passar fome. Essa completa neurose com a entrada de material biológico estranho em todos os países do mundo tem fundamento. Qualquer larva, bactéria, vírus, ou mesmo animaizinhos peludinhos e fofos podem causar desequilíbrios ecológicos catastróficos.

Foto: www.auspostalhistory.com/
Foto: www.auspostalhistory.com/

O caso mais famoso, que acho que todo mundo estudou na escola, é de Thomas Austin, um inglês bem idiota que queria seu hobby de caçar quando mudou para a colônia na Austrália no século XIX. Com a falta de raposas por lá, ele teve a brilhante ideia de levar duas dúzias de coelhos para a nova terra. Como os orelhudos não tem predadores naturais por lá, e se reproduzem como gremlins na piscina, em pouco tempo 24 viraram milhares. As hordas de roedores logo acabaram com os pastos naturais e avançaram sobre as plantações. Hoje estima-se que haja mais de 400 milhões de coelhinhos destruidores no país. Até uma cerca a prova de coelhos com mais de 500km foi contruída para proteger a área de um parque nacional.

A Austrália é particularmente sensível a desequilíbrios por ser uma grande ilha, e as pragas tem pouca chance de se dissipar. A mesma coisa aconteceu lá com a população de sapos-boi importada da América do Sul por produtores de cana-de-açúcar que queria combater um besouro que destruía as plantações. O inseto, que estava no cardápio gourmet do anfíbio, foi extinto, mas claro que o que sapo agora é que virou um problema.

Os desequilíbrios ecológicos acontecem em velocidade impressionante, dá para verificar todo o ciclo em uma única geração. Em 1944, a guarda costeira americana estabeleceu 19 homens em um post de apoio na Ilha de Saint Matthews, no Mar de Behring, a 300km da costa do Alasca. Para eles terem o que comer, levaram também 29 renas. Depois de alguns meses, eles fecharam a estação e foram embora, mas as renas ficaram por lá, se alimentando de um líquen que brotava por todos os lados. Treze anos depois, uma expedição visitou a ilha e encontrou mais de 1300 renas, que seis anos depois viraram 6 mil. O líquen já tinha acabado, e elas estavam agora comendo uma gramínea, mas já estavam mais magros que o normal. Em 1967, restavam apenas 42 renas, sendo o único macho estéril. Em 1980 já não havia nenhuma rena por lá.

Iguanas da Ilha Fernandina (foto: Shutterstock: Mogens Trolle)
Iguanas da Ilha Fernandina (foto: Shutterstock: Mogens Trolle)

As Ilhas Galápagos no Equador, que fizeram fama nas mãos de Charles Darwin por conta das espécies de animais endêmicas (que só existem ali), tem como maior fonte de renda o turismo. E é justamente ele que fez com que a UNESCO quase colocasse  o parque nacional na lista de patrimônios da humanidade em perigo. Nos últimos 60 anos, a população local subiu de cerca de mil para mais de 25 mil habitantes. Isso sem contar com a população temporária – ou turistas – que chega a 150 mil por ano. E os esforços para minimizar o impacto humano no habitat natural são muitos: todos os passeios tem que ser acompanhados por guias cadastrados, o tempo de permanência não pode passar de 4 horas, e o camping só é permitido em algumas das ilhas desabitadas e com restrições de quantidade de gente e tempo. A Ilha Fernandina é uma excessão. Nela, ninguém pode acampar, e só se pode visitar com autorização do exército. Além disso, se você quiser conhecê-la, tudo que for com você será revistado para eliminação de restos minerais, insetos, etc., e ainda terá que ficar 48h no congelador para matar microorganismos. Tenso!

Mas não pense que a UNESCO fica só de mimimi e parece a tia velha que não deixa as crianças encostarem nos bibelôs. No mar de Belize,  em meio aos frágeis e protegidíssimos corais, a caça é estimulada, e já existe até tour especial para exterminar peixes! Sim, exterminar, acabar com a alma de todos até que o último diga adeus a esse plano. Mas acalmem-se ativistas! Não é qualquer peixe, e sim uma colônia invasora criada pela mais pura estupidez humana. O peixe-leão vermelho é uma espécie muito exótica encontrada no Pacífico Sul e adorada para decorar aquários de água salgada. Pois essa praguinha foi vista pela primeira vez no Atlântico na região de Fort Lauderdale em 1985. Algum nécio que cansou de limpar seu aquário achou que devolver o conteúdo na praia mais próxima era uma ideia genial. A coisa piorou em 1992, quando o Furacão Andrew danificou o Aquário de Miami e mais algumas dezenas foram despejadas lá. Corta para 20 anos depois, e temos agora milhões de peixes-leão vermelho produzindo toxinas que afastam todos os predadores possíveis do Atlântico, e mais de 80 espécies nativas que viraram suas presas. Governos da Flórida e de países do Caribe declararam guerra ao peixe-leão. O governo de Belize chegou a pagar 25 dinheirinhos por peixe morto, mas o dinheiro do fundo acabou. Agora, várias agências de turismo têm passeios de caça à praga nos EUA, Belize, México e Curaçao. O bom dessa história é que chefs da região estão se especializando em quitutes feitos de carne do peixinho.

Hora do jantar (foto: Shutterstock - Ethan Daniels)
Hora do jantar (foto: Shutterstock – Ethan Daniels)

Foto do destaque: Shutterstock – Kjeld Friis

Quem escreveu

Renato Salles

Data

01 de June, 2015

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Renato Salles

Para o Renato, em qualquer boa viagem você tem que escolher bem as companhias e os mapas. Excelente arrumador de malas, ele vira um halterofilista na volta de todas as suas viagens, pois acha sempre cabe mais algum souvenir. Gosta de guardar como lembrança de cada lugar vídeos, coisas para pendurar nas paredes e histórias de perrengues. Em situações de estresse, sua recomendação é sempre tomar uma cerveja antes de tomar uma decisão importante. Afinal, nada melhor que um bom bar para conhecer a cultura de um lugar.

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    Vivemos em um mundo de opções pasteurizadas, de dualidades. O preto e o branco, o bom e o mau. Não importa se é no avião, ou na Times Square, ou o bar que você vai todo sábado. Queremos ir além. Procuramos tudo o que está no meio. Todos os cinzas. O que você conhece e eu não, e vice-versa. Entre o seu mundo e o meu.