Arte & Cultura

Uma noite no Monte Saint-Michel

Quem escreveu

Alecsandra Matias

Data

06 de March, 2017

Share

Ao norte da França, quase fronteira com a Bretanha, a Normandia é recheada de história, arte e belezas naturais – até o mais insensível dos seres humanos é capaz de cair de amores por uma das paisagens que integram a região (que por sinal, é enorme). A Normandia foi terra de peregrinações nos tempos medievais e passou por batalhas que envolveram França e Inglaterra na Guerra dos Cem Anos. Joana D’Arc, a heroína francesa, foi queimada na região, sabia? Na Revolução Francesa, a prisão mais barra pesada ficava por ali.

No final do século XVIII, a Normandia tornou-se berço do impressionismo a partir da instalação de Claude Monet e seus amigos naquele pedaço. Não bastasse tudo isso, ainda por cima, suas praias foram ponto de resistência durante a II Guerra Mundial, lembra o Dia D? Ufa! É muita história! E olha que ainda não desfiei o rosário dos cenários bucólicos e da natureza espetacular daquelas paragens!

Mas, no meio desta “orgia de história e arte”, tem um lugar que mexe com as emoções de todos, creiam! Pelo menos, ainda, não conheci ninguém que não tenha se debulhado em lágrimas ao ter a visão do Monte Saint-Michel ao longe. Por isso e por outras razões, qualquer roteiro de viagem pela Normandia que se preze precisa incluir, ao menos, uma noite neste ilhote rochoso. Quer saber por quê? Segue comigo.

Monte Saint-Michel. julianadgr. Flickr.
Monte Saint-Michel. julianadgr. Flickr.

Segundo contam, no início o lugar era chamado de Monte Tombe (em francês, a tradução pode ser túmulo ou elevação) e era habitado por ermitões cristãos que buscavam a solidão e a pobreza. Agora, o nome faz todo sentido, não é?

Porém, em 708, o bispo de Avranches, a cidade mais próxima dali, recebeu três aparições do Arcanjo São Miguel. Nos sonhos do bispo, a ordem era clara: “Consagre o monte ao meu culto!”. O Arcanjo foi radical, na última aparição, ele furou o crânio do bispo com o dedo para que ele finalmente acreditasse em suas visões.  No ano seguinte, a abadia estava consagrada e chamada de Monte Saint-Michel em Perigo do Mar (também, o Arcanjo era persuasivo, não?).

No topo da abadia, existe uma estátua de São Miguel Arcanjo matando o dragão – símbolo de todo o mal. Desta construção foram surgindo outras que formam, hoje, uma vila medieval. Da sua consagração até os dias atuais, a abadia é local de peregrinação de fiéis de todo o mundo. No século X, os monges beneditinos instalaram-se por ali e numa pequena vila que foi se formando aos seus pés e no século XIII, o mosteiro foi fortificado, sobrevivendo às constantes invasões que assolaram a região.

O histórico bélico do lugar não para por aí não: durante a Guerra dos Cem Anos, o Monte Saint-Michel resistiu a todas as tentativas inglesas de invasão, tornando-se símbolo da identidade nacional francesa. A vocação de fortaleza inexpugnável foi aproveitada durante a Revolução Francesa. Isto porque as ordens religiosas foram proibidas e o lugar virou uma cadeia para presos políticos e demais desafetos da Revolução.

Arquitetura Medieval, Monte Saint-Michel. shogunangel. Flickr.
Arquitetura Medieval, Monte Saint-Michel. shogunangel. Flickr.

Toda essa história está registrada na arquitetura da abadia e do vilarejo que fica em seu entorno. Para sentir tudo isso com mais intimidade, fica aqui minha dica: hospede-se na cidade intramuros. Curta o seu dia que é repleto de turistas, restaurantes e lojinhas simpáticas. Porém, à noite o lugar será só seu! É uma das experiências mais incríveis da vida, acredite!

Monte Saint-Michel. Erik van Lent.
Monte Saint-Michel. Erik van Lent.
Mont Saint-Michel. Paul Williams. Flickr.
Mont Saint-Michel. Paul Williams. Flickr.

Porém, o mais fantástico é a força da natureza que atua sobre aquele lugar. Estava escondendo e deixando o mais impressionante para o final. Mas, acho que você já sabia disto, não? A subida e a descida da maré foram o grande trunfo contra os inimigos históricos. Era difícil vencer a natureza. Na verdade, Saint-Michel pode ser ilha ou península desde que se perceba se é maré alta ou baixa. Por lá, a subida da maré é muito rápida e intensa. Em poucas horas, o cenário muda completamente. Na maré baixa, é possível atravessar a baía caminhando. Atenção: não faça sem um guia local! A coisa é traiçoeira para os forasteiros.

Caso você seja menos aventureiro e se contente em ver a maré baixar e subir, de uma das janelas da abadia ou de uma hospedagem da vila, a visão é tão ou mais espetacular do que ver o Monte Saint-Michel ao longe (sabe aquele teste à sensibilidade que mencionei no início do texto?). Depois de tudo isso, prepare o coração e passe uma noite neste lugar inesquecível.

Foto destaque: Brad Hammonds (CC BY-NC 2.0)

Quem escreveu

Alecsandra Matias

Data

06 de March, 2017

Share

    Adicionar comentário

    Assine nossa newsletter