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Como rodar o mundo em festivais de música mudou a minha vida

Quem escreveu

Lalai Persson

Data

07 de April, 2017

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Quem nunca sonhou em dar a volta ao mundo? Essa experiência habita o nosso imaginário em muitos momentos da vida, sejam eles de puro sonho ou de desespero. Dar a volta ao mundo foi um querer constante ao longo da minha vida, mas que nunca se mostrou possível. Quando finalmente me vi adulta, eu já acreditava que simplesmente dar a volta ao mundo poderia ser algo sem grandes significados. Para ter um sentido era necessário um objetivo maior, em que a “volta ao mundo” era o que viabilizaria a experiência. E foi assim que eu busquei por um bom motivo que me fizesse dar esse rolê doido pelo nosso planeta. Por que não juntar uma vontade adolescente à uma paixão? Pois bem, foi assim que nasceu o meu projeto de dar volta ao mundo em festivais de música.

O meu primeiro voo do projeto rumo à Suécia.

O plano não saiu exatamente como planejei. Por problemas pessoais, eu preferi não ficar tanto tempo distante de casa, o que, de alguma forma, deixou a trajetória um pouco mais cansativa. Fiz longas viagens, dei alguns pulinhos espertos em São Paulo para então voar novamente para algum canto do mundo.

Os grandes companheiros da minha odisséia: a jaqueta dourada e o Ola Persson.

Foi intenso, rico, caótico (porque sou péssima planejadora), divertido, cansativo em alguns momentos e também uma grande viagem para dentro de mim mesma. Quando decidimos por um “tempo sabático”, muitas vezes o motivo que nos move é justamente fugir um cadinho de nós mesmos para então nos reencontrarmos. E que reencontro eu tive!

Em 2015, a minha vida estava num momento maluco, com grandes mudanças, medos, desapegos, perdas. Aparentemente a única coisa boa era a liberdade de eu poder fazer o que eu quisesse, quando quisesse. Quantas vezes temos uma oportunidade assim na vida? Agarrei! Cheia de medo, ansiedade, esperança. Fui lá na gaveta e busquei as motivações. Bati em algumas portas e, então, a KLM abraçou o projeto comigo (aeeee!). Provavelmente se eles não tivessem topado, eu teria arrumado uma desculpa qualquer (dinheiro?) para continuar por aqui.

A largada foi dada ainda na Noruega com direito a celebração promovida pelos amigos. Obrigada Pri!
Minha primeira parada no projeto foi a Islândia. Antes do Sónar Reykjavik, aproveitei para dar um rolê pelo sul do país.

Passei por todos os continentes, conheci vários lugares novos, vi e revi bandas que amo, conheci outras que passei a amar, cruzei o caminho com pessoas interessantes, fiz muitos novos amigos, descobri novos lares, novas paixões, fiquei mais generosa, atenta e feliz. Cansei e senti falta do meu sofá, aquele lugar que está ali sempre te esperando para momentos em que você não quer fazer nada. Mas quando você está nessa estrada, isso vira luxo, porque você não quer perder um segundo sequer da sua experiência.

Sol nascendo no Open’er, festival na Polônia.

Não foi nada fácil planejar. Festivais de música bons não faltam ao redor do planeta e foi difícil definir um trajeto. Comecei a desenhar minha rota antes mesmo de ter decidido cair na estrada, mas ela mudou tantas vezes que mal consigo contar. Eu fechei dez festivais para ir ao longo do ano, mas eles foram mudando, uns entrando para a lista, outros saindo. O grande dilema é como estruturar uma agenda durante o verão no Hemisfério Norte, quando tudo acontece ao mesmo tempo. Sabe quando estamos num grande festival e temos que trabalhar o desapego para escolher um palco e abrir mão do outro? É exatamente essa a sensação. Tem a logística, custos, a facilidade de chegar e ir embora. Então criei alguns mecanismos para facilitar a minha vida, como optar por festivais menores; listar os artistas que eu queria ver em 2016 e ver em quais festivais eles tocariam; preferir festivais em cidades ou países que eu não conhecia e até mesmo sair da zona de conforto e escolher alguns festivais mais experimentais.

A volta completa ao redor do mundo foi feita em trezes meses, começando pela Islândia, um dos meus lugares favoritos na Terra, e terminando no Texas, nos Estados Unidos. Neste período eu visitei 18 festivais, passando praticamente 60 dias dentro de um festival de música: Sónar Reykjavik (Islândia), Sónar Estocolmo (Suécia), Lollapalooza São Paulo (Brasil), Afrikaburn (Tankwaa, África do Sul), Primavera Sound (Barcelona, Espanha), Open’er (Gdynia, Polônia), NOS Alive (Lisboa, Portugal), Brunch Electronik (Lisboa, Portugal), Into the Valley (Rättvik, Suécia), Way Out West (Gotemburgo, Suécia), Dekmantel (Amsterdã, Holanda), Berlin Atonal (Berlim, Alemanha), ADE (Amsterdã, Holanda), Montreaux Jazz Festival (Tóquio, Japão), Neon Lights Festival (Singapura), Tell No Tales (Melbourne, Austrália), Dekmantel São Paulo e SXSW (Austin, Texas). E ainda consegui pegar a Setouchi Trienalle, uma trienal de arte nas ilhas do Mar Interior de Seto, no Japão.

