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1/4 Club: Até que ponto as lives substituem as festas físicas?

Quem escreveu

Lalai Persson

Data

13 de June, 2020

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A 1/4 é um projeto brasileiro nascido em Lisboa que tem agitado a cena das festas no Brasil em formato Zoom Party. Mas afinal, até que ponto as lives substituem a nossa experiência física de estar numa pista?

Era um sábado à noite, 23 de maio. Aqui em Berlim começávamos a sair lentamente da quarentena. Comprei ingresso para conhecer o projeto 1/4, que faria a primeira edição de seu festival numa Zoom party e eu estava curiosa para conhecer depois de conferir o line-up impecável.

Logo que nos trancamos em casa em Berlim no dia 12 de março, as lives começaram a surgir por aqui (e em todos os lugares). Em um semana já tínhamos o United We Stream Berlin, uma das principais plataformas de lives de música eletrônica na Europa, que hoje abraça diversas outras cidades europeias.

Entrar em quarentena assim que acabei de mudar para cá foi frustrante. Então, para tirar melhor proveito desses dias trancada em casa, eu decidi que aproveitaria as lives para duas coisas: entender o novo momento do entretenimento (e as possibilidades e caminhos para onde estamos indo) e para conhecer melhor a cena da música eletrônica de Berlim do conforto do meu sofá. Fiquei mergulhada num eurocentrismo porque quando as lives começaram a rolar no Brasil o fuso horário era sempre impraticável pra mim, pois a quarentena me trouxe um novo hábito: dormir cedo.

Pouco mais de dois meses depois, o 1/4 Fest chamou minha atenção quando recebi o release da festa. A curiosidade se deu por conta de haver tanta gente que admiro envolvida, o line-up, a quantidade de palcos e por ser uma Zoom party.

A essa altura o formato do festival já não era uma novidade, mas até o momento eu só tinha me aventurado por lives no Twitch, Youtube, Instagram e Facebook. Devido aos cursos, às palestras e às reuniões com amigos, eu estava com fatiga do Zoom, mas quis entender como seria curtir uma festa na plataforma. Uma semana antes, uma amiga afirmou ter ficado decepcionada ao “ir” numa festa do Club Quantaene, que virou uma das festas online mais badaladas dessa pandemia que acontece no Zoom. Na sala, as pessoas olhavam com cara de nada para tela enquanto DJs tocavam e era isso. Será que no Brasil, onde o público no geral é tão animado e sociável, seria assim?

O 1/4 Fest: De Quarto em Quarto começou antes da meia-noite aqui em Berlim. Comprei o ingresso, tive uns problemas iniciais com o Sympla (que tem parceria com o Zoom), e estava quase desistindo enquanto a Isis, que eu tinha contactado via Instagram da festa, tentava solucionar. Foi aí que a festa me ganhou. O atendimento dela foi impecável e ela não desistiu até conseguir me colocar “para dentro da festa”.

Só quando acessei os ingressos, eu entendi a mecânica – que ainda tem algumas coisas que precisam ser melhoradas – mas dá para entender o fato de não ter tudo pelo tempo curto de desenvolvimento. O acesso para cada pista era feito através de um ingresso específico, ou seja, eu tinha 4 ingressos. Cada vez que eu queria mudar de pista ou ir para o lounge, eu tinha que ir no Sympla e clicar no link do Zoom por lá. Fora esse incômodo de não ter um jeito mais fácil de navegação, o resto foi somente boas surpresas. PS: Não sei se ainda é assim, pois desde então não acessei o Zoom via Sympla.

Era a minha primeira Zoom party e a primeira festa brasileira do tipo. Foram 16 horas de programação non-stop com mais de 50 artistas brasileiros e portugueses. Alguns dos grandes nomes da cena da música eletrônica do Brasil estavam presentes: Cashu, Tessuto, L_cio, Pilantragi, Venga Venga, Lagoeiro, Linda Green, Benjamin Ferreira, Nuven, Maria Kumara, entre outros. O line-up de performers contava com nomes como Aretha Sadick, Annyllynna, Arda Nefasta, entre outros.

A festa tinha 3 pistas principais: Palco Tropical, Palco Discothèque e Palco Techno, e um lounge comandado pela Rádio Veneno.

