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O interior da Irlanda pelo roteiro do Wild Atlantic Way 3

Quem escreveu

Carlos Raffaeli

Data

03 de February, 2017

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Siga os passos e a paz de São Patrício em County Mayo, e encontre ondas perfeitas – e geladas – em County Sligo e County Leitrim

County Mayo

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County Mayo

County Mayo é o terceiro maior condado da Irlanda, mas é um daqueles lugares dos quais pouco se ouve falar. Isso faz de Mayo um lugar especial, principalmente para os que buscam paisagens mais bucólicas e com baixa influência da indústria do turismo.

Seguindo a viagem pela estrada regional N59, a 30km do Killary Fjord, último ponto na etapa anterior da viagem, fica a cidade de Westport. Historicamente, Westport foi um importante porto pesqueiro local. Mas se hoje a economia da pesca já não tem o mesmo peso, ficou na cidade a tradição pela qualidade dos pratos a base de frutos do mar.

An Port Mòr é um restaurante de destaque bem no centro da pequena cidade e vale muito a pena parar para conhecê-lo. Saindo um pouco do centro, fica o Knockranny House Hotel & Spa, que além de servir ótimos pratos, fica instalado em um belíssimo e imenso tradicional palácio georgiano. Outras opções mais em conta são o Pantry & Corkscrew, na praça central, e as diversas opções de pubs e B&Bs que ficam ao redor do porto da cidade, a mais ou menos 3km de distância do centro.

Centro de Westport, Irlanda. Foto: Andreas F. Borchert
Centro de Westport, Irlanda. Foto: Andreas F. Borchert

A 10km ao sul de Westport fica um dos pontos turísticos de maior destaque em County Mayo, a montanha Croagh Patrick, um importante local de peregrinação na Irlanda e para o cristianismo. Algumas pessoas se referem ao local como ‘holy mountain’, ou montanha sagrada. Todo ano, Croagh Patrick recebe fiéis de toda parte da Irlanda para uma peregrinação no último domingo de julho.

A subida até o topo é cansativa, exige bastante esforço físico e dura em média de 3 a 4 horas para concluir. Mas uma vez chegando lá, a vista que se tem é extremamente recompensadora, de onde se avista os amplos campos verdes e as pequenas ilhas que compõem o litoral de Mayo.

Na descida, a parada no pub Murrisck Pub para um bom prato de mashed potato e uns pints de Guiness é obrigatória.


Embora menos conhecidos do que os santuários de Fátima e Lourdes, em Portugal e na França, a Irlanda abriga dois importantes locais de peregrinação cristã: a Croagh Mountain e o Knock Shrine, ambos em County Mayo. O enorme santuário de Knock, construído no interior do condado, foi erguido no local onde afirma-se que houve a aparição de Virgem Maria, São José e São João Batista. Hoje, atrai anualmente 1,5 milhão de turistas para a região. 


Antes um lugar de peregrinação pagã durante o solstício, Croagh Mountain tornou-se sagrada para os cristãos desde que São Patrício, célebre padroeiro da Irlanda, jejuou por quarenta dias na capela que havia no topo da montanha. A capela que existe hoje no local foi construída em 1905, mas as ruínas das fundações da capela original foram achadas em estudos arqueológicos e permanecem no local, podendo ser vistas de perto.

Capela em Croagh Patrick, no local onde São Patrício passou por um longo período de jejum. Foto: Störfix
Capela em Croagh Patrick, no local onde São Patrício passou por um longo período de jejum. Foto: Störfix

Ainda de Westport partem barcos em excursão até a ilha de Clare Island, onde morou uma importante figura para o folclore irlandês e para a cultura anglófona: Grace O’Malley, mudialmente conhecida como Pirate Queen. Temida devido à sua grande influência na região, a pirata mulher ganhou fama por saquear diversos navios ingleses e por negociar pessoalmente com a Rainha Elizabeth I. Viveu uma vida longa, ainda que no século XVII, e entrou para o imaginário coletivo da Irlanda e de países com herança cultural irlandesa, como Estados Unidos e a Austrália. Além da história de Grace O’Malley, Clare Island tem um cenário lindo, o que é mais do que um excelente motivo para ir até lá.

