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Cidades inteligentes – Será o fim da privacidade?

Quem escreveu

Dani Valentin

Data

06 de December, 2017

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Na nossa busca por cidades mais eficientes, seguras, sustentáveis e mais limpas, começamos a usar e abusar de toda forma de tecnologia para coletar dados. Nas chamadas cidades inteligentes, tecnologia de informação e comunicação são integradas com dispositivos físicos para captar basicamente dois tipos de informação: dados agregados, que são uma quantidade grande de informação normalmente sobre um determinado lugar e que serve principalmente para detectar uma tendência; e dados em tempo real, focados nos indivíduos.

São inúmeros os casos de sucesso no emprego de tecnologia para aumentar a eficiência de uma cidade: Barcelona possui sensores no Parc Del Centre de Poblenou, que notifica os jardineiros de lá sobre o nível de água das plantas. A cidade tem também um sistema para determinar a luminosidade das suas lâmpadas, dependendo da quantidade de pessoas presentes nos parques. Em Estocolmo, o programa Green IT pretende reduzir o impacto ambiental monitorando o trânsito e vagas de estacionamento. Boston tem usado tecnologia para diminuir acidentes em suas ruas, juntando dados que irão melhorar o design delas.

Foto: Dayne Topkin / Unsplash
Foto: Dayne Topkin / Unsplash

Tudo parece muito lindo e muito bom até a gente esbarrar no grande problema: como manter a privacidade em um ambiente desses? Com dados agregados é até possível manter o anonimato, mas com dados em tempo real isso é praticamente impossível. O grande medo, e não sem fundamento, é que governos usem esses dados para maximizar a vigilância de seus cidadãos. Não só isso, mas que esses dados sejam vendidos para fins publicitários ou até mesmo que caiam nas mãos erradas. O pior disso tudo é que na maioria desses casos, as pessoas não são informadas do que está acontecendo ou até mesmo do que isso significa.

Em Singapura, por exemplo, o governo tem planos de obrigar todos os carros a ter um sistema de navegação por satélite. Desse modo, eles terão dados da localização do veículo em qualquer momento, incluindo direção e velocidade. Por lá também, idosos e pessoas doentes podem optar por um programa que monitora movimento dentro de seus apartamentos. O problema é que já existe a preocupação que Singapura não tem leis de privacidade, o direito a ela não está garantido nem em sua constituição. E aí a gente tem que o principal partido do país é conhecido por suprimir dissidentes e por isso ele é considerado como “parcialmente livre” pelo Freedom House. O que um governo desse pode fazer com toda essa informação em mãos?

O Black Mirror Chinês

No primeiro capítulo da terceira temporada da série Black Mirror, a protagonista Lacie Pound está desesperada para elevar sua pontuação em um aplicativo que mede todas as suas ações. O desespero não é para menos, uma classificação ruim interfere no tipo de carro que a pessoa pode alugar ou até mesmo no tratamento que ela pode receber em um hospital.  É claro que quando o assunto é Black Mirror, a gente dá aquele sorriso nervoso, porque tudo é possível demais por ali. Então quando vemos o Sistema de Crédito Social (SCS) que o governo chinês está implantando, é impossível não suar.

Foto: Denys Nevozhai / Unsplash
Foto: Denys Nevozhai / Unsplash

No modelo chinês, o comportamento do indivíduo é avaliado e ele ganha pontos de acordo com um algoritmo pré-determinado. A participação é ainda voluntária, mas em 2020 será obrigatória não só para cidadãos mas também para empresas e entidades. Segundo o governo, ele quer fortalecer a sinceridade em vários âmbitos: no governamental, comercial, social e na construção judicial. Óbvio que se falando de China, todas as luzes vermelhas se acendem, já que mesmo hoje não é “inteligente” por parte do cidadão chinês postar opiniões políticas contrárias na internet.

Oito empresas ganharam licença para desenvolver o sistema para o SCS. Dessas, duas estão se sobressaindo: a China Rapid Finance e a Sesame Credit. Essas duas empresas já possuem acesso a uma quantidade enorme de dados: a primeira tem como parceira a Tencent, que desenvolveu o WeChat com mais de 850 milhões de usuários ativos. Já a Sesame Credit é de uma empresa afiliada do Alibaba e tem acesso a pagamentos online feitos pela AliPay, dados da Didi Chuxing, dona das operações do Uber na China desde 2016, e aos dados da Baihe, o maior serviço de relacionamentos de lá.

O Sesame Credit passou para a Wired cinco fatores que influenciam a pontuação de um usuário no sistema deles, que inclui histórico de crédito, características pessoais e comportamentais. Porém, dois fatores são intrigantes: suas relações interpessoais, ou seja, o que seus amigos fazem ou falam influenciam a sua nota; e por último, seus hábitos de consumo.

Mesmo não sendo obrigatório, o sistema já tem milhares de voluntários inscritos. Isso porque ele oferece um sistema de compensação para aqueles que atingem certa pontuação: por exemplo, se você chegar em 600 pontos, você pode conseguir um empréstimo de 5000 yuan; Se você tiver 750, consegue uma aplicação rápida para um visto para a Europa/Schengen. Segundo a Sesame, postagens negativas nas redes sociais não influenciam a pontuação. Será?

* Foto de capa: Scott Webb on Unsplash

Quem escreveu

Dani Valentin

Data

06 de December, 2017

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