Zoom Party do projeto 1/4 Club, no dia 23 de maio.
Print screen da festa

Fui diretamente para o Palco Tropical, onde caí de amores pelo trabalho do produtor Nuven, a minha maior surpresa da festa. Assisti a live dele inteira de tão incrível que era. O público não parava de comentar o quanto estava surpreso com o Nuven. Foi ali que a minha experiência começou e me surpreendeu. Na “pista”, comecei a encontrar diversos amigos e conhecidos que eu não via há um tempão. Como os reconheci? Pelos nomes nas janelinhas. O chat é onde a coisa acontece, mas me dei conta de que ter um agitador funciona bem e na sala tinha uma bem animada.

Foi interessante ver que alguns dos presentes criam toda uma mise-en-scène em casa para se sentir numa pista real com luzes, figurino e drinks, a maioria delas sozinha. Tinha muita gente produzida para a festa de fato que não interagiam, mas deixava a câmera ligada para você acompanhá-las dançando pela sala de casa.

De repente eu estava conversando com um monte de gente, conhecida ou não, e me senti muito mais próxima a uma festa do que as lives que tinha assistido até então. Presenciei de tudo um pouco: as pessoas boquiabertas por conta de uma performance de alguém que elas não conheciam (ou conhecia e virava uma torcida organizada), paquera rolando solta, conversas das mais diversas e até gente que dormiu no meio do festival com a câmera ligada. Fui totalmente cooptada para a festa. Não vi as horas passar. Dancei, coloquei a conversa em dia, encontrei amigos do Brasil e de Portugal por puro acaso, tomei minha cervejinha, ri um bocado e ouvi muita música boa.

Passeei pelos outros palcos, encontrei mais gente conhecida e assim foi até a madrugada chegar aqui e eu apagar antes da abertura do lounge. De manhã, após meu café, eu fui lá espiar o que ainda rolava. Estando 5 horas à frente, eu ainda me permiti pegar o final dela. Entrei no lounge que tinham umas 12 pessoas apenas e então fui para o único palco no ar. Eram 5h da manhã no Brasil e o palco tinha cerca de 100 pessoas, algumas delas que estavam desde o início da noite. Novamente encontrei amigos, conversei com várias pessoas, algumas delas que frequentavam a minha festa CREW. Foi difícil me despedir, mas por aqui o dia raiava ensolarado e já me permitia curti-lo fora de casa.

Printscreen da zoom party produzida pelo projeto 1/4 Club.
print screen da festa

Foi a primeira vez em que eu me senti realmente numa festa durante os quase 3 meses de quarentena. Quero dizer… eu estava numa festa… mas vocês me entendem! A próxima edição rola neste sábado, 13 de junho.

Gostei tanto do projeto que fui conversar com a Isis. O papo foi tão bacana que vou publicar a entrevista na íntegra aqui.

Como nasceu a ideia do coletivo? Li que  o 1/4 Club nasceu em Portugal, mas onde estão fisicamente?
Somos todos os quatro imigrantes residentes em Lisboa, amigos e produtores ligados de alguma maneira à indústria do cinema e audiovisual, além de quatro apaixonados por música. O Gui Delarmelindo é designer e diretor criativo da 1/4; a Isis Prujansky é a produtora executiva e comercial; o Bicudo é DJ residente, curador e produtor técnico; e o Pedro Gonçalves Ribeiro é artista visual, curador e cuida da comunicação do coletivo. Antes mesmo da pandemia acontecer, já queríamos criar uma nova festa em Lisboa, sobretudo por ser uma cidade com enorme potencial cultural ainda em expansão. Montamos então um projeto para ser realizado fisicamente no começo de abril, mas já na primeira semana de casos em Portugal percebemos que teríamos que cancelar o evento, antes mesmo da adoção de medidas obrigatórias de confinamento. Foi aí que mudamos tudo e surgiu a 1/4: em dois dias reorganizamos todo o conceito e migramos pro ambiente virtual. Escolhemos o Zoom como plataforma, já que acreditamos na interação das pessoas além de “assistir a live”, como acontece no Instagram ou no Youtube. Fizemos uma versão teste, apenas com o Bicudo tocando, e incrivelmente o feedback foi ótimo. Entendemos novas formas de melhorar a transmissão e tacamos o projeto pra frente, agora com várias edições contadas + o festival. Paralelamente, estamos debatendo e conversando com outros projetos e núcleos a atual conjuntura e o futuro da cena artística voltada para as diversas nuances do eletrônico e para a comunidade artística queer e underground. Organizamos talks todos os meses através do Zoom, vamos agora dar um gás e compartilhar nosso conhecimento técnico com a experiência que temos e também procuramos desenvolver outros projetos presenciais e virtuais, à medida que a situação for – esperamos! – melhorando.  