Croghaun Cliffs, em Achill Island, Irlanda. Foto: Deejayw
Croghaun Cliffs, em Achill Island, Irlanda. Foto: Deejayw

Seguindo 30km pela N59 até Mallarany, e depois pela estrada local R319, chega-se até o vilarejo de Achill para a travessia de uma pequena ponte que dá acesso a Achill Island, a maior ilha do território irlandês.

A ilha, onde a natureza impera, possui pelo menos cinco praias com o certificado Blue Flag Beach, padrão de qualidade de regiões praianas que atendam à rigorosos controles de sustentabilidade, qualidade de água e segurança. São elas: Dooega beach, Keel beach, Keem beach, Golden Strand beach e Dugort beach. Uma volta ao redor da ilha rende mais vistas impressionantes do mar e dos onipresentes cliffs. Ao sair da ilha pela mesma ponte, a dica é conhecer o McLoughlins Bar, um pub bem delicinha pra uma pint.

Voltando pela N59, a pouca distância dali está o Ballycroy National Park, estabelecido como parque nacional nos anos 90, e tratado como Área de Conservação Especial. Todo o esforço de preservação é dado pois a área do Rio Owenduff é uma das únicas na Europa Ocidental que tem sua paisagem original muito pouco ou quase nada modificada ou afetada pela atividade humana. Por isso, abriga uma importante biodiversidade, incluindo espécies exclusivas da região.

A paisagem do Ballycroy é visualmente diferente em relação aos outros parques pelos quais passamos até aqui com o Wild Atlantic Way. Nele a natureza é mais rasteira, mais pantanosa e mais adaptada à umidade, ao fog e ao frio

Owernduff river, no Ballycroy National Park, um dos poucos ecossistemas da Europa Ocidental que permanecem intocáveis. County Mayo, Irlanda. Foto: Henry Hiscox
Owernduff river, no Ballycroy National Park, um dos poucos ecossistemas da Europa Ocidental que permanecem intocáveis. County Mayo, Irlanda. Foto: Henry Hiscox

Saindo do Ballycroy, há a opção de seguir pela rodovia regional R313 e entrar em mais uma importante região An Ghaeltacht para conhecer a lindíssima península de Erris Head. Centrada na pequena vila de Belmullet, esta região corresponde a 10% da população An Ghaeltacht de toda a Irlanda e a península oferece mais natureza em estado puro em um belíssimo encontro com o mar.

Pegando o acesso para a rodovia local N315 em Crossmolina, siga em direção ao litoral norte para ainda mais cliffs em Down Patrick Head. O cenário incrível dos grandes paredões contra o mar é de tirar o fôlego, e lembra muito a beleza impressionante dos Cliffs of Moher. Com uma vantagem: há uma grande probabilidade de você curtir essa paisagem sem os grandes crowds de turistas. Além disso, Down Patrick Head abriga as ruínas de uma pequena capela fundada por São Patrício e uma estátua do próprio.

Para concluir o trajeto, pegue a estrada R314, passando por Killala e Ballina. Arranje um pub, tome um pint, descanse um pouquinho por que a viagem continua em County Sligo.

Downpatrick Head, última parada em county Mayo, Irlanda. Foto: Matpib
Downpatrick Head, última parada em County Mayo, Irlanda. Foto: Matpib

County Sligo e County Leitrim

Durante todo o trajeto do Wild Atlantic Way até aqui, nós já passamos por diversas praias e lajes que ofereciam ótimas condições para o surf, em diversos níveis de prática. Na região do Cliffs of Moher, por exemplo, as lajes chegam a ter ondas de até 5 metros de altura.

Embora a Irlanda não seja exatamente o primeiro país que nos vem à mente quando falamos de surf, a região formada pelos condados de Sligo e Leitrim, formando a baía de Donegal Bay, consolidou-se como um importantíssimo destino turístico da Irlanda entre os apaixonados pelo esporte. Nesta região fica o balneário de Bundoran, cidade listada pela National Geographic como um dos 20 melhores lugares para a prática de surf no mundo, e onde acontecem importantes campeonatos de surf durante o ano.

A baía de Donegal, formada pelos counties Sligo e Leitrim, em destaque, e county Donegal.
A baía de Donegal, formada pelos Counties Sligo e Leitrim, em destaque, e County Donegal.

