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Natura no SXSW

A Natura participou do Festival SXSW, maior evento de economia criativa do mundo, fazendo parte do movimento #BrazilInspiresTheFuture.

Visitando Seul: tradição e tecnologia na capital da Coreia do Sul

Quem escreveu

Luciana Guilliod

Data

17 de April, 2018

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A Coreia do Sul andou flodando nossa timeline nos últimos tempos. Sejam as Olimpíadas de Inverno , a prisão da ex-presidente ou a eterna treta com o vizinho de cima, a verdade é que tem muita coisa acontecendo naquele país lá longe, a 12 horas de fuso horário do patropi.

Ofuscada por vizinhos ostentação como China e Japão, é fácil subestimar a península coreana. Mas o que esperar de um lugar que tem o Yin-Yang em sua bandeira? O país, que há 50 anos tinha renda per capta anual de US$ 64, é hoje a 11a economia do mundo. A receita não é milagre: investimento, estudo e trabalho.

O yin da Seul tradicional se encontra nas pantufas que são usadas apenas dentro de casa (há ainda uma segunda casta de pantufas para banheiros) ou no sistema de aquecimento de pisos, que utiliza pedras quentes e remonta à idade do Bronze. O yang da Seul tecnológica está no projeto de instalar painéis solares em um milhão de residências até 2022, ou nas plataformas online que viabilizam a democracia participativa pela qual a prefeitura é governada; nos shoppings, bares, restaurantes e lojas que funcionam 24h. K-pop, K-dramas e gastrodiplomacia: a onda hallyu já ultrapassou a Ásia há tempos.

O sucesso financeiro tem seu preço: investimento, estudo e trabalho trazem como consequência uma pressão insuportável. E assim, os coreanos são o povo que mais consomem bebida alcoólica no mundo (14 unidades por semana. Os russos? apenas seis); o suicídio é a forma mais comum de morte para os menores de 40 anos; o sistema educacional é tão rígido que existem inspetores para assegurar que os alunos  parem de estudar às 22h; e as sul coreanas detêm o recorde per capta de cirurgias plásticas no mundo – uma a cada cinco já entraram na faca. Só no bairro de Gangnan há mais de 500 clínicas. Cirurgias plásticas são oferecidas como presente de formatura às moças de 20 anos, para que possam se destacar na busca por empregos e maridos.

Avenida em Itaweon

Dezenas de sites oferecem, em inglês, uma miríade de procedimentos por preços bem mais baixos que os praticados no Ocidente. É possível obter descontos progressivos de acordo com o número de cirurgias que fizer: 20% para um procedimento, 30% para dois, e por aí vai, na mais perfeita black friday da plástica.

A coisa, é, na verdade, turismo estético: sites como My Seoul Secret (o nome não é ótimo?) não apenas oferecem intervenções cirúrgicas, como também providenciam passagens aéreas, traslados, hotel e hospedagem, para que a função cirurgia plástica não canse a sua beleza. Os cirurgiões têm auxílio de intérpretes para o inglês. Os custos de internação, consultas, exames etc. estão inclusos no pacote. Tal qual a compra do seu celular, os impostos pagos nas cirurgias podem ser reembolsados na saída do país.

Se você é vaidoso, mas não a ponto de entrar na faca, pode fazer a festa com os cosméticos e maquiagens coreanos. Tem uma loja a cada esquina, com soluções para defeitos que você nem sabia que tinha. Sempre me elogiavam por meu rosto ser pequeno(?), mas nunca encontrei maquiagem da minha cor, uma vez que a obsessão coreana é ter a pela o mais clara possível. O mercado de K-beauty faturou mais de 10 bilhões de euros em 2017 e produtos masculinos (que incluem até lápis de sobrancelha) correspondem a quase metade desse valor. As lojas mais populares são Innis Free, Etude House, Amorepacific e Olive Young.

Ruas de Gangnan

Namore alguém que te olhe como os sul coreanos olham para o Psy. O autor do chiclete “Gangnan style” tem até monumento erigido em sua homenagem em uma das esquinas onde o clipe foi gravado. e uma estátua onde o vídeo da música é exibido non stop. Não há como fugir do K-Pop. O mercado dedicado ao gênero musical é impressionante. Um dos escritórios de turismo da cidade é um prédio de cinco andares onde os visitantes tiram fotos com projeções em alta definição de estrelas da música. É possível visitar estúdios e sedes de empresas de comunicação com memorabilia dos artistas. Há loja com itens curados por eles e cafés com bebidas que levam seus nomes. A K-Pop Road é um trecho de pouco mais de um quilômetro em Gangnan com bonecos alusivos às bandas, calçadas pintadas de rosa e azul e loja para vender as miniaturas dos gangnan dolls. Até na estação de metrô há decoração K-Pop e telões passando clipes.

