Viagem

Moçambique, amamos e fomos amados

Quem escreveu

Chicken or Pasta

Data

19 de April, 2017

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Texto e Fotos: André Klotz e Mariana Schmidt

Foi durante a viagem em busca do caminho marítimo para a Índia no século XV, que o português Vasco da Gama chegaria a um dos mais belos pontos do sul da África. Quando lá chegou, mais precisamente em 1497, um emir árabe de nome Mussa ibn Bique governava e dava o seu nome a essa terra. Com a invasão portuguesa, a agora colônia lusitana, para facilitar a pronúncia, passou a ser chamada de Moçambique.

Corta para 2017, em um pós almoço de sábado com amigos. Ouvimos sobre uma super promoção de passagens aéreas com um pouco de vinho a mais na cabeça, e antes de chegarmos no cafezinho já havíamos clicado no ok para comprar. Levantando as taças anunciamos: “Vamos para a África. Vamos para Moçambique!”

Moçambique ainda engatinha após uma recente independência, que veio em 1975. Seguida de uma histórica Guerra Civil, que terminou somente em 1992. Traz também nossas mais profundas raízes africanas e influências portuguesas. Nessa Moçambique encontramos mais que o lugar-comum.

Tínhamos 8 dias, e teríamos que fazer escolhas. Decidimos montar nosso roteiro para o sudeste do país, indo atrás das praias selvagens. Nosso vôo saiu de São Paulo com escala em Luanda (se passar por lá, leve uma água e um lanchinho. Além dos valores absurdos, o aeroporto lembra mais uma rodoviária de fim de mundo. Nem mesmo um caixa eletrônico você encontrará) pousando em Maputo, para depois seguirmos para Inhambane, e finalmente o paraíso chamado Ilha de Benguerra.

Mar aberto na Ilha de Benguerra, Moçambique - foto: André Klotz
Mar aberto na Ilha de Benguerra, Moçambique – foto: André Klotz

Como nossa viagem era curta, decidimos fazer os trajetos todos de avião. Falando com alguns amigos que haviam viajado por lá, nos desaconselharam a viajar de ônibus, pois seria muito lento. Alugar carro para cruzar os vilarejos também não era uma boa. Moçambique ainda é um local com milícias e conflitos isolados que, somados a uma polícia corrupta, pode trazer surpresas para os desavisados. Aliás uma dica importante (vinda de quem mora lá): em Maputo você pode ser parado pela polícia caminhando pela rua. Ande com passaporte junto ao corpo porque essa é a única coisa que pode lhe causar problemas. Ainda no tópico passaporte, uma coisa muito legal é que você pode sair do Brasil sem o visto e tirar no próprio aeroporto de Maputo por 35 dólares. Sem burocracias e bem mais em conta do que feito na Embaixada de Moçambique em Brasília, que custa 250 reais mais o custo do Sedex e leva 15 dias. (Se quiser com urgência, chega em 1 semana e custa 500 reais). Mas o certificado de vacinação de febre amarela internacional não tem arrego. Sem ele você nem sai do Brasil, as companhias aéreas são super rigorosas.

Na chegada a Maputo, o que mais impactou foi o cheiro. Moçambique tem um cheiro próprio, forte, cheio de história. Somado ao calor sem brisa e à terra batida. Maputo é vermelha. Vermelho terra.

Ficamos no Polana Serena Hotel, mais conhecido como a “Dama da África”. Um marco histórico à beira mar, construído de forma imponente na era colonial. Cruzamos o silencioso e gigantesco hall todo esculpido em mármore até a enorme piscina com vista para o Oceano Índico, e nos vimos completamente fora de contexto com o resto da cidade. Um pequeno grande oásis.

Polana Serena Hotel, Moçambique - foto: André Klotz
Polana Serena Hotel, Moçambique – foto: André Klotz

Decidimos pular qualquer saída noturna para lugares típicos de turistas. Fomos parar nas barraquinhas próximas ao Museu de História Natural, onde os locais fazem festas regadas a muita cerveja. Ali na rua mesmo. A música era ao vivo e, pasmem, brasileira!

Seguimos rumo a Tofo, e pousamos no aeroporto de Inhambane. Foi a experiência mais divertida em termos de aeroporto na vida! Literalmente uma casinha na beira da pista de pouso. Com animais passeando soltos, uma mureta dividia o que era bar e o que era pista. As bagagens foram colocadas em um carrinho e você mesmo buscava, ali ao lado do avião. Controle nenhum, claro.