Nesta parte da viagem, portanto, o destaque fica para as belas praias da região, algumas com belíssimas e longas extensões de areia dourada e ondas perfeitas. Partindo de Ballina, em Mayo, a primeira parada no litoral de County Sligo é a deserta praia de Enniscrone Beach. O visual é inacreditável.

Saindo de Ballina, pegue a rodovia local R297, prefira seguir pelo litoral até Enniscrone, em vez de pegar a rodovia regional N59.

O nascer do sol em Enniscrone Beach, Irlanda. Foto: Mark Timmons
O nascer do sol em Enniscrone Beach, Irlanda. Foto: Mark Timmons

Saindo de lá, seguindo pela R297, fica uma preciosa dica: a praia de Dunmoran Strand. Essa é a primeira praia da região virada para o norte, o que garante boas ondas. É um local praticamente deserto, de areia escura e de natureza impressionante. Para chegar até lá, deve-se pegar pequenas estradinhas apertadas por entre as fazendas do local até a praia. Além disso, todo dia 4 de julho acontece o “Dip the Nip”, um evento onde os moradores das regiões próximas se reúnem na praia deserta para um mergulho naturista. O pub The Beach Bar, uma das únicas construções do local, é parada obrigatória no cantinho da praia, mesmo para os que não quiserem mergulhar na água.

Dunmoran Strand, County Sligo, Ireland. Foto: Chrisps
Dunmoran Strand, County Sligo, Ireland. Foto: Chrisps

Seguindo viagem pela N59, o trajeto continua até passar pela cidade de Sligo, principal cidade da região. Por estar situada em uma região de interesse pelo ecoturismo e pelo surf, Sligo tem um ar consideravelmente movimentado, apesar de sua pequena população contar com apenas 20.000 pessoas. Além disso, Sligo ainda abriga um importante centro universitário de tecnologia, garantindo um movimento interessante nos pubs da cidade.

A história de Sligo está ligada à história do seu porto. Sua posição estratégica trouxe para a cidade uma tradicional cena cultural, sendo lar dos melhores músicos de música folk irlandesa e do prêmio Nobel WB Yeats.

Sligo town, Ireland. Foto: Jhyman90
Sligo town, Ireland. Foto: Jhyman90

Todo esse peso cultural se reflete na fama e na qualidade de seus antigos pubs, muitos deles pertencentes às mesmas famílias há mais de cem anos. É o caso do pub Thomas Connolly’s, o pub mais antigo da cidade e parada mais do que obrigatória. Inaugurado na década de 1890, tomar uma pint na sua longa e antiguíssima bancada é voltar ao tempo da Irlanda rural.

Os pontos de visita em Sligo ficam por conta da Sligo Abbey, um imenso complexo de ruínas do século XIII que domina o centro da pequena cidade; e da Cathedral of the Immaculate Conception, uma imensa catedral de pedra do século XIX.

No arredores da cidade fica o lago Lough Gill, cercado de natureza completa por todos os lados. Há diversas trilhas ao redor do lago para caminhadas e para se fazer de bike. De Sligo também saem barcos de turismo pelo lago. De uma maneira ou de outra, não deixe de visitar o imponente Parke’s Castleuma imensa construção de pedra do século XVII muito bem preservada, emuldurada por um cenário dos sonhos.

Parke's Castle, à beira do Lough Gill, Irlanda. Foto: Niall O'Donovan
Parke’s Castle, à beira do Lough Gill, Irlanda. Foto: Niall O’Donovan

Ainda nos arredores de Sligo, em direção ao vilarejo de Strandhill, fica a curiosa montanha de Knocknarea, onde, no topo, há um “amontoado” de pedras que acredita-se ter servido para adoração ao túmulo de Queen Maeves, importante figura da mitologia irlandesa. Queen Maeves viveu há mais de 2000 anos, e foi rainha de toda a província de Connaught. Este túmulo é um dos poucos túmulos pré-históricos que nunca foi aberto no mundo. A subida até o topo é leve e a vista lá de cima é extremamente recompensadora.

O monte Knocknarea visto de longe, com detalhe para o túmulo de Queen Maeves no topo. County Sligo, Irlanda. Foto: Dallan
O monte Knocknarea visto de longe, com detalhe para o túmulo de Queen Maeves no topo. County Sligo, Irlanda. Foto: Dallan

Ao pé de Knocknarea fica a vila de Strandhill, outro importante destino de surf, com uma grande extensão de areia e ondas boas para o surf durante todo o ano, incluindo ondas gigantes em épocas de maré altas. Todo domingo, no aeroporto de Sligo, vizinho à praia, acontece o Strandhill People’s Market, uma feira que reúne toda a comunidade local.

