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Turismo sustentável: os animais e a ética

Quem escreveu

Renato Salles

Data

22 de March, 2015

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No final do ano, em viagem pela Tailândia, eu decidi fazer uma visita investigativa a um dos pontos turísticos mais polêmicos do país, o Tiger Temple. Para quem não sabe, esse templo é um grande santuário a oeste de Bangkok, onde monges budistas cuidam dos fascinantes felinos e vendem entradas para visitação de turistas. Sim, eu tinha lido o texto-bomba de um jornalista que trabalhou lá como voluntário, e tinha minha consciência hesitante de ir. Mas considerei que, com um espaço como o CoP para falar do assunto mais abertamente para quem quiser pesquisar a respeito, minha visita poderia ser de alguma valia. Depois, já na minha primeira foto publicada em redes sociais, fui suavemente hostilizado por alguns amigos grandes defensores dos animais. Justo, cada um defende suas pautas caras como pode.

Mas a verdade é que observar e interagir com os animais é, já desde de remotos tempos, um negócio lucrativo. Mas qual é o limiar que torna a experiência com qualquer bicho um ato de crueldade? E até que ponto o “bichonegócio” pode ser considerado benéfico, seja por preservar espécies em extinção, seja por nos permitir aprofundar nossos conhecimentos sobre eles e assim ajudá-los? É fato que o turismo animal nunca vai acabar. Mas em tempos em que muito mais que politicamente temos que ser muito ecologicamente corretos, como sabemos se o nosso dinheirinho estrangeiro vai para comprar ração de melhor qualidade, ou simplesmente para engordar a conta de escravizadores de criaturas indefesas?

Se eu passei 15 segundos com esse tigre foi muito!
Se eu passei 15 segundos com esse tigre foi muito!

O texto sobre o Tiger Temple era contundente, mas muita coisa que lia a respeito tirava um pouco o peso da ganância humana sobre os tigres, e tive que conferir. A minha visão, pelo menos, foi muito satisfatória. É verdade, os cerca de 12 tigres que ficam disponíveis para que os turistas tirem fotos estão dopados, ausentes, e é uma pena que seja assim. Mas conversando com a Eva, uma voluntária eslovena, descobrimos que todos aqueles ao nosso alcance eram nascidos ali, em cativeiro. Além deles, cerca de 130 outros recebem todos os cuidados para ter uma vida decente, longe dos caçadores clandestinos que vendem suas partes por ninharias para a medicina chinesa. Uma passarela elevada, inclusive, foi construída recentemente para que os visitantes vejam as áreas cercadas, grandes e arborizadas, em que vivem. Outra coisa que me chamou muito a atenção é que a interação dos turistas com os tigres é absolutamente controlada: você espera em fila, um cuidador busca um visitante por vez, e ele próprio diz onde você pode sentar, onde pode encostar e tira a foto. Nada de grupos, brincadeiras, poses, nada. Senta, foto, segue adiante. A visita dura no máximo 10 minutos (depois de quase 3 horas para chegar lá!). O próprio santuário é bem rústico, mas amplo e bem cuidado. Lá também vivem alguns leões e ursos, centenas de cervos e veados, búfalos, vacas, cabras, cavalos, porcos-espinhos, pavões e muitos outros pássaros. O local é controverso, e está sempre na mira de grupos mais radicais de defesa dos animais, bem como do Departamento de Conservação da Vida Silvestre do país. Mas os monges estão lá, fazendo o trabalho que eles julgam melhor.

Mas o que me fez pensar mais sobre isso tudo foi na realidade uma experiência muito curta e traumática no dia anterior. Visitando as ruínas da cidade de Ayutthaya, chegamos a um posto de ‘aluguel de elefantes’ para passear. Ver os coitados andando com uma pesada estrutura de ferro nas costas e os turistas desavisados tirando selfies em cima já era deprimente. Na tenda, dois elefantes acorrentados pela perna faziam truques como pegar notas de dinheiro com a tromba e dar uma abaixadinha para agradecer, enquanto levavam pequenas chibatadas (que pudemos ver) dos treinadores. Deprimente. Corremos de lá em 2 minutos. O meu limite para turismo com animais, acho, é vê-los trabalhando. Fico imaginado as muitas horas em que criaturas sem raciocínio lógico são forçadas a repetir as mesmas ações, exaustivamente, até sair tudo certo, e em troca recebem o que? Alimento? Ficariam sem se não o fizessem? Não aceito.