Apesar de vocês estarem em Portugal, o foco do projeto me pareceu mais no Brasil no momento. Estou certa?
Vale dizer que o festival foi mais voltado ao público brasileiro, porque entendemos ao longo das edições que a galera de lá é mais aberta ao modelo das Zoom Parties do que a europeia. Além disso, visto a situação sócio-político-econômica do país, quisemos trazer um respiro e uma experiência diferentes no momento (explicamos um pouco melhor abaixo também). 

A ideia do coletivo é promover a cena brasileira na Europa ou fazer realmente uma troca? Os artistas que estão em Lisboa e tocaram são também todos brasileiros?
A ideia da 1/4 é ser um través entre as diversas nuances de música e vídeo independente, queer e underground do Brasil com a europeia. Somos todos brasileiros e imigrantes em Lisboa, nossos maiores amigos e contatos ainda estão no Brasil e o virtual se mostrou ainda mais presente nesse sentido de quebrar barreiras e fazer uma conexão forte através das festas na quarentena. Logo, sempre teremos uma ligação forte com o Brasil e acredito que sempre haverá uma presença de artistas brasileiros no line-up também, mas nos preocupamos muito em dar um gás na cena de Lisboa e fazer a festa que sempre quisemos ir aqui, mas ainda não tivemos a chance. Para isso queremos convidar artistas com trabalhos e pesquisas diversificados e que estejam tão empolgados quanto nós, de diferentes países e regiões. Já colaboraram conosco o Rui, de Portugal; o Pipi de Freche de Paris; o Natureboy, de Berlim; a Erika Fatna, de Zurique (mas residente em Lisboa), e em breve teremos o Antoine Gilleron, DJ francês que mora em Sintra, pertinho daqui.

Você comentou que essa foi a primeira edição paga, como foram as anteriores e o que mudou de lá pra cá?
Fomos uma das primeiras festas a trazer o modelo de Zoom Parties para a cena no Brasil, lá no meio de março. Desde então crescemos em vários aspectos, melhorando a qualidade técnica, melhorando a comunicação e trabalhando pra fazer a festa todos os sábados, já que agora a frequência na quarentena é bem diferente da presencial. O público sempre foi crescendo a cada edição e entendemos que o começo deveria ser gratuito já que era um modelo completamente novo e precisávamos acostumar os espectadores com o que estava acontecendo. Aos poucos, então, implementamos o modelo de contribuição voluntária através do Sympla, Picpay e Paypal e agora sentimos que já é outra fase: há muitas festas acontecendo, muita gente já está habituada com o Zoom e com a proposta da festa virtual e é preciso encontrar uma maneira de monetizar a cena de eventos para remunerar artistas e colaboradores. Paga-se para usar o Netflix, para o Spotify, etc… porque não pagar para ver o set de um DJ que você ama, para ver uma performance foda e ainda ajudar uma classe que não consegue encontrar outros meios de trabalhar agora? Foi aí que veio a ideia do festival, já que era um line-up maior, com nomes grandes (L_cio, Tessuto, Cashu) e era a oportunidade perfeita de fazer o experimento e ver até onde o público estaria disposto a pagar para uma festa online. A boa resposta, na nossa opinião, é que percebemos que estão.

Quem foram os curadores dessa edição? O Coquetel Molotov também entrou na curadoria?
A curadoria dos nossos line-ups é sempre feita pelo Bicudo e pelo Pedro, mas tudo na 1/4 é feito de forma muito fluída e acabamos todos dando pitaco um no trabalho do outro. Paralelamente convidamos e demos carta branca pra Rádio Veneno criar o seu lounge com uma mostra audiovisual (o primeiro ato teve curadoria do DESAMPA e o segundo do Ganso); e também fizemos a parceria com o Coquetel Molotov, que escolheu de forma livre dois artistas em ascensão na cena nacional agora, a banda Guma de Recife e a Gab Ferreira, de Santa Catarina. Além disso a Ana Garcia foi uma grande apoiadora do projeto e nos deu imenso suporte.