Ben Bulben Mountain, companhia constante nessa parte da viagem pela Irlanda. Foto: Andrea van der Wal
Ben Bulben Mountain, companhia constante nessa parte da viagem pela Irlanda. Foto: Andrea van der Wal

Seguindo com o trajeto do Wild Atlantic Way, continuando para o norte de Sligo, é impossível não notar a imponente montanha de Bennbulben Mountain, símbolo de toda aquela região e que acompanha toda a viagem de carro durante o trajeto nessa área.

Bem pertinho de Sligo, aos pés da Benbulben, fica o lago de Glencar Lake, também com paisagem incrível. Sua margem é ponto de partida para a trilha que leva até o topo da Benbulben Mountain, numa caminhada de nível muito avançado que requer certo preparo.

Para os que não estão com o preparo físico em dia, no início da trilha fica a delicada cachoeira Glencar Waterfall, que vale muitíssimo à pena conhecer. Um pouco mais acima, na mesma trilha, a cachoeira Sruth In Aghaidh An Aird, ou The Devil’s Chimney, surpreende pelo seu tamanho e força. Não é aconselhável fazer essa trilha se o tempo não estiver muito bom, pois a umidade aumenta os riscos da trilha.

A cachoeira Sruth In Aghaidh An Aird, ou The Devil’s Chimney, Irlanda. Foto: John Docherty
A cachoeira Sruth In Aghaidh An Aird, ou The Devil’s Chimney, Irlanda. Foto: John Docherty

Pegando a estrada N15 até Bundoran, são aproximadamente 40km de um litoral que oferece algumas oportunidades de ondas boas. Um ponto de destaque é a vila de pescadores de Mullaghmore Head, ideal para assistir as ondas gigantes que batem por ali. Para mim, esse é um dos pontos altos do Wild Atlantic Way. Para surfistas experientes e profissionais, essa é considerada uma das melhores ondas em toda a Europa. O castelo de Classiebawm é o ponto ideal para admirar esse fantástico paraíso.

As ondas em Mullaghmore Head, com o castelo de Classiebawn em destaque, e a Benbulben Mountain ao fundo. Cenário inesquecível. Foto: Mario Morandi
As ondas em Mullaghmore Head, com o castelo de Classiebawn em destaque, e a Benbulben Mountain ao fundo. Cenário inesquecível. Foto: Mario Morandi

Este trecho do WAW fecha justamente no balneário de Bundoran, que abriu este artigo. A cidade fica lotada nos meses de verão, com muitas atividades acontecendo o tempo todo. Mesmo nos dias frios de inverno, as atividades ligadas ao surfe continuam ocorrendo. As ondas de Bundoran são ideais para iniciantes e aventurar-se nessas águas frias é quase obrigatório para todo mundo que passa por aqui. Para isso, diversos pubs e B&Bs na região alugam todo o tipo de equipamento para a prática do esporte.

A parada na cidade deve incluir o pub Chasing Bull, onde quase todo mundo vai beber e ouvir música depois de um dia surfe.

Bundoran é uma experiência à parte no Wild Atlantic Way. Para mim, foi um dos motivos que me levou a conhecer a rota e ficou marcado na memória da minha viagem de uma forma muito especial. Mas a viagem continua, então lembre-se de se enxugar bem, de colocar um bom casaco pra se aquecer e seguimos viagem no próximo post até a última parte do roteiro: o mágico condado de Donegal.

A praia de Bundoran, Irlanda. Foto: Michael Jones.
A praia de Bundoran, Irlanda. Foto: Michael Jones.

Os dois primeiros posts da série estão aqui e aqui.

* Foto do destaque por Aleksandra Piechorowska – Flickr

Quem escreveu

Carlos Raffaeli

Data

03 de February, 2017

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Carlos Raffaeli

O Carlos é carioca e acredita que viajar é aprender. Em todos os sentidos de "viagem" e "aprendizado". Não liga para horóscopo mas é muito canceriano. Siga no instagram: @carlosraffaeli

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