Aeroporto de Inhambane, Moçambique - foto: André Klotz
Aeroporto de Inhambane, Moçambique – foto: André Klotz

Na saída da casinha-aeroporto, ficam os taxistas locais que normalmente praticam preços fechados, combinados na hora para levar até as praias em volta. No nosso caso, Tofo. Quando percebiam que éramos brasileiros, havia uma condescendência e uma alegria absoluta por parte deles. Ainda somos raros por lá, nós, sulamericanos. O nosso driver, vulgo JC, era o local mais descolado, conversado e pé quente das redondezas. Aliás, aqui, andar de carro é com emoção! Mão inglesa e noção de limite de velocidade inexistente. Literalmente, porque não há placas de sinalização em boa parte do percurso.

O driver JC no caminho para Tofo, Moçambique - foto: André Klotz
O driver JC no caminho para Tofo, Moçambique – foto: André Klotz

Os 20km de Inhambane até Tofo foram mágicos. Uma estradinha de mão dupla (em que o JC pisava fundo!) beirada por coqueiros e cheia de gente indo e vindo. Vimos ali pela primeira vez as famosas capulanas, os tecidos feito pelas mulheres de Moçambique.

Capulanas no mercado de Tofo - foto: André Klotz
Capulanas no mercado de Tofo – foto: André Klotz

Tofo é uma praia de surf, descolada e jovem. Com muitos turistas de todas as partes do mundo. Além da população local das vilas, há muitos estrangeiros europeus vivendo por lá. Foi assim que conhecemos a enérgica italiana Laura, que conheceu Tofo e nunca mais voltou para a Itália. Dona da charmosa Casa na Praia, onde nos hospedamos. São chalés de frente para o mar, rústicos e super aconchegantes. O restaurante fica de frente para o point de surfe. Adoramos o café da manhã, que servem com prensa francesa (praticamente todos os lugares servem café assim por lá) e panquecas de banana. Foi uma das melhores coisas que comemos, isso dito por quem não é muito fã de banana.

Casa na Praia, Tofo - foto: André Klotz
Casa na Praia, Tofo – foto: André Klotz

Tofo é natureza pura. Além do surfe, as águas mornas também atraem muitas pessoas para o mergulho. Moçambique é tido como um dos melhores lugares do mundo para scuba diving.

No fim de tarde, praticamente todos os dias, sentávamos no bar/restaurante do hotel Tofo Mar, com uma vista incrível do pôr do sol, para tomar um vinho. Por sinal, encontramos ótimos (e baratos) vinhos sul africanos por toda a viagem. Decidimos almoçar no hotel em um dos dias e foi de longe nossa melhor refeição até ali na viagem, com uma lagosta incrível e, de quebra, churros de sobremesa. Aliás, lagosta por lá é tipo churrasquinho por aqui. Tem em qualquer esquina, boa e barata. Para os amantes de doces, Moçambique será uma decepção. Definitivamente não foi o ponto alto da gastronomia. Mas você encontra pastel de nata em quase todo lugar.

Comemos também no tradicional Pizza’s & Hot Rocks. Uma mistura de pizzaria com grill. Carne, peixe ou frutos do mar servidos crus, com umas pedras super aquecidas para você grelhar na mesa. Uma delícia, além de ser o point noturno.

Claro que não conseguimos escapar das comprinhas. Bem na entrada da praia tem o mercado local de artesanato. E boa parte da população local vive dele. Tome cuidado por aqui porque quando um vendedor te pega, você se vê em uma cena de Walking Dead! Você será imediatamente cercado por todos os demais, que disputarão incansavelmente todos os seus Meticais, a moeda local. Principalmente se você for loiro e branquelo, com gringo escrito na testa. Mas isso são detalhes. Voltamos com estoque de capulanas e camisas com estampas coloridas que daria para abrir uma lojinha na 25 de março.

