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Um hotel para estudantes em Groningen, na Holanda

Quem escreveu

João Perassolo

Data

06 de September, 2016

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Foi fácil optar por uma moradia em Groningen, cidade no norte da Holanda na qual passei a viver há algumas semanas para cursar o mestrado em jornalismo na Universidade de Groningen. O pequeno município de 200 mil habitantes, capital da província de mesmo nome, se destaca por ser um centro universitário e jovem: segundo dados da prefeitura, 1 em cada 4 habitantes é estudante, e metade da população tem 35 anos ou menos. Nos meses que antecedem o começo do ano letivo, em setembro, uma nova leva de universitários com orçamento limitado sai em busca de casas a preços acessíveis, e isto se traduz em um mercado imobiliário complicado. Embora os alugueis não sejam tão caros quanto os da região do Randstad (Amsterdã, Utrecht, Roterdã, Haia e arredores), há escassez de quartos em função da altíssima procura.

Groninger no inverno. Foto: Bert Kaufmann
Groningen no inverno. Foto: Bert Kaufmann

A Universidade me sugeria duas opções. A primeira era um apartamento de 18 metros quadrados em uma residência estudantil, sem banheiro nem cozinha, espartanamente mobiliado – uma cama de solteiro, um armário, uma escrivaninha e uma cadeira – a quatro quilômetros do prédio onde seriam as aulas, por cerca de €400 mensais. Ou um quarto do mesmo tamanho em um hotel voltado para estudantes que começaria a operar em julho, situado a 800 metros do campus central. Mas os diferenciais do empreendimento, chamado The Student Hotel, não eram somente a localização privilegiada e o cheirinho de novo.

A fachada do Student Hotel
A fachada do Student Hotel

A mobília do quarto, embora também minimalista, parecia muito mais confortável, a julgar pelas fotos do site: uma cama king size, uma mesa de trabalho que não tinha cara de ter sido comprada no Extra, um armário com bastante espaço para roupas, calçados e malas, uma estante para livros e objetos, um móvel para a TV, a própria TV com pacote de canais a cabo, e um banheiro privativo. Com a cozinha dividida entre 8 pessoas, a conta fecharia em €665 mensais, aí incluídos internet, luz e aquecimento, mais confortos como academia de ginástica, mesa de ping pong, sala de estudos e uma bicicleta emprestada pelo tempo de duração do contrato.

Apart hotel descolado

Bar e restaurante Dive
Bar e restaurante Dive

Criado em Amsterdã em 2012 pelo empreendedor escocês Charlie MacGregor, cuja família começou a construir acomodações de estudantes para a Universidade de Edimburgo nos anos 80, a ideia do The Student Hotel é trazer personalidade aos tradicionalmente estéreis dormitórios universitários. Em um vídeo promocional, MacGregor diz que não gostava “da falta de alma e da falta de design” destes lugares: ”eu gosto de design, de coisas boas, quero estar em um ambiente legal, e talvez meus clientes também. Então vi a oportunidade de começar a partir de uma página em branco.”

Saindo da prancheta, o plano de negócios significou converter imóveis existentes em hotéis com design de ponta, decoração à Williamsburg e conforto cinco estrelas, nos quais os estudantes pudessem morar individualmente nos quartos e socializar na cozinha e nas áreas comuns do lobby. “O lugar para os curiosos e inacabados”, segundo o slogan no site, também recebe hóspedes para estadias curtas ou de alguns meses. Atualmente, são oito unidades espalhadas por sete cidades: seis na Holanda (Roterdã, Haia, Groningen, Eindhoven e dois em Amsterdã), uma em Paris e uma em Barcelona.

Inaugurado na primeira quinzena de julho, o de Groningen foi o único da rede construído do zero. As obras duraram cerca de um ano. O prédio de tijolos à vista e fachada divertida está no Ebbingekwartier, bairro a duas quadras da região central de Groningen que passa por um momento de gentrificação – sim, aqui também tem. Supermercados e farmácias agora dividem a quadra com bares, baladas, coffee shops e zonas industriais meio desertas, cujas paredes estão cobertas por graffiti. Pode-se questionar o processo através do qual uma área passa a ter cara de Brooklyn, mas é inegável a (interessante) vibe urbana que ruas pacatas em uma cidade do interior passam a mostrar.

E como é morar em um hotel-tendência?

Um dos lounges do hotel
Um dos lounges do hotel

Para começar, é importante deixar claro que no The Student Hotel, nem o conforto nem a praticidade foram sacrificados em função do design. Quem gosta de explorar hotéis, cafés e restaurantes voltados para os millennials sabe bem como, em boa parte das vezes, aquela linda cadeira de madeira, desenvolvida por um marceneiro super cool, é terrivelmente incômoda depois de alguns minutos; ou como o excesso de concreto à mostra e de tubulações aparentes pode deixar um ambiente duro – e não há bulbo de lâmpada estilo Thomas Edison para aquecer a frieza de uma sala cinza.

O quarto de 18 metros quadrados é pequeno, mas tudo foi pensado para que o conteúdo de uma mudança de três malas grandes caiba apropriadamente. Além do armário dividido em vários nichos, há uma estante em forma retangular presa a um mural na parede. Logo abaixo, uma ripa de metal abrangendo toda a extensão do mural oferece mais espaço para objetos, além de contar com vários ganchos para pendurar sacolas, roupas… Há uma mesa de estudos com luminária, uma cadeira e uma cama king size muito confortável, exatamente como o esperado para um hotel. O banheiro é correto e funcional.