Quando ir

Os verões são quentes e úmidos; os invernos frios e secos. O ano novo chinês, maior movimento migratório do planeta, tem reflexos na Coreia do Sul, aumentando a quantidade de turistas. No Chuseok, festival da colheita, mas de tradição comparável ao Dia de Ação de Graças americano, a cidade esvazia e as atrações continuam funcionando. Em agosto os coreanos tiram férias e há filas para todos os lados.

Assim como o Hanami, no Japão, a chegada da primavera e a folliage de outono são acontecimentos em Seul e o clima de meia estação é super agradável. Fui em fevereiro, para as Olimpíadas de Inverno, e era difícil ficar ao ar livre sem congelar.

Museus e teatros geralmente fecham às segundas; palácios às terças; e pequenos restaurantes coreanos e ocidentais, às segundas ou terças-feiras.

Meninas vestindo hanboks

Circulando

Descontado o(s) longo(s) voo(s), a Coreia do Sul é um é um país facílimo de se viajar. A medida número um para circular em Seul é baixar o aplicativo Citymapper, uma vez que o Google Maps não funciona por lá. Não é preciso saber coreano: felizmente, as estações de metrô e ônibus também recebem nomes, instruções e placas de indicação em inglês.

O aeroporto de Incheon, onde chega a maioria dos voos internacionais, está a 50 quilômetros de Seul. Entre os vários tipos de trens, ônibus e táxis disponíveis, escolha o AREX e tenha o gostinho de andar no seu primeiro trem bala coreano. Em menos de uma hora você estará na Seoul Station. Por conta das Olimpíadas de Inverno, uma linha de trens bala também foi construída para ligar a capital da Coreia do Sul a Pyongchang.

Contando as linhas suburbanas e o VLT, o sistema metropolitano de Seul tem (tá sentado?) 971 km de trilhos e é o que você esperava: rápido, prático, limpo, seguro e ainda tem assentos aquecidos <3. O melhor 4G do mundo é coreano, e também funciona perfeitamente embaixo da terra. Ônibus urbanos são igualmente eficientes. Os transportes públicos são pagos com o cartão T-Money, que serve também para comprinhas em lojas de conveniência, e as tarifas são calculadas de acordo com a distância percorrida.

Com toda essa riqueza, confesso que fiquei um pouco decepcionada ao pegar ônibus intermunicipais. Embora práticos e confortáveis, são bem antiguinhos. Existem cinco terminais de ônibus em Seul, então fique ligado pra não confundir o seu.

Guarda em Gyeongbokgung

Visitando

Qualquer guia de viagens vai te indicar uma visita aos palácios Changdeokgung e Gyeongbokgung, em frente à descomunal praça Gwanghwamun. Sim, esses locais valem a pena não só pela impressionante arquitetura, mas pelos coreanos em si. Os habitantes têm o hábito de alugar hanboks, roupas típicas com cortes retos e cores vibrantes, para visitar os locais históricos e culturais vestidos à caráter e tirar muitas muitas muitas fotos. É bem divertido observar a diversão dos outros ;-). Anexo ao Gyeongbokgung está o ótimo National Folk Museum of Korea.

Localizada entre os palácios Gyeongbokgung e Changdokkgung, a Aldeia Hanok Bukchon vale a visita. Hanoks são casinhas centenárias de madeira com telhados pontudos altamente instagramáveis e o local era o bairro residencial de funcionários de alto escalão do governo e da nobreza durante a Dinastia Joseon. Hoje em dia há muitas lojinhas, cafés e, novamente, coreanos usando hanboks fazendo muitas muitas muitas fotos. O local é perfeito para flanar (vamos resgatar esse verbo?), mas não te julgaremos se você quiser preferir um tour guiado à pé. A secretaria de turismo de Seul oferece alguns gratuitos.

Menos interessantes e mais ocidentalizados são os bairros de Myeongdong, bem no centro da cidade, e Itaewon, que concentra as embaixadas e os expatriados. Me hospedei nesse último e só valeu a pena pelas vistas de Seul e o ESPETACULAR Leeum Museum of Art. Desculpe a gritaria, mas todo o conceito do museu merece o capslock. Um prédio abriga a coleção de arte contemporânea; outro, a de antiguidades; e ao visita-los você vai entender porque esse post se chama “tradição e tecnologia”.

Duvida? Outra prova dessa dobradinha é o templo budista Bonguensa e seu Buda gigante, que ficam em plena Gangnan, ao lado do moderníssimo shopping e centro de convenções COEX.

