Viagem

Banir laptops e tablets de voos: segurança ou loucura?

Quem escreveu

Renato Salles

Data

10 de April, 2017

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Até o fatídico 11 de setembro de 2001, a segurança em aeroportos era uma verdadeira palhaçada. Só não era pior que a revista dos seguranças de balada, que passam a mão ao redor do teu cinto com bem pouca vontade e pronto. Mas 16 anos depois do atentado, todos nós já nos acostumamos com o processo penoso de passar pela revista. Tira sapato, abre mochila, tira laptop, joga fora o golinho d’água e o perigoso cortador de unha, e por aí vai. Mas a era Trump está elevando tanto os níveis de paranóia com a “proteção de passageiros”, que as medidas tomadas já estão beirando o ridículo, e causando muita controvérsia mundo afora.

No último dia 20, o departamento de segurança nacional americano anunciou novas regras de segurança que obrigam passageiros de seis países de maioria muçulmana a abrir mão de entrar nos aviões com computadores, laptops e qualquer outro aparelho eletrônico “maior que um celular”. Detalhe, são países diferentes da primeira lista de nacionalidades proibidas de entrar, e todos eles são aliados políticos e econômicos dos EUA. Na lista estão Jordânia, Egito, Turquia, Arábia Saudita, Marrocos, Qatar, Kuwait e Emirados Árabes. Em seguida, o Reino Unidos adotou medidas similares, colocando na lista negra também o Líbano e a Tunísia. Segundo a medida, se você está saindo de algum desses países (ou indo para eles), você pode levar exclusivamente para dentro da cabine teu celular. O resto você ou despacha na mala, ou deixa em casa. Estão aí não só os laptops e tablets, mas também jogos eletrônicos, DVD players, câmeras fotográficas, etc.

A história toda está quase tão mal contada quanto as acusações de Trump de ter sido espionado. Para começo de conversa, a proibição afeta exclusivamente aeroportos para onde companhias americanas não voam. E curiosamente essas mesmas companhias andavam reclamando do aumento de faixa de mercado de poderosas como a Emirates, Etihad e a Qatar Airlines. Só aí já são mais de 50 vôos diários impactados pela medida.

Países onde a medida interfere – Imagem: CNN Money

Segundo, e mais estranho, é que o FAA usou como argumento para tomar essa decisão no sistema de inteligência que indica que ‘algumas organizações terroristas’ estão trabalhando em formas de contrabandear bombas dentro de equipamentos eletrônicos para dentro de aviões. Como exemplo, eles usam o caso de fevereiro de 2016 (sim, mais de um ano atrás), em que um avião da companhia somali Daallo sofreu uma explosão na rota entre Mogadishu e Djibouti. Conseguiu ver como isso tem tudo a ver? Eu também não. (Só complementando o argumento, outro dois casos recentes de bombas em avião são de um voo da Air France com um cidadão inglês com bombas no sapato, e de um vôo indo de Amsterdã para Detroit, com um nigeriano com bomba na cueca, ou seja…)

Especialistas em segurança são categóricos em afirmar que a medida não tem nem pé nem cabeça, e os motivos são vários: celulares podem ser tão perigosos quanto qualquer outro equipamento eletrônico, é mais fácil colocar uma bomba despachando numa mala do que passar com ela pela inspeção aeroportuária, terroristas podem tentar o atentado de qualquer aeroporto do mundo, e por aí vai.

Mas a medida tem causado mais controvérsia ainda por outro detalhe: o fato de você separar obrigatoriamente o passageiro de seus equipamentos colocam em risco a privacidade dele. Qualquer mala chegando aos EUA pode parar na mão de fiscais que não hesitariam em investigar todo o conteúdo de computadores, por exemplo. E os oficiais americanos já provaram em casos bizarros que eles não tem nada que os impeça de vasculhar a vida digital de qualquer pessoa que queira entrar no país. Acredite ou não, até o designer mundialmente famoso Karim Rashid teve problemas na imigração.

No meio dessa confusão toda, teve gente que tentou ver graça na tragédia. A Royal Jordanian, uma das 10 companhias afetadas diretamente pela nova lei, postou nas redes sociais uma divertida lista com ’12 coisas para fazer em um vôo de 12 horas sem laptop ou tablet’. Além das atividades óbvias como ler um livro, eles sugerem discorrer sobre os milagres da aviação, tentar descobrir o sentido da vida, ou começar uma conversa primitiva da era pré-digital. A Emirates e a Qatar usaram a história para fazer propaganda de seus entretenimentos de bordo. A Qatar ainda foi além e está até oferecendo laptops emprestados para os clientes premium.

Pode parecer tudo piada, mas a coisa toda está ficando cada vez mais feia, e vai acabar afetando o mundo inteiro. No meio das loucuras xenófobas de Trump, a União Européia resolveu discutir a possibilidade de voltar com a obrigação de visto para a entrada de americanos, o que seria um retrocesso diplomático absurdo de décadas.

E mesmo nós, brasileiros, não estamos livres das sanções impostas pelo FAA. Há duas semanas, um publicitário paulista voltava de uma semana de trabalho em Londres, quando quase teve seu laptop apreendido em Heathrow gratuitamente. O absurdo pode ser motivado pelo seu nome, claramente de origem árabe, mas até aí, imagina se forem agora parar qualquer um, de qualquer nacionalidade, por conta do sobrenome, né? O fato é que, depois de muita canseira dos agentes, ele teve o laptop liberado, mas a essa altura já tinha pedido para a British Airways separar sua mala, e despachou o computador antes de embarcar.

*Imagem do destaque – CNN Money

Quem escreveu

Renato Salles

Data

10 de April, 2017

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