Natal da verdade: um guia pra gerar discórdia na ceia

Quem escreveu

Vanessa Mathias

Data

23 de December, 2017

Share

Um senhor de barba que entrega presentes. Um pinheiro no meio da sala, com estranhas frutas redondas de cristal penduradas. Uma decoração branca que imita neve. Uma manjedoura com um neném. Passas por todo lado. Peru. Pavê, muito pavê.

Esses símbolos tão presentes (ah, por falar nisso…. os presentes também!) nessa noite de Natal tem origens mais confusas e diversas que nem paramos para questionar: será que Jesus Cristo amava passas no arroz?

Daí nos enchemos aqui de argumentos reais – e de emergência – caso você precise de uma bomba pra jogar na mesa de ceia e sair andando.

1.  Natal é apropriação cultural

Foto: Unsplash

Essa é uma ótima para famílias de esquerda.

É preciso um mínimo de curiosidade a respeito da cultura judaico-cristã para falar sobre isso. Sabemos que, com a instauração da Igreja Católica, muitas das tradições pré-cristãs consideradas pagãs foram reprimidas e abafadas por membros conservadores da Igreja. Os “pagãos” eram as pessoas do campo, mais ligadas à Natureza e, naturalmente, às estações, à Lua, à terra. No entanto, os cristãos, fascinados com a riqueza da cultura pagã, incorporaram muitos dos ritos.

Foto: Ant Rozetsky

Muitas das pessoas tem conhecimento de que no dia 25 de dezembro era celebrado o solstício de inverno pelas culturas pagãs, com cultos à Deusa Ísis e ao Deus Sol em diversas culturas. A principal festa do ano na Roma antiga foi chamada de “Saturnalia” e era realizada no solstício de inverno. Quando o calendário juliano foi concebido pela primeira vez, o solstício caiu em 25 de dezembro. Neste momento, o imperador Aureliano estabeleceu um feriado oficial chamado ” Sol Invicti ” – que significa” sol não conquistado”. Muitos estudos comparam Jesus ao Deus Sol de antigas culturas e, portanto, faz sentido que os cristãos tenham estabelecido essa data como adequada para o nascimento de Cristo. Devemos nos lembrar que houve outros calendários antes do calendário gregoriano que conhecemos e que a maioria dos outros calendários era regido pelas estações do ano e pela Lua e muitas modificações aconteceram até chegarmos no calendário como conhecemos hoje.

Ou seja: muitas religiões, e principalmente as culturas mais ligadas à terra, tem celebrações do solstício de inverno. Natal é pura apropriação cultural da data e alguns ritos. (Toma essa, tio!)

2. Jesus Cristo não é capricorniano

Foto: Pascal Muller

Se simplesmente a Igreja surrupiou a data, não há garantia alguma de que Jesus Cristo tenha nascido mesmo no dia 25 de dezembro. Ao que tudo indica, esse aniversário é simbólico e veio de um sincretismo entre a cultura pagã e a emergente tradição cristã nos séculos posteriores ao nascimento de Cristo.

Ou seja, se você já tinha toda uma teoria sobre como Jesus era disciplinado e responsável devido ao seu signo, melhorar mudar a teoria. (Engole essa, vó beata!)

3: Não comer as passas é negar a verdadeira essência natalina

Foto: Bjonr

Quando chegava o período do solstício de inverno nas terras do Norte, era um tempo de muito medo e muita escuridão. Era a noite mais longa do ano. No pólo Norte, são 6 meses de luz e 6 meses de escuridão, e o solstício marca o auge da escuridão. Portanto, nesse dia, as pessoas celebravam a luz e o amor para não se deixarem abater pelo medo e pelas trevas. O pinheiro é um símbolo dessa resistência, visto que permanece forte mesmo em frias temperaturas. As nozes, as castanhas e as passas eram armazenadas por serem alimentos duráveis e com boa gordura e carboidratos para manter as pessoas no inverno.

Negar essa fonte tão importante é negar a própria preservação da humanidade, em um período pré-food-delivery-24hrs. (E deixem minhas passas no arroz em paz, é só uma vez por ano!)

4. Papai Noel não é necessariamente bom, e muito menos velhinho.

Foto: Pawel Furman

Há uma terceira parte mágica e assustadora sobre as antigas tradições vikings dos povos do pólo Norte que a maioria das pessoas desconhece, mas que forneceu muitos elementos que utilizamos hoje em nosso inofensivo Natal cristão.

Dizem que, nessa festividade, um jovem na puberdade era enviado para caçar um urso branco em um trenó. O urso branco era indócil e representava bravura. Ao voltar com a caça, para absorver a bravura desse urso, o jovem devia vestir sua pele virada do avesso: ou seja, com a parte sangrenta em carne viva para fora! O jovem, a essa altura, tinha o rosto com uma “barba de neve”, afinal, era o dia mais longe do Sol. E dessa imagem um tanto selvagem nasceu o nosso inofensivo, gorducho e benevolente Papai Noel.
(E é por isso…. cara família… que não trouxe nada de presente pro amigo secreto).

 

Os presentes? Bom, daí já envolveu ótimas equipes de planejamento e criação pra nos convencer a comprar loucamente, além de um bom “planejamento reverso” para associar à mirra e incenso  dos presentes oferecidos à Cristo. Mas essa verdade do ultra-capitalismo todo mundo já sabia, né?

 

Desejo um Natal de ano cheio de problematizações para vocês, queridos leitores!

Quem escreveu

Vanessa Mathias

Data

23 de December, 2017

Share

Vanessa Mathias

Seu exacerbado entusiasmo pela cultura, fauna e flora dos mais diversos locais, renderam no currículo, além de experiências incríveis, MUITAS dicas úteis adquiridas arduamente em visitas a embaixadas, hospitais, delegacias e atendimento em companhias aéreas. Nas horas vagas, estuda e atua com pesquisa de tendências e inovação para instituições e marcas.

Ver todos os posts

Comentários

  • Ah... e tem o excelente quadrinho do Carlos Ruas também: https://www.umsabadoqualquer.com/feliz-natal-dos-deuses/
    - Fábio Telles
  • Faltou o vermelho do uniforme do Papai Noel, que era amarelo até uma campanha da Coca Cola para mudar para as cores da sua marca.
    - Fábio Telles

Adicionar comentário

Assine nossa newsletter

Vivemos em um mundo de opções pasteurizadas, de dualidades. O preto e o branco, o bom e o mau. Não importa se é no avião, ou na Times Square, ou o bar que você vai todo sábado. Queremos ir além. Procuramos tudo o que está no meio. Todos os cinzas. O que você conhece e eu não, e vice-versa. Entre o seu mundo e o meu.