Por-do-sol em Tofo - foto: André Klotz
Por-do-sol em Tofo – foto: André Klotz

No nosso último dia em Tofo decidimos percorrer os vilarejos pelo interior. Alugamos quadriciclos para cruzar de Tofo até a ponta da peninsula ao norte. E conhecemos a pureza em plena miséria. Um nível de pobreza absoluta, muito além daquele que estamos acostumados a ver no Brasil. Nessa região, ciclones são comuns durante a estação chuvosa (novembro a abril) e chegamos justamente uma semana depois que um havia acabado de atingir o vilarejo. Cruzar os vilarejos foi uma emoção indescritível. Porque, mesmo naquele contexto de miséria somada à força da natureza, ao passarmos pelas casas que sobraram em pé, todas as crianças saíam para nos dar a mão. Com sorrisos no rosto, corriam em nossa direção. Queriam um toque, um carinho qualquer.

Vimos também muitas mães solteiras. Parece ser comum nessas vilas os homens abandonarem mulheres e filhos. Há um índice muito alto de alcoolismo. Nós, que viemos em busca de mar, acabamos encontrando um oceano de emoções que arrebatou nossos corações em Tofo, e foi uma despedida com a certeza de até breve.

Chegada na Ilha de Benguerra - foto: André Klotz
Chegada na Ilha de Benguerra – foto: André Klotz

Guardamos o melhor para o final. Nosso último destino foi o paradisíaco Azura, na Ilha de Benguerra. Esqueça tudo que você já imaginou ter visto sobre as cores do mar. Aqui o verde vira azul e se abre no infinito chamado Oceano Índico.

Ficamos na ilha a convite do Azura Hotel, com direito a chegada de helicóptero e recepção digna de lua de mel! Aliás a maioria dos casais que estavam na ilha tinham uma coisa em comum. Alianças recém colocadas em seus anulares, e brilho nos olhos de quem acabara de dizer ‘sim’.

O Azura é a síntese perfeita de luxo nos pequenos prazeres. Cada movimento que você fizer por lá, estará repleto de cuidado. São 17 vilas de frente para o mar. A nossa era maior que os nossos apartamentos em São Paulo. São 110m² só de quarto e banheiro. E mais 500m² de área externa, com direito a uma piscina só nossa.

Praia na Ilha de Benguerra - foto: André Klotz
Praia na Ilha de Benguerra – foto: André Klotz

Abrimos um parêntese para o acolhimento. Há uma alegria e orgulho em servir no moçambicano em geral. Mas aqui isso é levado ainda mais a sério. Conversando informalmente com os funcionários do hotel, a resposta de todos era categórica: a chegada do Azura mudou a vida na ilha. Porque além do hotel promover trabalho para os habitantes, construiu um posto médico, e uma escola que atende 300 crianças com o projeto chamado “In Rainbow”.

Ilha de Benguerra, Moçambique - foto: André Klotz
Ilha de Benguerra, Moçambique – foto: André Klotz

Fomos conhecer a escola de perto. As crianças em Benguerra guardam aquela inocência e curiosidade contagiantes típicas de ilhas isoladas da civilização. Quase nunca se viram em fotos, por exemplo, e ficaram completamente eufóricos quando sugerimos fazer uma foto da classe de aula! Foi um dia muito feliz, por poder compartilhar algo tão simples mas que foi tão impactante para eles. Benguerra é exatamente isso: simples e impactante.

Escola In Rainbow, Ilha de Benguerra, Moçambique - foto: André Klotz
Escola In Rainbow, Ilha de Benguerra, Moçambique – foto: André Klotz

Cruzar Moçambique nos fez sentir na pele todas as histórias contadas na literatura de Mia Couto e conhecer a miséria doce que ele descreve. No país em que as mulheres conjugam o verbo “ser” mulher e rompem silenciosamente vestidas com suas capulanas, crianças percorriam a poeira para pegar na nossa mão e a natureza se impôs, todos os dias, no azul mais completo do oceano Índico. Aqui a palavra que mais ouvimos foi “amigo”.

Sim Moçambique, amamos e fomos amados.

Reservas de acomodação.

Em Maputo:

Polana Serena Hotel
tel: + 258 21 241 700
email: [email protected]
www.serenahotels.com/serenapolana

Em Tofo:

Casa na Praia
tel: +258 82 82 15 921
email: [email protected]
www.casanapraiatofo.com

JC, o driver
tel: +25 8841072995
email: [email protected]

Ilha de Beguerra:

Azura Beguerra
tel: +27114670907
email: [email protected]
www.azura-retreats.com/azura-benguerra

Quem escreveu

Chicken or Pasta

Data

19 de April, 2017

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