Talvez esse seja um dos motivos pelo qual, aos 8 anos, eu notifiquei a minha mãe e me desgarrei da excursão na minha primeira visita à Sea World. Voltei para o hotel sozinho e passei a tarde na piscina (calma, o hotel ficava do outro lado do estacionamento). Desde então, nunca pisei mais lá. O famoso parque americano também não está livre das acusações contundentes, e o recente documentário Blackfish, mostrando o tratamento dado às orcas teve um resultado fatal nas filas diárias. No final de 2014, o CEO renunciou, depois da crise financeira que se instalou.

Saber quais instituções visitar, quais realmente usam o dinheiro dos turistas para investir na preservação e na qualidade de vida dos animais é muito difícil. O ser humano, infelizmente, é um animalzinho mesquinho e ganancioso que consegue deturpar até as melhores das intenções. Mas não tem muito para onde fugir. O ideal é sempre pesquisar em sites especializados a respeito da reputação dos centros, por exemplo aqui e aqui, e claro, seguir suas convicções. Sempre existe a luz no fim do túnel, e recentes ações tem me deixado bastante feliz. O Kangaroo Sactuary em Alice Springs, por exemplo, é um santuário criado pelo australiano Chris Barns para resgatar e cuidar de bebês-canguru orfãos encontrados no interior do país, depois de seus pais serem mortos atropelados nas estradas. Alguns foram encontrados inclusive dentro da bolsa da mãe morta. Outra ainda mais simples, e tão próxima do nosso dia-a-dia, é do hotel Aloft Asheville Downtown, na Carolina do Norte, junto com a ONG Charlie’s Angels Animal Rescue. Para incentivar a adoção de cães abandonados, os animaizinhos correm soltos pelo hall do hotel com uma roupinha dizendo: ‘Me adote’. A campanha começou em julho do ano passado, e desde então 14 cachorrinhos já acharam novas famílias.

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Kangaroo Sanctuary – Divulgação

Infelizmente, no fundo da questão, descobrimos que o turismo, mesmo que muitas vezes nocivo, pode ser a única salvação de algumas espécies animais. O expert em vida selvagem do Quênia Jonathan Scott declarou, em um estudo feito pelo Skyscanner, que o turismo é o único mercado capaz de financiar a preservação. Esse estudo gerou o livro ‘Last Chance Tourism: Adapting Tourism Opportunities in a Changing World‘, que relata, entre outras previsões referentes ao mercado, que um dos maiores atrativos nos próximos anos deve ser a visita ao habitat de animais em extinção. Na nossa sociedade, onde já é quase impossível ser ‘o primeiro a ver’, talvez as pessoas agora procurem o posto de ‘o úlitmo a ver’. É a dura realidade: 10 espécies foram declaradas extintas nos últimos 5 anos, quando nos 10 anos anteriores, apenas 4 tiveram a malfadada sorte.

Algumas organizações estão desenvolvendo projetos inovadores de zoológicos em que a lógica é invertida, e o bem-estar dos animais tem uma hierarquia maior que a capacidade dos visitantes de vê-los. É o caso do projeto do Zootopia, um zoo-safari na Dinamarca cujo slogan é ‘o zoológico mais animal-friendly do mundo’. O espaço todo é pensado para recriar os habitat naturais das espécies, possibilitando que se movam livremente, e de forma que as paredes entre humanos e bichos sejam removidas e eles possam andar lado-a-lado. Como isso vai funcionar ainda é um mistério, mas vamos esperar para ver. O projeto é de um dos maiores escritórios de arquitetura do país, o BIG, então coisa ruim não pode ser. Enquanto isso, segundo os especialistas, a forma mais ‘ética’ de vivenciar os animais é fazendo safaris. O teu dinheiro vai para a manutenção dos parques, os animais continuam em sua vida selvagem, e a matança é reduzida.

BIG - Divulgação
BIG – Divulgação

Foto do destaque: Shutterstock – Catfish Photography

Quem escreveu

Renato Salles

Data

22 de March, 2015

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