Rolé em Cheonggyecheon

Uma iniciativa que mostra como os coreanos sabem revitalizar seu passado é o rio Cheonggyecheon, projeto ousado que urbanizou as margens do riacho, criando um parque que contrasta lindamente com os arranha céus do centro financeiro de Seul. O Cheonggyecheon se estende por quase 11km e é super agradável tanto de dia como à noite. Quer um ponto de referência pra iniciar sua caminhada? A Cheonggyecheon Plaza.

Se você gostou de Naoshima e tem tempo sobrando, visite o SAN Museum, a duas horas de Seul. Projetado por Tadao Ando, é permeado por parques e recheado de obras de arte contemporânea.

A Dongdaemun Design Plaza (DDP) merece um UAU e mostra o lado bom de viver em grandes cidades. Projetado pela saudosa arquiteta iraniana Zaha Hadid, a DDP foi um dos motivos que levou Seul a ser escolhida World Design Capital em 2010. Esse centro cultural está localizado no maior distrito de moda e compras da Coreia, e é composto por áreas de exposição, centro cultural, museu de design, espaços de convivência, parques, lojas, um lindíssimo jardim de rosas de LED e partes restauradas da Fortaleza de Seul. Com uma iluminação lacradora, a DDP merece também uma visita à noite.

Coreanos amam uma selfie

Saco vazio não para em pé

Ah, a culinária coreana. Cada refeição é um espetáculo para os sentidos, e mesmo o mais prosaico equivalente a PF vem com uma variedade de pequenas porções de acompanhamentos, chamados banchan. Faça como os coreanos: com seus hashis, sirva-se de um bocado do prato principal e em seguida, de um pouco de algum banchan. Os pratos não devem ser saboreados em curso, e sim buscando equilíbrio e harmonia a cada garfada nos banchan. É uma postura ativa, pois o comensal é também responsável pelos sabores. Há muito gengibre, alho poró, arroz, noodle, pimenta, óleo de gergelim, cheiro verde, soja e frutos do mar. E também polvos vivos (já assistiu ao filme Old Boy?) e bichos da seda para os mais curiosos.

Nem sempre você vai entender o que está escrito no cardápio, mas se você é bom de prato, vai se fazer na Coreia do Sul. De volta ao Brasil, morro de saudades de finalizar minha comida à mesa. Os restaurantes tradicionais têm fogareiros e exaustores em cada mesa para o churrasco coreano tipo do it yourself. O preço varia de acordo com o peso e o tipo de proteína: boi, porco ou frango. As carnes são cortadas em fatias finas e os acompanhamentos do gogi-jip são fartos e diversos. Já fez um enroladinho de carne, dente de alho e arroz na alface antes?

Na Coreia do Sul, facas não vão à mesa. Tesouras e espátulas dão conta do recado, inclusive no churrasco. Restaurantes tradicionais têm à mesa uma caixa (que pode estar embutida) com colheres e hashis. Mas restaurantes servem apenas para fazer refeições. Se procura um local para ficar por algumas horas, vá a bares, cafés ou norebangs (karaokês) depois do almoço ou jantar.

Mais que um prato, o kimchi é um modo de se cozinhar. Feito com vegetais fermentados em um molho bem apimentado, acompanha todas as refeições. Normalmente leva acelga, repolho, rabanete ou nabo em conserva.

Já o bibimbap – além de ter um nome muito legal – é uma tigela de arroz misturado com legumes e proteínas, em uma pasta de pimenta vermelha e óleo de gergelim. Para coroar, um ovo cru, que é frito no calor da tigela de pedra em que o bibimbap é servido. Bulgogi é carne cortada em fatias finas marinada em um doce molho à base de soja e grelhada com pimenta, cebola e brotos de feijão.

Para acompanhar, beba soju! Esse destilado de arroz ou batata é doce, tem entre 20 e 40% de álcool, e é normalmente servido em copos de shot. Em restaurantes, vem em garrafas de 180ml: a conta certa para uma pessoa. Os makgeollis, espécie de cerveja de arroz, eram tidos como uma bebida popular, mas estão cada dia mais complexos e saborosos.

*Foto destaque: Farrel Nobel – Unsplash

Quem escreveu

Luciana Guilliod

Data

17 de April, 2018

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Luciana Guilliod

Carioca da Zona Norte, hoje mora na Zona Sul. Já foi da noite, da balada e da vida urbana. Hoje é do dia, da tranquilidade e da natureza. Prefere o slow travel, andar a pé, mala de mão e aluguel de apartamento. Se a comida do destino for boa, já vale a passagem.

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