O que foi levado em conta na hora de fazer a curadoria e envolver a comunidade?
A curadoria seguiu os mesmos moldes que temos feito desde o início da 1/4: pluralidade de background, estilos e estéticas; igualdade de gênero no line-up e uma presença forte de membros da comunidade LGBTQIA+. Como a ideia era unir todo o Brasil, fizemos questão de reunir artistas de todas as cinco regiões do país e não ficar apenas no eixo São Paulo – Rio. Assim, trouxemos djs e performers também de Belém, Recife, Fortaleza, Porto Alegre, BH, Santa Catarina, Vitória, Brasília e Lisboa, claro, que faz a ponte com a Europa já que moramos aqui. Era muito importante para nós unir o maior número possível  de coletivos, núcleos e projetos para então criar o evento a uma só voz, como em modelo de “grito” mesmo: a classe artística em geral já está sofrendo muito com o impacto da pandemia agora e a cena independente, queer e underground, sobretudo no Brasil, ainda mais. 

A ideia é se aproximar de outros festivais para próximas edições?
Ainda não pensamos nisso, mas entendemos que o momento é de união, de troca de experiências e de auxílio mútuo para fortalecer a cena, então estamos super abertos para outras parcerias sim!

Quantas pessoas se envolveram por trás da produção?
Tirando a crew 1/4, tivemos ainda o auxílio de quatro pessoas na assistência de produção; duas na operação técnica; duas na assessoria de imprensa; e ainda contamos com apoio de amigos para produzir conteúdo de divulgação e a super presença especial da Ana Garcia, do Coquetel Molotov, que nos deu um auxílio e uma ajuda imensuráveis. 

Como foram as vendas de ingressos? Eu me surpreendi com o número de pessoas nas salas, qual foi o pico de pessoas simultaneamente numa pista?
Extremamente positivo! Vendemos 437 ingressos e disponibilizamos cortesias para nossos colaboradores. Das vendas, esgotamos o pacote associado ao nosso patrocinador Baer Mate e tivemos um número bem legal de adesão do pacote 1/4 com um kit do festival, pacote de ilustrações da Dj Fritzzo, pacote de objeto de arte (um busto de Eros) by Irina Gatsalova, pacote com ingresso do Coquetel Molotov. Também esgotamos o pacote Fortalece! que era de 50 reais sem prêmios atrelados, como forma de motivar a cena. Consideramos um envolvimento muito bacana e muita gente comentou que gostou da associação dos ingressos com algo a mais, seja com produto do patrocinador ou arte dos artistas. Eis aí um modelo muito usado nas campanhas de crowdfunding que pode ser levado à esse tipo de evento.

O palco Tropical uniu 473 pessoas ao longo de suas 9 horas de programação, o palco Discothéque, 470, o palco Techno chegou a ter 161 pessoas online simultaneamente somando 453 pessoas no total. O lounge reuniu 273 pessoas.

Planos pro futuro?
As festas virtuais continuarão aos sábados, mas agora com uma frequência menor. Aqui em Lisboa a quarentena já afrouxou e o horizonte parece relativamente positivo, visto que a pandemia foi menos grave quanto em outros países da Europa ou até mesmo no Brasil. Pequenas festas poderão acontecer durante o verão, que chega no mês que vem, e a ideia é começar a unir a experiência presencial com o virtual, já que a 1/4 nasceu dele. Ainda não sabemos o que será e como será esse formato, mas temos algumas ideias borbulhando na cabeça. De qualquer forma, buscamos sobretudo ser uma plataforma de produção de conteúdo alternativo audiovisual para artistas do meio da música e também para performers. Paga-se muito para hospedar seus próprios conteúdos no Soundcloud, por exemplo, mas agora isso ficou ainda mais insustentável para uma grande parcela de artistas. Porque não vir com uma alternativa mais amigável e acessível? 

****

Para acompanhar a agenda da festa é só segui-los aqui. Neste sábado, dia 13 de junho, rola a Zoom party 1/4: Em Apocalipse com ingressos a partir de R$ 5, reunindo novamente a cena brasileira e portuguesa. Corre lá porque vale a pena.

*Imagem destaque: Divulgação festa

Quem escreveu

Lalai Persson

Data

13 de June, 2020

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Lalai Persson

Lalai prometeu aos 15 anos que aos 40 faria sua sonhada viagem à Europa. Aos 24 conseguiu adiantar tal sonho em 16 anos. Desde então pisou 33 vezes em Paris e não pára de contar. Não é uma exímia planejadora de viagens. Gosta mesmo é de anotar o que é imperdível, a partir daí, prefere se perder nas ruas por onde passa e tirar dicas de locais. Hoje coleciona boas histórias, perrengues e cotonetes.

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