É difícil escolher os melhores e mesmo eleger um pior. Aprendi que uma boa experiência num festival de música é composta por vários fatores. O line-up é um dos detalhes (mais importantes, claro!). Ter amigos à volta faz toda a diferença e torna a experiência ainda mais especial. Mas não é só isso. Festivais que se preocupam com a experiência completa do público ganha muitos pontos. Nesse quesito, o Open’er, Dekmantel e o Way Out West foram eleitos os melhores por mim. O Primavera Sound só não entra nesta lista porque falhou na qualidade do som dos dois palcos principais, que estava baixo.

Hudson Mohawke @ SonarClub. Foto: Florian Trykowski / Divulgação
Berlin Atonal 2016. Foto: Resident Advisor – Camille Blake
Curtindo nosso tapete mágico no Afrikaburn
Way Out West 2016. Foto: Olle Kirchemeier
SXSW 2017
Arco-íris duplos pós-chuva no Open’er

No Sónar Reykjavik eu vi como os islandeses curtem um festival e descobri que o hip-hop, mais do que qualquer estilo, é o favorito deles. Berlim se mostrou de fato a meca da música eletrônica com o Atonal, onde toda a experimentação é bem-vinda e o público realmente abraça o estranhamento musical contemplando os shows como pouco vi na vida. Os australianos são mais afáveis e amigáveis do que imaginei. Aprendi a identificar como os ingleses curtem um festival de música. Aprendi no Afrikaburn como o mundo pode funcionar se a troca for a única maneira de sobrevivência. Já no SXSW, eu tentei aprender a lidar com a FOMO (medo de estar perdendo alguma coisa) e não consegui. O Way Out West me ensinou sobre como construir um festival sustentável, e em como as marcas podem contribuir com o evento tornando a experiência ainda melhor do que ela pode ser. Já no Open’er eu percebi como é bacana um festival criar uma experiência boa para a família completa, mesmo que nela tenha um bebê de colo.

Sigur Rós no último show de 2016, em Taipei. Foto: Moody Man
PJ Harvey. Foto: festivalflyer
Radiohead no Primavera Sound. Foto: Ferran Sendra

A música sempre me emocionou muito. Neste último ano, o Sigur Rós, PJ Harvey, Radiohead e LCD Soundsystem foram os que conseguiram me hipnotizar, fazendo eu derrubar algumas lágrimas. Com exceção do Radiohead, que vi duas vezes, os demais eu vi três. E foi uma loucura!

O dia da tensão: Polônia enfrenta Portugal na semi-final e perde. O pessoal foi vestido de torcida para o festival.

Tive dois momentos bem especiais com a final da Eurocopa, pois eu estava na Polônia quando eles perderam para Portugal, no meio do show do Red Hot Chilli Peppers e foi uma tristeza geral. Coincidentemente, eu estava no Brunch Eletronik, em Lisboa, quando Portugal venceu a final contra a França. Foi uma emoção sem fim estar na cidade naquele dia.

A Black Madonna no Greenhouse. Foto: Bart Heemskerk

Foram trezes meses me emocionando por estar realizando um projeto pessoal, por estar conhecendo e me embrenhando por novas culturas, por estar criando novos laços. A lição é a de sempre: voltamos mais generosos, realizados e, principalmente, nos conhecendo melhor do que quando começamos a odisseia. Tiveram momentos difíceis, especialmente quando eu estava completamente sozinha. Mas foram importantes para essa revolução pessoal que veio bonificada no meio da minha experiência. Além de tudo, descobri no meio desse processo uma nova profissão a seguir, a qual eu abracei com força e sigo investindo nela.

Estou mais feliz e mais certa de que posso fazer o que eu quiser. Pode parecer clichê, mas você também! Quando olho para trás e me vejo há quinze anos, eu me comovo. Na época um projeto como este era uma grande utopia para mim, tanto que sequer eu sonhava com ele. Se animou? Dá uma olhada aqui na lista de festivais que preparamos para este ano.

Para quem gosta de números:

42 vôos
16 escalas
28 cidades
13 países
1 ônibus
13 trens
4 caronas
12,5 dias viajando (desses, foram 10 dias no ar)
59 dias em festivais
61 horas (média) em escala (quase 2,5 dias)
13 vezes em Amsterdã
51 horas gastas em média de traslado

Realmente foi <3

Agradeço imensamente a KLM Brasil por ter acreditado no projeto e ter apostado nele. Agradecimentos especiais ao German Carmona, Christine Honoré, Gustavo Yazbek e Bruno Stucchi pela parceria e paciência que tiveram comigo ao longo das minhas idas e vindas. Obrigada a todos os amigos que apoiaram e aos que estiveram presentes comigo em algumas pistas, foi maravilhoso estar com vocês. Dar a volta ao mundo em festivais de música foi uma das coisas mais legais que já fiz na vida.

*A Volta ao Mundo em Festivais de Música foi patrocinada pela KLM Brasil, que faz parte do SkyTeam e oferece voos para 1.052 destinos em 177 países, o que trouxe uma boa diversidade de destinos para realizar o projeto #fly2fest.

Quem escreveu

Lalai Persson

Data

07 de April, 2017

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