Antes de mudar, pedi que fosse alocado em um andar alto e com uma vista boa da cidade, conforme mostram as fotos do site. Moro agora no sétimo andar, e através da janela tenho uma visão panorâmica do centro de Groningen. Quando olho para a rua, vejo à direita a Martinikerk (igreja principal), à esquerda um neon do McDonald’s e, entre ambos, casas e prédios tipicamente holandeses, que lembram aqueles brinquedos de bloquinhos de madeira para criança. De tempos em tempos, é possível ouvir o badalar dos sinos, momento no qual me sinto em um cenário de filme de Natal.

Vista da cidade a partir de um dos quartos
Vista da cidade a partir de um dos quartos

Divido a cozinha com mais oito pessoas. Equipada com duas pias, dois microondas, dois fornos elétricos, três cooktops e uma lava-louças, nunca falta lugar para preparar a comida e arrumar tudo em seguida. Além disso, cada um dos moradores têm estantes exclusivas na geladeira, no freezer e no armário. Mas sempre há farelo de comida na mesa porque alguém não passou uma ‘feiticeira’ antes de você chegar, e quase ninguém respeita a separação do lixo em reciclável e perecível – as latas cheias ficam ali por dias a fio esperando para serem carregadas até os contêineres nos fundos do prédio, onde serão recolhidas pela prefeitura. A regra que estipula que cada morador é responsável pela própria limpeza é bonita em tese, mas na prática gostaria de uma cozinha mais limpa, já que o hotel faz faxina apenas uma vez por semana.

Outro ponto negativo é o fato de haver um único elevador para 194 quartos. Demora para chegar, está geralmente cheio e quem entrou no primeiro andar querendo descer para o lobby está dando risada quando a porta abre no quarto, no quinto, no sexto, no sétimo, no oitavo e no nono para atender aos chamados. O elevador só abre as portas nos andares quando está subindo, não descendo, então você é obrigado a entrar se não quiser esperar mais. Há uma outra torre de apartamentos – ambas fazem parte da mesma edificação -, na qual acredito que o problema se repita.

Como Groningen é uma cidade na qual mais da metade dos deslocamentos internos são feitos pedalando, o valor do aluguel inclui o acesso à uma bicicleta. O The Student Hotel empresta a magrela pelo tempo da sua estadia, e você a devolve na hora de fazer o check out. No entanto, ainda não tirei a minha da garagem, porque a cidade é pequena a ponto de eu conseguir resolver a vida em um raio de quatro quilômetros, então prefiro caminhar para todos os lugares.

Fazendo amigos de vários lugares do mundo

Sala de Jogos no Student Hotel
Sala de Jogos no Student Hotel

O diferencial de viver no The Student Hotel, segundo o fundador da rede, é poder encontrar e conversar com gente de vários países, sejam hóspedes temporários ou moradores – uma mistura saudável, como se você estivesse na rua ou em um café. Há amplas áreas comuns para socialização: seis salas de estar com poltronas, sofás e mesas de centro, bancadas com tomadas de computador para estudo, uma biblioteca, uma sala de jogos com mesas de ping pong e de pebolim, além de um bar-restaurante aberto ao público geral.

É muito fácil sair do casulo, sobretudo se considerarmos que quem se hospeda em um lugar como este está pré-disposto a conversar com estranhos. Para complementar, o hotel inventou duas maneiras de estimular ainda mais a interação: uma agenda de festas e eventos (palestras, passeios de bicicleta, noitadas) e uma rede social própria para os moradores, onde você pode ver se algum grupo está planejando um drink e juntar-se a eles.

Moradores têm desconto de 20% no bar e restaurante Dive, que abre com um buffet de café da manhã a €12 e só fecha por volta de meia-noite, com horário estendido nos fins-de-semana. Há um hambúrguer excelente, pizza e batatas fritas apenas ok e boas cervejas artesanais. O ambiente se estende para a calçada, com cadeiras de praia para pegar sol e mesas para jantar. O gerente me contou que está conversando com a prefeitura para que dois parklets sejam instalados em frente, removendo as vagas de carro e ampliando o espaço para convivência. Dá para notar pela frequência que o Dive é uma boa adição à cena de restaurantes da cidade.

Passando a régua

É comum que eu receba olhares de “nossa, como você paga caro” ao responder à pergunta “você já tem quarto?”, mas depois de conhecer apartamentos com cara de repúblicas – muito bagunçadas, diga-se – que não saem por menos de €400 por mês e exigem que o candidato ao quarto passe pelo crivo dos outros moradores da casa, concluí que o preço do The Student Hotel pode não ser acessível, mas é razoável, considerando o que oferece. Sim, a lavanderia poderia ser de graça (€4,50 para cada 5 quilos de roupa) e a academia de ginástica se beneficiaria de mais alguns equipamentos. Mas, honestamente, estes são pormenores no hotel que entrega o que promete: um lugar calmo e confortável para estudar, com espaço para socializar em uma partida de ping-pong ou simplesmente relaxar, estendendo as pernas no sofá.

Quem escreveu

João Perassolo

Data

06 de September, 2016

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João Perassolo

João Perassolo é jornalista. Recentemente, trocou São Paulo por uma pequena cidade no norte da Holanda de nome complicado de pronunciar: Groningen, na qual o primeiro “g" se lê como os dois erres em “carro”. Sempre trabalhou com cultura, mas resolveu cursar um mestrado em Jornalismo para ver se aprende sobre o lado sério da profissão.

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